A direção do PSD vai ser renovada e incluirá agora, sentados ao lado de Luís Montenegro, vários dos nomes que recorrentemente são referidos como hipótese para liderarem o partido no futuro (alguns como sucessores diretos do atual líder). Como vice-presidentes, Luís Montenegro decidiu puxar pelos autarcas das duas principais cidades do país, Carlos Moedas e Pedro Duarte — dois eternos futuros candidatos da mesma geração — assim como pelo eurodeputado Sebastião Bugalho. O antigo jornalista, que é também a mais jovem destas novas entradas, terá o lugar de maior destaque: além de vice, passará também a ser porta-voz do PSD.

Assim, Luís Montenegro passa a contar com um núcleo mais político em seu redor, e com figuras de considerável protagonismo e mediatismo — Carlos Moedas reconquistou Lisboa para o PSD, surpreendendo o próprio partido ao derrotar o incumbente, Fernando Medina; Pedro Duarte venceu a autarquia do Porto nas últimas autárquicas, numa corrida renhida até ao fim contra Manuel Pizarro. Já Sebastião Bugalho foi o cabeça de lista da Aliança Democrática às últimas eleições europeias, tendo sido convidado pelo primeiro-ministro e líder do PSD, e acabou por se filiar mesmo no partido.

Ainda assim, se Moedas puder ser tido em conta nas conjeturas sobre a sucessão no PSD, poderá não ser a contar com o ciclo imediatamente pós-Montenegro: na sua intervenção no congresso, logo a seguir ao anúncio da sua promoção a vice, confirmou a sua recandidatura para a presidência da Câmara Municipal de Lisboa nas próximas eleições autárquicas. “Em 2029 vamos ganhar com muito mais margem e uma grande maioria absoluta”, prometeu, deixando uma possível ambição de liderar o PSD para mais tarde (embora a acumulação das duas funções não seja impossível — Jorge Sampaio chegou a fazê-lo).

Já Pedro Duarte, que há muito é tido, eleição interna após eleição interna, como um eterno futuro-candidato à liderança, tem ganhado peso dentro do partido e, para quem conhece Montenegro, como o Observador explicava aqui, será mesmo o preferido do próprio para a sua sucessão direta. O primeiro-ministro libertou-o para ser presidente da Câmara Municipal do Porto e fez dele conselheiro de Estado, equiparando-o politicamente a Carlos Moedas.

Entretanto, Pedro Duarte passou a ter uma voz crescentemente autónoma, tendo sido a primeira voz do PSD a defender sem pruridos o voto em António José Seguro na segunda volta das eleições presidenciais; também criticou publicamente Pedro Passos Coelho, dizendo-se desiludido com o antigo primeiro-ministro, e relativizou a importância da reforma laboral antes do seu chumbo.

As novidades na direção do PSD são relevantes tendo em conta quem passa a estar, mas também quem deixa de estar: como já se vinha antecipando tendo em conta as longas e infrutíferas negociações da reforma laboral na concertação social, e tendo em conta a posição contrária da UGT, a vice do PSD que é também vice da central sindical, Lucinda Dâmaso, deixa agora a direção do partido. A decisão é conhecida depois de o pacote ter sido chumbado no Parlamento, para surpresa do próprio PSD.

A antiga ministra Leonor Beleza continua a ser a primeira vice do partido, cargo para o qual começou por ser convidada por Montenegro. Também se mantêm na direção como vices o deputado Alexandre Poço, que integra a direção da bancada parlamentar, e Inês Palma Ramalho. E saem Rui Rocha (que passa a vogal) e Carlos Coelho, que terá a responsabilidade de liderar o Instituto Sá Carneiro. Os nomes que não fazem parte do Governo ajudarão a olhar para o país de uma ótica “de fora”, explicou Montenegro.

Noutros órgãos do partido, uma troca que envolve dois ministros: a lista para o Conselho de Jurisdição, que era até agora liderado por Ana Paula Martins, passa a ser encabeçada pelo ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias; mas a ministra da Saúde não deixa de ter responsabilidades num plano semelhante, passando a presidir à Comissão de Auditoria Financeira.

Quanto ao Conselho Nacional, a lista da direção traz um dos principais nomes do passismo de volta: a antiga ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque será o primeiro nome proposto por Montenegro, que de resto já a tinha indicado para o papel de comissária europeia. Albuquerque passa assim do segundo para o primeiro lugar da lista — no congresso anterior, em 2024, Carlos Moedas tinha sido o cabeça de lista. Nos lugares seguintes entrarão rostos bem conhecidos do PSD e antigos governantes, como Teresa Morais ou Luís Campos Ferreira, tal como aconteceu há dois anos.

Entre os vogais da Comissão Política Nacional do PSD, a composição é a mesma e inclui vários elementos do Governo: Paulo Rangel, Miguel Pinto Luz, Margarida Balseiro Lopes, António Leitão Amaro, Joaquim Miranda Sarmento, Fermelinda Carvalho, Helena Teodósio, Rui Rocha, Germana Rocha e Filomena Sintra.

O que muda é a presidência da mesa do congresso: o presidente do governo regional da Madeira, Miguel Albuquerque, decidiu não se recandidatar a um novo mandato, depois de ter exercido o cargo nos últimos quatro anos — para o substituir, Montenegro propôs o nome de José Manuel Bolieiro, que preside ao governo dos Açores.

“É uma decisão pessoal e nada tem a ver, nem podia ter a ver, com qualquer atrito com a direção do partido. No tempo dos ofendidinhos, sou um político à antiga, que digo o que tenho de dizer e não tenho medo de partir ovos”, justificou Albuquerque, que tinha chegado a ameaçar nem sequer marcar presença no congresso caso o Governo não desse resposta a algumas das suas exigências para a região que governa.

O presidente do governo da Madeira quis garantir que tem um “relacionamento franco” com Luís Montenegro, sem ninguém ficar “ofendido”. “A função dele é defender o Estado e Portugal, a minha é defender a Madeira e a região. Quero deixar claro que não tenho qualquer mal entendido com o primeiro-ministro”, assegura o, até aqui, presidente do Congresso. Vamos continuar os dois a puxar pela carroça, transformando a carroça num Ferrari de primeira categoria”, disparou.

E lembrou que gosta de ser um político que diz o que pensa sem grandes cautelas, usando duas expressões que são habituais no seu discurso: quem quer ser amado todos os dias deve “comprar um cão”, em vez de vir para a política; e quem vem para a política deve ter uma pele grossa, para aguentar os embates, e um nariz “longo e inquisitivo” como a tromba de um elefante.

A Albuquerque, Montenegro agradeceu e deixou uma palavra de “reconhecimento” pelo papel que fez como presidente do congresso, notando o seu estilo “exigente e peculiar” que ajuda a fazer os trabalhos avançar rapidamente — o presidente da mesa não permite grandes atrasos e exige que toda a gente cumpra o tempo a que tem direito.