O Mundial de Clubes em 2025 já tinha servido de aviso. As autoridades norte-americanas não facilitam perante as condições meteorológicas adversas. Para este domingo, as previsões apontavam para a possibilidade de chuva e trovoada em vários pontos do país e, assim que esse cenário se confirmou, foi emitida a ordem para evacuar as fan zones do Mundial.
Em Toronto, no Canadá, já tinha sido cancelado um festival dedicado ao Mundial-2026 devido à forte chuva. Agora aconteceu o mesmo em diferentes cidades dos EUA: Houston, Atlanta e Miami. O Observador acompanhou os procedimentos de evacuação numa das maiores fan zones deste Campeonato do Mundo, o FIFA Fan Festival, na baía de Miami.
Com mais de 4 hectares e com capacidade para acolher 30 mil adeptos por dia, este enorme festival dedicado ao Campeonato do Mundo foi rapidamente evacuado. Nos gigantes ecrãs LED surgiram avisos. Podia ler-se: “Tempo adverso a aproximar-se. Por favor, saia do parque”. Esta mensagem começou também a ser emitida repetidamente nas colunas espalhadas por todo o recinto. Os restaurantes, os bares e as lojas fecharam rapidamente. Os ecrãs deixaram de transmitir e os membros do staff, juntamente com as autoridades, encaminharam os adeptos para a saída. Tudo aconteceu de forma ordeira, sem nenhum incidente a registar.
???? Bayfront Park doesn't even look real at night…
The #FIFA Fan Festival is glowing with insane lights, colors, Soccer vibes transforming #Downtown #Miami ????⚽✨
From above, it looks like the whole park came alive ????????
One of the most unreal spots in Miami right now.… pic.twitter.com/QIuY896zQu— Lori * Influencer Partners Group * (@TravelFoodiesTV) June 11, 2026
“Nem consegui ver bem o festival”, disse David, um venezuelano que veste a camisola da seleção espanhola. Ao Observador explicou que tinha entrado 30 minutos antes do alerta. Vive em Miami, está habituado a este tipo de situações e refere que tudo aconteceu como é habitual nesta cidade: “Saímos de forma ordeira e foi muito rápido”. Sentado no banco de um jardim público ao lado deste festival, David manteve a esperança de voltar a entrar: “Disseram-me que podia reabrir, agora vou esperar, mas aqui nunca se sabe. Pode demorar várias horas. Vão avaliando”.
Pablo, que viajou desde o Equador, nem sequer conseguiu entrar. Quando chegou já as portas estavam fechadas. “Disseram que estava a chegar uma tempestade e que o festival estava suspenso”. Uns metros ao lado, Erick estava de braços cruzados de frente para os portões do festival. Estava a ver um jogo do Mundial e foi obrigado a sair da fan zone. “Vou esperar. Gosto de ver os jogos aqui. Isto foi tudo organizado, correu tudo bem”.
▲ Adeptos retirados do FIFA Fan Festival
Uma época de tempestades que já se tornou fatal
Tudo isto aconteceu sem que caísse chuva. O vento também não soprava com intensidade em Miami. O céu apresentava uns tons de cinzento, mas nada com aspeto preocupante. O grande problema na Flórida não é a chuva, nem a tempestade. São as trovoadas. Este Estado norte-americano regista o maior número de vítimas mortais por raios. De acordo com o Conselho Nacional de Segurança contra Raios, registam-se, em média, seis mortes por ano. De 2016 a 2025 foram confirmados 51 casos de vítimas mortais atingidas por um raio. É mais do dobro do Texas, que aparece com 21 mortes no mesmo período.
Ainda este mês, Aiden Vargas foi encontrado morto nas águas do Blackwater River. O Palm Beach Post refere que as autoridades locais confirmaram que foi atingido por um raio. Aiden estava num caiaque quando o raio o derrubou. As autoridades da Comissão de Conservação da Vida Selvagem da Flórida (FWC) informaram que Aiden Vargas estava a remar com o pai no passado domingo quando o raio o atingiu. Várias equipas de busca e salvamento com mergulhadores foram acionadas para o local e Vargas foi encontrado morto na água. Foi a primeira morte da época de tempestades deste ano. Aconteceu a 4 de junho.
