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Ao terceiro dia de competição, chegou o duelo mais exótico e que só é possível a partir do alargamento da competição para as 48 seleções. Apesar de ser uma seleção alternativa e, quiçá, uma das piores da competição na América do Norte, o Haiti voltou a jogar um Campeonato do Mundo 52 anos depois, aproveitando da melhor forma a ausência das principais seleções da sua região na fase de qualificação. O objetivo era claro e passava por somar os primeiros pontos ao longo destes três jogos. Afinal, num grupo com Brasil, Marrocos e Escócia, pouco mais havia a fazer. Nesse sentido, esta era, igualmente, a melhor oportunidade para os escoceses vencerem e colocarem-se em posição privilegiada nas contas do apuramento, ainda que a tartan army tenha estado arredada destes palcos nos últimos 28 anos.

Há 76 anos, os EUA conseguiam o “Milagre na Relva” contra Inglaterra. O herói do jogo foi o haitiano Joe Gaetjens

Na antecâmara deste jogo, o nome de Diogo Jota voltou a aparecer à tona, dado que o amigo Andy Robertson ia estrear-se num Mundial. Nesse sentido, Rute Costa, viúva do português, escreveu uma carta ao capitão da Escócia que comoveu o mundo. “Escrevo-te com o coração cheio de gratidão e, acima de tudo, orgulho. O Diogo falava muitas vezes de ti. Da amizade que construíram, das batalhas que travaram juntos, dos desafios, das gargalhadas, das conversas sobre futebol… e sobre sonhos. O Campeonato do Mundo era um desses sonhos, um sonho que os dois alimentaram, lado a lado, com a mesma paixão com que entravam em campo. Quando ouvi as tuas palavras percebi que o Diogo nunca saiu verdadeiramente do campo. Ao garantires o teu lugar no Mundial, não irás sozinho. E quando entrares em campo, sei que não serás apenas tu a caminhar, o Diogo estará contigo nos teus pensamentos, nos teus passos, no teu coração”, escreveu Rute.

“Espero que possamos ser uma das surpresas do torneio. Considero que o futebol é um jogo e que, no final, há um vencedor e um vencido. Se queremos ganhar os jogos, temos de marcar golos, independentemente do adversário. 1974 foi o nosso primeiro feito de sempre, mas isso aconteceu há 52 anos. Hoje é uma história completamente diferente. Mais uma vez, qualificámo-nos 52 anos depois e agora precisamos de fazer história novamente para garantir a qualificação para a próxima fase. Tendo em conta os nossos adversários, temos de dar um passo em frente. Se queremos fazer história, conquistando a nossa primeira vitória de sempre e a oportunidade de nos qualificarmos, temos de marcar golos, independentemente do adversário. Talvez os meus jogadores sejam menos conhecidos, mas digo que o que importa é o rasto que deixamos. Esperamos que, no final do torneio, possamos deixar a nossa marca nesta competição”, perspetivou Sébastien Migné, selecionador dos grenadiers.

O Haiti entrou em campo com o experiente Johnny Placide na baliza e Frantzdy Pierrot e Wilson Isidor na frente de ataque, com Migné a deixar Yassin Fortuné, do Vizela, no banco de suplentes. Por sua vez, Steve Clarke fez apenas uma mudança em relação ao último jogo particular da Escócia, com Ryan Christie a sair do onze, que contou com a presença de Andy Robertson. Com um forte contingente de haitianos e escoceses nas bancadas do Gillette Stadium e as duas equipas assentes num 4x4x2 muito similar, o jogo começou com muitos duelos físicos e os caribenhos a mostrarem valências ofensivas. A primeira oportunidade de golo saiu dos pés de Scott McTominay que, à entrada da área, correspondeu ao cruzamento de Ben Gannon-Doak com um remate que acertou em cheio no poste direito (17′). Pouco depois, Jack Hendry lançou Che Adams na direita, o avançado combinou com Aaron Hickey e atirou para uma grande defesa de Placide, mas o ressalto sobrou para o remate certeiro de John McGinn, com a bola ainda a desviar em Jean-Ricner Bellegarde (28′).

A resposta haitiana começou numa arrancada de Martin Expérience pela esquerda que terminou com um remate para defesa de Angus Gunn, a bola sobrou para Frantzdy Pierrot, valendo o grande corte de Grant Hanley a evitar o golo (34′). Depois do intervalo, a partida continuou bastante equilibrada, com a Escócia a optar por segurar a vantagem e o Haiti a procurar manter um estilo de jogo equilibrado. Foi já depois de Josué Casimir ter entrado que surgiram as oportunidades, com McGinn a aparecer com perigo dentro da área dos grenadiers, mas a falhar a baliza (72′). Na resposta, Ruben Providence desferiu um remate cruzado que saiu perto do poste e que Isidor também não conseguiu completar (74′). Seguiram-se as entradas de Ryan Christie, Nathan Patterson, Lyndon Dykes, Lenny Joseph, Findlay Curtis e Kenny McLean, no período de maior fulgor ofensivo haitiano, que quase culminou no empate de Pierrot, só que o seu cabeceamento saiu ao lado (85′).

Fortuné acabou por ser lançado na reta final e, depois de um cruzamento para a área, Casimir amorteceu para a emenda de Pierrot, em desequilíbrio, para mais uma defesa de Gunn (90+3′). Feitas as contas, a Escócia isolou-se na liderança do grupo C, com três pontos, à frente de Brasil (1), Marrocos (1) e Haiti (0).

A estrela

  • Foi um jogo físico, com poucas oportunidades e muitos duelos, como John McGinn tanto gosta. A viver a melhor temporada da sua carreira no capítulo dos golos, o médio do Aston Villa, que conquistou a Liga Europa no mês passado, foi decisivo na estreia da Escócia no Mundial-2026, faturando com um remate à entrada da área que, por algumas repetições, até parecia nem ir na direção da baliza. O que é certo é que o golo lhe pertence e que os três pontos passaram por si.

O joker

  • Apesar da derrota — que até decorreu como previsto —, o Haiti destacou-se pela bravura e a garra que empregou em campo neste regresso ao Mundial. A reação na segunda parte acabou por ficar ligada à entrada de Josué Casimir para o ataque, com o avançado do Auxerre a conseguir levar a sua equipa para o ataque e a mostrar-se na ligação entre os setores mais avançados. Só faltou o golo.

A sentença

  • Desde 1982 que a Escócia não vencia o seu jogo de abertura no Mundial, tendo conseguido o feito quatro edições depois. Este resultado deixa a equipa europeia na liderança de um grupo C que tem ainda Marrocos e Brasil, que são os seus próximos adversários. A tarefa está longe de ser fácil, mas a Escócia está bem encaminhada para seguir em frente. Já o Haiti continua à procura de pontuar e é o último classificado com zero pontos.

A mentira

  • Com a liderança à sua mercê, esperava-se um jogo bem mais expressivo da Escócia frente a um frágil Haiti… no papel. Os haitianos acabaram por demonstrar que não estão no Campeonato do Mundo para passear e criaram dificuldades a uma equipa escocesa que, depois de ter inaugurado o marcador a meio da primeira parte, limitou-se a controlar o jogo, preferindo não arriscar em busca do segundo tento. Nesse sentido, este acabou por ser um dos piores jogos deste Mundial, apesar da incerteza no resultado até ao fim da partida.