Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

A semana fica marcada por duas comissões parlamentares de inquérito com desfechos diferentes, pelo menos até agora. A CPI aos exames nacionais proposta pelo Bloco de Esquerda vai mesmo avançar. Já a CPI ao caso de Luís Neves continua a dar o que falar e, na verdade, ainda não existe. O presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar Branco, deu luz verde à CPI do JPP, que já se sabe que vai ser chumbada, e não permitiu que a do Chega avançasse. No final, André Ventura vai insistir e apresentar um novo objeto para tentar passar. As CPIs são o tema da semana do "Fora do Baralho", na jogada da semana, que vai ser discutido na segunda parte deste episódio. Para já, vamos aos naipes. Eu sou a Inês André Figueiredo, tenho comigo os ases Jorge Fernandes, Luís Aguiar-Conraria, Nuno Garoupa e Susana Peralta. E vamos começar com o Nuno Garoupa, que vai dar espadas a um trabalho do Observador assinado pelo Miguel Santos Carrapatoso e que se baseia num estudo feito com a colaboração de Ricardo Reis, que é economista e foi diretor do Centro de Sondagens de Opinião da Universidade Católica. O que destacas deste estudo, Nuno?

Olha, eu queria dar copas a este trabalho.

Eu acho que disse mal, não foi? Acho que disse que querias dar espadas.

Não, quero dar copas.

Acho que disse mal.

Estás habituada que eu dê espadas a tudo. Não, mas hoje vou dar copas.

Hoje é um coração vermelho.

É um coração vermelho. Por quê? Vamos comentar depois da segunda parte, em relação às CPIs, as conclusões destas sondagens e desses estudos. Mas eu queria dar copas essencialmente ao método, porque acho que estamos a avançar de forma certa. Nós durante muitos anos, infelizmente, em Portugal, utilizamos as sondagens naquele sobe e desce, e agora o AD subiu 0,2, e agora o PS desceu 0,4, e o Chega subiu 0,5. E depois falamos das sondagens isoladamente. Ninguém compara as sondagens com as outras sondagens que existem disponíveis. E de fato, isso não é a forma correta de usar as sondagens e não é a forma correta, eu sei que enche o espaço de comentário, mas não é a forma correta de utilizar estatísticas, nem essa informação. Nos últimos anos fizemos algum esforço, aliás, o Luís esteve envolvido nisso, que é passar a usar agregadores, tentar ter agregadores de sondagens, para felizmente conseguir usar a informação toda das sondagens num todo. E este trabalho eu acho que vem falar das tendências, não só em termos absolutas, como relativas, porque compara o governo de Montenegro com governos anteriores no mesmo período, ou seja, ao fim de um ano ou ao fim de dois anos, conforme quisermos contar, de legislaturas. E portanto, dá um contexto enorme e permite retirar ilações muito mais interessantes do que estar a dizer que o Chega agora subiu 0,4 e o AD desceu 0,3. E eu acho que isto é importante, não é só porque eu sou um curioso a estatísticas ou porque temos aqui o Luís e eu aproveito para elogiar o trabalho do Luís ou para elogiar o Observador. É que aqui há um problema: é que nós sabemos, e estamos sempre a dizer que os políticos governam para as sondagens. Bem, mas se eles governam para as sondagens, é bom que as sondagens, de fato, retratem o país e que não estejam a governar com umas coisas que, na verdade, nem o país representam. E depois, finalmente, se é verdade, ainda não percebi muito bem, terão mais informação os jornalistas que eu. Se é verdade que vamos passar a ter sondagens semanais, ou seja, que a partir de agora, de fato, há um órgão de comunicação social que vai dar sondagens semanais e o track poll, evidentemente, e depois outros jornais e outros órgãos de comunicação vão ter outras sondagens, então enfim, para não estarmos a perder tempo todas as semanas a dizer que um sobe e outro desce, porque é verdade que esta semana há partidos que já estão a cantar vitória, mas só temos duas track polls. Os partidos não sobem todas as semanas e não descem todas as semanas. E, portanto, é importante, de fato, esses estudos, este trabalho, para termos uma discussão um pouco mais séria quando saem estas sondagens e acho que o Observador, nesse sentido, fez um bom trabalho.

