Bernardo Trindade, presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), admitiu este sábado ao Observador que está a haver uma redução das taxas de ocupação nos hotéis no país, mas garante que o atual cenário internacional pode ter um efeito “positivo” a curto prazo para o turismo nacional. O dirigente defende ainda um equilbrio “aprofundado” do turismo pelo território portugueês e pede visitas ao centro do país.
O presidente da AHP admite que se vive um “momento de grande imprevisibilidade“, devido aos conflito à escala global e, pondo-se na “pele do turista”, compreende as reservas tardias. Segundo um inquérito interno da AHP, “as taxas de ocupação estão mais baixas” em relação ao período homólogo do ano passado, mas tem expectativas sobre o aumento das reservas perto do período de alta do turismo, no verão, sobretudo em relação ao Algarve e à Madeira.
Apesar da incerteza, Bernardo Trindade acredita que o atual cenário internacional pode ter um efeito “positivo” em Portugal, pois a “distância das zonas de conflito permite poder beneficiar de alguns fluxos“, como no caso de Chipre, Turquia ou Tunísia, que estão a ser trocados pelo Algarve, como aconteceu durante a Primavera Árabe, em 2011. Porém, alerta que “isto não pode ser uma prática habitual, porque não é sustentável“, pois um “quadro de conflitualidade permanente” muda o fator-geografia para o fator-comportamental, em que a incerteza e o agravamento dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis impedem as pessoas de viajar.
Admite que, apesar das companhias aéreas serem “um agente económico racional”, podem reduzir voos e “fazer reescalonamento das próprias frequências”, devido ao aumento do preço dos combustíveis, provocado pelo conflito no Irão.
Sobre o novo mecanismo de controlo de entradas e saídas nos aeroportos, que entrou em vigor em dezembro de 2025, Bernardo Trindade afirma que o constrangimento faz-se sentir nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro, e que a medida “devia ter sido melhor calculada” em todos os países da União Europeia.
“Ponhamo-nos, outra vez, na pele do turista: qual é a ideia que temos de uma experiência que, aquando da chegada ao destino, eu estou quatro ou cinco horas para entrar nele? Como é evidente, é um golo na própria baliza”, lamenta, mas elogia o reforço dos agentes nos aeroportos e o compromisso de Luís Neves, ministro da Administração Interna, em aumentar os meios humanos e técnicos, conforme anunciado na sexta-feira.
Necessidade de um equilíbro “aprofundado” no turismo e de solidariedade para com o Centro
Bernardo Trindade sublinha que “os números [de turistas] ao longo dos anos têm crescido democraticamente” em todo o território nacional, e que impacta 49 atividades económicas “direta ou indiretamente”. O presidente da AHP reconhece que os territórios, para serem visitados, “têm, primeiro, de ser vividos”, e defende um equilíbrio “aprofundado” da distribuição do turismo no território nacional. Dando o exemplo de Lisboa, avisa que o aumento do licenciamento de hotéis para “os mesmos clientes” resultam em menores taxas de ocupação e numa “degradação da qualidade” da oferta.
Em relação ao centro do país, assolado pelas tempestades de janeiro e fevereiro, acredita que todos devem ser “solidários” e incentiva ao turismo na região. Destaca um “esforço muito grande no sentido de reabilitar todo o espaço” após as intempéries e elogia o esforço que a região fez nos últimos anos em termos de diversificação da oferta turística.