Adiar jogos? FIFA vai avaliar caso a caso
A realização de grandes eventos na Flórida, como os jogos do Mundial e todas as atividades ligadas à competição, exige uma coordenação rigorosa entre os organizadores, a administração dos estádios e as divisões locais de gestão de emergências. A FIFA segue as recomendações da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), que estipula que um jogo é cancelado se forem detetados raios a menos de 13 quilómetros de um estádio durante o Mundial.
Perante a ameaça de tempestades severas, frentes de rajada ou atividade elétrica, os protocolos baseiam-se na monitorização meteorológica em tempo real efetuada em parceria com o Serviço Nacional de Meteorologia (NWS). Os planos de contingência obrigam a uma suspensão de todas as atividades: assim que são detetados relâmpagos ou trovões a uma distância de risco é emitida a ordem para interromper imediatamente os jogos e as atividades ao ar livre. A partir daí aplica-se a regra obrigatória de esperar pelo menos 30 minutos após o último sinal visível ou audível antes de se retomar qualquer operação.
Assim que é ativado o protocolo, o jogo só pode ser retomado 30 minutos depois. Aí é feita uma avaliação. Se existirem condições o jogo retoma, se a situação se mantiver é preciso esperar mais 30 minutos para uma nova decisão. Isto pode acontecer várias vezes, o que significa que os jogos podem acabar por ser interrompidos indefinidamente se a tempestade se prolongar. A FIFA vai analisar caso a caso.
Portugal treinou num pavilhão
Ao terceiro dia em território norte-americano, a Seleção Nacional já teve de lidar com o apertado protocolo para tempestades. Em Palm Beach, a tarde começou com o céu nublado e rapidamente começou a chover e a trovejar. A Federação Portuguesa de Futebol transmitiu aos jornalistas que não seria nada preocupante e que, naquele momento, se mantinham todas as atividades previstas para o dia, com a conferência de imprensa de um jogador e o treino.
A situação acabou por mudar. 45 minutos antes da conferência de imprensa a comunicação social foi retirada do centro de treinos da seleção em Palm Beach. Foi recomendado que esperassem nas viaturas. A FPF comprometeu-se a atualizar a situação assim que possível. Às 18h00 locais, a hora agendada para as declarações de um jogador, surgiu uma nova mensagem do departamento de comunicação da Federação Portuguesa de Futebol: “Face ao alerta de tempestade que todos estamos a presenciar e seguindo o protocolo para estas situações, todas as atividades media estão canceladas. Aguardamos a evolução das condições meteorológicas para avaliar a possibilidade de regressar ao treino. Não sendo, a equipa volta para o hotel”.
▲ Tempestade no centro de treinos da Seleção Nacional
MIGUEL A. LOPES/EPA
Alguns jornalistas tinham deixado material na tenda em que está instalado o centro de imprensa. Foram autorizados a recolher os aparelhos rapidamente. A imprensa permaneceu à porta a aguardar novidades sobre o treino que estava agendado para as 18h45. A FPF comunicou, pouco depois das 19h30, para dizer que “a tempestade obrigou a seguir o protocolo de segurança das autoridades locais para este tipo de eventos e por isso o treino ficou sem efeito e foi cancelado”. Aos jornalistas foi também explicado que, “depois de chegar ao Gardens North County District Park, a equipa recolheu para local seguro, cumprindo trabalho de preparação, devidamente programado para este tipo de situações de emergência”. No fim, uma frase sobre as atividades da equipa: “Os jogadores realizaram ativação física num pavilhão.”
A Seleção adapta-se a uma nova realidade e, perante os condicionalismos que se registaram este domingo, a FPF decidiu alterar a agenda para segunda-feira: “Devido às condições climatéricas que provocaram o cancelamento do treino, a sessão desta segunda-feira foi alterada para as 10h30 (15h30 de Lisboa). A conferência de imprensa será realizada às 9h45 (14h45)”.