Vamos aqui chamar então o elogiado Luís Aguiar-Conraria. Neste caso, porque tem um naipe para uma das mais recentes polêmicas internacionais, que tem o nome de Sydney Sweeney, que fez uma campanha publicitária muito falada a uma casa de jogo. Por que copas, Luís?

Foi pensar nas copas do sutiã. Desculpa. Pronto. Perguntaste diretamente, a resposta é essa. Mas vamos lá ver. Acho que a polêmica está mesmo no sítio errado. E eu apoiá-la-ia e também escreveria contra, se a polêmica tivesse sido sobre o fato de haver publicidade a casas de apostas. Acho que a questão das apostas e do jogo on-line começa a ter fóruns de problemas de saúde pública, é um vício, e, portanto, começo a achar que a publicidade desse tipo de produtos, tal como a publicidade do tabaco ou do álcool, deve começar a ser mais regulada. E se a polêmica for sobre isso, teria o meu apoio. Agora, quando a polêmica é porque a Sydney Sweeney se despiu, nem se despiu completamente, mas ficou com poses bastante provocantes, penso que dentro dos limites da legalidade americana, que é bastante mais puritana do que a nossa. E, portanto, na verdade, nem consigo perceber muito bem a polêmica. Quem segue a Sydney Sweeney, quem lê as entrevistas dela, quem segue o Instagram dela e quem vê aquelas passagens quando vai àquelas entregas de Oscars e coisa assim do gênero, percebe que ela gosta de se exibir, e eu digo isso sem qualquer cunho negativo. Ela gosta de se exibir. Ainda outro dia apareceu com um vestido transparente que permitia ver o seu generoso busto Quem vê no Instagram, vê constantemente publicidade à linha de lingerie dela, onde ela exibe tudo o que pode exibir. Ela gosta disso e não está a ser explorada. Ela não está a ser usada como instrumento de sexualização das mulheres. Ela simplesmente gosta daquilo, gosta de fazer isto e sendo paga para fazer aquilo, faz e aproveita. Eu gosto de uma mulher que não se deixa limitar pelas convenções da sociedade e faz aquilo que quer, e também neste sentido merece as minhas copas, o meu elogio.

Estava aqui a ver que a Susana também escreveu um texto sobre isto. Não sei se quer dar aqui a opinião, Susana.

Eu quero. A minha opinião é que a Sydney Sweeney, como todas as mulheres querem vender o corpo, ela não é menos do que uma trabalhadora do sexo se vende numa qualquer esquina de Lisboa, tem todo o direito a vender o corpo. Eu sou sensível à questão das apostas desportivas, mas obviamente é outro tema. Estas tentativas do controle do corpo da mulher, agora é o quê? Uma mulher antes de usar o seu corpo para vender o que quer que seja, as mamas. O título do meu texto no "Público", se me é permitida a publicidade, é: "As mamas são dela." O que é que é? Que uma mulher quando quer usar as mamas para vender alguma coisa, tem que submeter um formulário para ver se a causa é boa e depois se a polícia dos costumes aprovar, diz: "Sim, senhor, isto é por uma causa boa, é para defender o planeta ou os gatinhos maltratados. Então está bem, despe-te, mostra as mamas." Não, ela quer vender para promover o negócio dela, está no seu direito, as mamas são dela.

Vamos passar então aqui a outro naipe. Temos aqui o Jorge com espadas para Ursula von der Leyen, por causa do discurso do Estado da Nação e pelo facto de ter convidado o Canadá para se tornar o primeiro membro associado formal da União Europeia. Jorge, por que nós trazes este naipe?

Olá, Inês. Que naipe mais careta depois de falar das mamas da Sydney Sweeney.

É verdade, Jorge, mas foste tu que escolheste.

Eu sei, mas esta sequência tornou a coisa um bocadinho-

Mas falar das mamas da von der Leyen consegue ser incrivelmente surpreendente.

Isso é uma coisa que eu acho que não teríamos grande tema.

Mas se quiseres comentar o tema anterior, estás à vontade. Antes da Ursula.

Concordo com o que a Susana e o Luís disseram. Citando um velho blooper de uma convenção da iniciativa liberal, é mesmo liberal em toda a linha, não é conservador. É bastante estranho agora como há umas feministas que ficaram de repente chocadas, porque ela quer fazer aquilo que lhe apetece, sem ser coagida por ninguém, nem ser coagida por nenhum homem, e ser apenas a vontade dela que dita, enfim, mesmo que seja por dinheiro, seja o que for. Mas acho que pode fazer naturalmente aquilo que quer, e estamos numa sociedade livre para isso. Agora, voltando aqui às minhas espadas para a Ursula von der Leyen. Eu estava a ouvir essa semana o discurso do Estado da União que ela fez, faz sempre todos os anos um discurso desta natureza. E há aquelas alturas em que nós estamos no meio disto, e pessoas como nós que comentam e gostam muito de política, há alturas em que nos parece que estamos a viver uma tempestade e depois às vezes olhamos para trás e realmente aquilo se calhar foi menos importante do que aquilo que nós tínhamos pensado, na altura pensávamos que aquilo seria muito mais consequente. Mas agora eu acho que estamos mesmo no meio do momento que é altamente consequente, e Ursula von der Leyen é uma personagem absolutamente incapacitada para fazer da Europa aquilo que a Europa precisava neste momento. E ela fez um discurso que é um misto de voluntarismo excessivo e patético, eu não sei muito bem o que dizer. Em primeiro lugar, relativamente à questão da Ucrânia, e eu lamento imenso, eu acho que a minha posição pode não ser muito popular até neste programa, mas eu acho que nós relativamente à Ucrânia está na altura de fazer política. E quando eu digo política é começar a reunir com Putin, negociar, não deixar essa tarefa para os americanos, e foi um erro. Hoje acho que sabemos, e é claro para toda a gente que foi um erro, que a Europa tenha cortado praticamente todas as relações diplomáticas com a Rússia, tirando coisas meramente procedurais, mínimas. E portanto, a economia alemã, com o choque chinês que está a acontecer agora à questão industrial, e com o choque da energia, está desesperada por gás russo, e isso vai ter que acontecer mais cedo ou mais tarde. Eu sei que isto não é muito popular, mas a AFD, uma das suas bandeiras de campanha é a indispensabilidade do gás russo, precisamente neste momento, que é um momento de transição, e vai ter que ser um momento de transição para a Alemanha. Porque o problema disto é que se isto não acontecer, a Europa corre o risco de continuar a injetar milhares de milhões na Ucrânia e ao mesmo tempo implodir por dentro, porque as suas opiniões públicas ficam de tal maneira acossadas com coisas como a inflação, a perda do poder de compra, as dificuldades econômicas, que a própria Europa pode ter problemas muito mais graves até do que a Ucrânia. Eu sei que isto não é propriamente muito popular, nem é propriamente a posição politicamente correta, mas é verdade. E depois, a von der Leyen, no ódio anti-Trump, que eu partilho, de resto, eu não tenho rigorosamente nenhuma simpatia por Trump, fez aquele convite patético ao Canadá, um convite para o qual ela não tem poderes, começa por aí, ponto um. Mesmo que ela tivesse sido mandatada para fazer aquilo, ela não tem poderes para fazer aquilo E depois falou de um convite, supostamente, aquilo que apareceu na imprensa internacional. Aquela passagem nem sequer estava no discurso, foi um improviso que ela fez à última hora e depois disse que ia criar uma figura que não existe juridicamente na arquitetura da União. Depois disse mais ainda umas platitudes sobre a inteligência artificial e ela diz que a Europa está a liderar a regulação, não sei muito bem de quê. Neste momento, é este o ponto que estamos na União Europeia. Temos a França e a Alemanha a caminharem para governos de extrema-direita. A Itália já está comandada pela senhora Meloni e temos o senhor Putin aqui de um lado, o Trump do outro e temos um bando de incompetentes, basicamente, à nossa frente. Mas felizmente, acho que temos lá o doutor Costa, como toda a gente sabe, eu gosto muito dele e ele certamente vai nos ajudar a sair de mais esta embrulhada. Mas realmente é o momento, na minha opinião, eu sou extremamente pessimista quanto ao caminho da Europa e não estou a ver realmente isto a dar uma volta por cima.

Chamar aqui novamente a Susana Peralta, que traz uma carta de paus para Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, por causa daquilo que disse sobre o Volta. É assim, Susana?

Sim, deixa-me só dizer que o naipe do Jorge dava para uma jogada da semana, para nós estarmos aqui a falar sobre o estado da União, mas não dá tempo. E para dizer em que eu discordo dele e em que concordo, mas não vou dizer isso agora. Vou pegar no Volta. O Carlos Moedas veio dar uma espécie de ultimato ao governo, para o governo acabar rapidamente com o sistema Volta. O sistema Volta é aquele sistema que nos permite ir a umas máquinas que engolem algumas embalagens de plástico e dão €0,10 em troca. Um sistema que foi introduzido em Portugal, que aliás é uma regulação europeia, que existe já há muitos anos em vários países, que outros países têm introduzido mais tarde e que Portugal introduz de maneira relativamente tardia. O sistema avançou um bocado aos soluços, como eu acho que é normal nestes casos, e certamente precisa de imensas melhorias, e eu acho que há uma escassez óbvia de máquinas Volta. Se querem que as pessoas realmente façam este tipo de reciclagem, as máquinas têm que estar disponíveis, não podem estar avariadas, etc. O sistema obviamente precisa de melhorias. Agora, o que o Carlos Moedas vem dizer? Carlos Moedas vem exigir o fim imediato do sistema Volta com dois argumentos de peso. O primeiro é verdadeiramente hilariante, porque Carlos Moedas acha que o sistema Volta tornou Lisboa mais suja. Vamos lá ver. É verdade que há pessoas a remexer nos caixotes do lixo. Todos os dias eu vejo várias à procura de embalagens para depois, se conseguires reunir uma quantidade substancial de embalagens, depois quando vais ao Volta, consegues também reunir alguns trocos. E podemos discutir se isso é ou não é desejável, e acho até interessante, porque para um economista, isto tem um lado até bel de ver o teorema de um senhor que ganhou o Prêmio Nobel, que é o Ronald Coase, a funcionar. Mas depois podemos falar se isto é ou não é desejável, até que ponto é desejável. Agora, Lisboa já estava sujíssima antes, por amor de Deus! Não são estes desgraçados que andam a apanhar garrafas vazias dos caixotes do lixo que tornam Lisboa suja. Lisboa é uma porcaria. Nós temos lixo em todo lado, nós temos restos de comida. Desculpa.

E o segundo argumento, só para fechar, Susana. Desculpa.

Tenho que abreviar? Está bem. E o segundo argumento é que isto traz pessoas para a pobreza, que está a criar sem abrigo, que está a dizer que as pessoas para ganharem €0,10, como eu já disse, as pessoas não ganham €0,10, ganham mais porque estão a fazer montanhas de garrafas, mas é evidente que ninguém se despediu. Nenhuma pessoa com emprego confortável e a viver num T2 com aquecimento central, deixou essa vida para ir apanhar garrafas na rua. É óbvio. As pessoas veem aqui uma oportunidade de ganhar uns trocos e vão ganhá-los. E só mais uma coisa, isto levanta outra questão, que é: por que há tantas garrafas de plástico à solta em contentores não diferenciados? Também há aqui um problema de fomentar a reciclagem, de se calhar disponibilizar fontes de água para os turistas não andarem a comprar garrafinhas da treta. E como é que Carlos Moedas resolve todos estes problemas, nos quais podia ter realmente uma atitude mais proativa e mais consequente, é acabando com o sistema Volta.

É preciso repensar o sistema todo. Fazemos agora então uma curta pausa e voltamos dentro de momentos para a segunda parte do Fora do Baralho. Nesta jogada da semana vamos falar sobre as comissões parlamentares de inquérito, uma delas aos exames nacionais, proposta pelo Bloco de Esquerda, a outra que ainda está a ser cozinhada em lume brando por causa de um desacordo entre o presidente da Assembleia da República e o CHEGA. Apelava aqui um bocadinho à vossa capacidade de síntese para cada um poder falar sobre as duas situações. Começando por ti, Susana, que interrompi-te um pouco na primeira parte. Como é que tu olhas para esta situação da CPI Luís Neves, que se tornou num braço de ferro entre André Ventura e Aguiar Branco?

Eu olho para esta novela de Luís Neves como olho um bocadinho quase desde o início. Isto tornou-se numa guerra, sobretudo Luís Neves contra André Ventura. Luís Neves aparece como uma espécie de barreira contra o populismo. Não sei de que maneira é que ele acha que Que o seu lugar de Ministro da Administração Interna lhe permite resolver esse flagelo da nossa democracia. Eu também não percebo como é que ele não percebe que ele continuar no seu lugar é o próprio problema para a nossa democracia, já agora, para ser completamente transparente relativamente ao que eu penso desta situação. E portanto, como isto entra um bocado num domínio da pirraça. André Ventura fez um ultimato, depois fez uma moção de censura, depois agora veio a CPI, depois parece haver alguma divisão nas hostes da AD e estou aqui a colocar Aguiar Branco nessas hostes, embora ele obviamente não seja um membro do governo e é presidente da Assembleia da República, mas parece de facto haver alguma divisão nas hostes da AD acerca da maneira como abordar ou como encaixar esta novela Luís Neves, que já está a ser demasiado patética. Patética e perigosa quanto a mim, para as instituições democráticas, e portanto agora parece que o novo episódio é que a CPI é recusada. Isto já teve mais aquelas cenas dos próximos capítulos, porque André Ventura veio dizer que afinal vai reformular o pedido de CPI.

Sim, confirmou há pouco, quando já estávamos aqui, que já tinha entregue o documento com o novo objeto que até agora ainda não é conhecido.

Isto é uma história sem fim, a história interminável, na qual eu acho que André Ventura tem o mérito de se conseguir manter à tona da atualidade midiática. Portanto, eu nem tenho a certeza se desse ponto de vista recusarem-lhe a CPI não foi até um favor que lhe fizeram, porque isto é uma maneira de ele estar permanentemente a manter um enredo, mas que neste momento é um enredo que não tem substância. E outra vez, eu escrevi no final de julho a dizer que o Luís Neves se devia demitir. Não quero ser classificada naquela gaveta das pessoas que defendem o Luís Neves. Não, acho que a atuação dele à frente da PJ é muito problemática por várias razões, mas acho sobretudo que a continuação dele no governo é uma teimosia difícil de entender, porque está de facto a colocar em risco até o funcionamento normal das instituições, desde logo, porque está a politizar a gestão da PJ. Esta CPI à PJ vai ser obviamente uma politização do inquérito, à maneira como a PJ atua. Portanto, eu acho isso extremamente problemático, mas também me custa ver que nós alimentemos esta máquina de André Ventura estar permanentemente à tona da atualidade midiática e outra vez sem nos dar respostas, porque uma das coisas que ele tentou meter no pacote Luís Neves, porque ele tem assim uma espécie de pacote Luís Neves, como aquela caixa de chocolates do Forrest Gump. Ele tem vários chocolates Luís Neves que ele vai puxando para nós estarmos sempre a falar disto. Ele tentou enfiar o assalto ao gabinete no pacote Luís Neves e até tem conseguido.

A dizer que foram roubados documentos que podiam ser usados na CPI.

Era bom alguém fazer uma CPI ao André Ventura para perceber se isso realmente aconteceu ou não.

Nuno Garoupa, o presidente da Assembleia da República está a dar trunfos a André Ventura ou esta decisão até faz sentido?

Não, repare, a minha posição é um pouco semelhante à Susana. Isto é teatro, e é um mau teatro, porque repare: a decisão do presidente da Assembleia da República é bizantina, é uma bizantinice jurídica que não faz qualquer sentido. Tanto não faz que quem quis apoiar o presidente da Assembleia da República vai buscar precedentes a 1991, completamente descabidos. Portanto, é óbvio que é uma decisão juridicamente absurda. Depois, o outro lado também é absurdo, porque uma vez que o pedido do JPP passou, o Chega só tem que entregar o pedido ao JPP e fazer a CPI potestativa. Portanto, isto é teatro das duas partes. Agora, eu acho, como a Susana disse, primeiro, a principal vítima deste teatro é a Polícia Judiciária, e eu já tenho dito em vários programas. Portanto, Luís Neves, a AD, o PS, o Chega, a IL, os partidos todos que andam nestas histórias, estão todos a dizer que estão a defender a PJ, mas estão todos a trabalhar para afundar a reputação da PJ e para pôr em causa o papel da PJ, que como eu já disse no programa anterior, até agora estava bastante acima do Ministério Público. Em tudo o que tem acontecido nos últimos 10 anos, a instituição que sofreu um grande desgaste de reputação é o Ministério Público, que hoje tem uma muito má reputação junto dos portugueses, e agora a Polícia Judiciária vai pelo mesmo caminho graças aos partidos políticos. Se queriam ser sérios, e se André Ventura quer ser sério, e Aguiar Branco quer ser sério, e a AD quer ser séria, e o PS quer ser sério nesta matéria, é fácil: é fazer uma comissão técnica independente, fora dos partidos, para fazer uma auditoria à Polícia Judiciária e depois apresentar essa auditoria independente ao país e explicar quais são os problemas que a Polícia Judiciária teve nos últimos anos. Nenhum partido quer isso. Todos querem este teatro. E agora, eu acho que querem o teatro por razões diferentes. Ventura, não vale a pena falar, a Susana já disse, isto é um teatro maravilhoso para ele, porque se tem CPI é bom, se não tem CPI é bom, mantém-se à tona, está uma semana nas notícias e nas televisões a vitimizar-se, na semana seguinte vai estar a dizer que tem CPI, depois na outra semana vai estar. Portanto, está constantemente nisto, o que é bom para mobilizar o seu eleitorado e é bom para manter a sua base de apoio. Não tenho qualquer dúvida que essa é a tática e a estratégia do André Ventura e obviamente corresponde à agenda de André Ventura. Do lado da AD, eu acho que o grande problema é que a AD quer meter o PS neste buraco. Por quê? Porque as más sondagens que a AD tem, e neste momento as que saíram esta semana são péssimas, porque não é só já estar em terceiro lugar, é consolida-se como o terceiro partido, em algumas sondagens já seis pontos atrás

Do Chega e do Partido Socialista, noutras um pouco menos, mas começa-se a consolidar a AD como terceiro partido. A AD quer puxar o PS pra este buraco e, portanto, obviamente quer ir ao plenário para forçar uma votação que se diga: "Lá está, o PS é a muleta da AD, a AD é a muleta do PS", no caso Neves. Do ponto de vista da AD, parece-me que a estratégia também é clara, até porque as sondagens o que estão a dizer é que a AD não está a perder votos pro Chega, ao contrário do que o Chega anda por aí a apregoar. A AD está a perder votos pro PS. O problema da AD neste momento são os 400 ou 500 mil votos que já perdeu pro Partido Socialista e que tem que os recuperar se quer ter alguma hipótese nas próximas eleições. Portanto, do ponto de vista tático, acho que o Ventura e Aguiar Branco seguiram aquilo que é a tática do teatro, mau teatro, mas é o teatro pra mobilizar os seus claque.

Jorge, também concordas com esta técnica do teatro? A decisão do presidente da Assembleia da República é daquelas situações perfeitas para a vitimização do Chega?

Claro, como é evidente. O presidente da Assembleia da República, na tradição portuguesa, ao contrário de outros países, em que os presidentes das respetivas assembleias são atores politicamente neutros, o presidente da Assembleia da República em Portugal é um ator político e tem preferências políticas, e é claramente eleito por uma maioria da qual, de resto, o Chega não faz parte. Aguiar Branco está a fazer aquilo que eu acho que ele pode pensar que está a defender as instituições, mas não sei se é o problema, porque eu acho que ele percebe isso perfeitamente. Acho que ele sabe que a comissão parlamentar de inquérito é uma inevitabilidade e que acontecerá de uma maneira ou de outra. Eu acho que teria tido muito mais sentido, para salvaguardar os interesses públicos, até a própria legitimidade e a própria imagem da Assembleia da República, ele ter calmamente, em vez de ter, pelo que eu percebi, pelo aquilo que foi público, que ele terá dado a Ventura a possibilidade de rever o objeto da comissão, etc., porque aquilo era muito largo.

E acabou, só para centrar aqui, por ser revisto, mas só mudaram parte desses argumentos e não os argumentos na totalidade e daí a decisão negativa.

Pronto, exatamente.

Andaram aqui pra trás e pra frente com documentos.

Mas podiam ter negociado. As negociações não têm que ter uma iteração. Eles poderiam ter negociado até chegarem em um compromisso em que satisfizesse as duas partes, o Chega e Aguiar Branco. Agora, o problema é que o Chega não está interessado num compromisso. O Chega, como eu disse, sabe que é inevitável, acontecerá uma comissão. Se a comissão acontecer depois de mais um teatro em que Ventura ainda aparece como vítima do sistema que está a tentar proteger Luís Neves, etc., e que de resto, eu julgo que é verdade. Não nos moldes que Ventura diz, mas eu acho que é evidente que há aqui uma preocupação muito forte do PSD e do governo e de provavelmente outros poderes fáticos e organizações discretas em protegerem Luís Neves e evitarem ao máximo que esta comissão parlamentar de inquérito, ou sendo inevitável que esta comissão aconteça, que tenha um âmbito absolutamente reduzidíssimo. Repara, esta própria disputa sobre o objeto da comissão muito provavelmente dará lugar a incidentes processuais durante os trabalhos da comissão, quando alguém tentar trazer algum tema, algum documento, porque no fundo dir-se-á alta tensão, e isto não pode aparecer, porque quando a comissão foi montada, foi montada no pressuposto de que A, B e C estariam prontos. Portanto, eu acho que há também esta preocupação aqui, ao fazer este agenda setting, ao condicionar a estrutura da comissão e ao mostrar ao país que desde o início, a sinalizar desta forma tão contundente que o objeto é melindroso, mas ao mesmo tempo que é contencioso e que não é muito claro, isto abre a porta a que, durante os trabalhos da comissão, mais facilmente se traga isto como um precedente para justificar ou impedir testemunhas, documentos, certos temas. E portanto, eu acho que aqui também há este atirar de areia pra engrenagem, que interessa a toda gente, menos a Ventura, embora depois durante a comissão, imaginem, se tivermos no momento que está a dar na televisão, em todos os jornais, e de repente alguma coisa é parada porque este argumento é invocado, porque se tem que proteger o bom nome, é evidente que Ventura lançará logo o anátema de que: "Não, repare, nós estávamos a chegar à verdade, nós estávamos finalmente a saber o que aconteceu e eles estão agora a proteger-se e a impedir que nós saibamos a verdade".

Luís, tua opinião sobre este tema, este braço de ferro entre os dois.

É meio igual à dos meus colegas. Podes passar ao tema seguinte, eu de fato não tenho nada a acrescentar ao que foi dito. Só não tenho certezas em relação a ser absurdo jurídico ou não a posição de Aguiar Branco, sobre isso eu abstenho, porque não sei.

Ficando tu com a palavra e olhando aqui pra CPI aos exames nacionais. Fernando Alexandre fica numa má situação depois desta CPI ter sido aprovada?

Aos exames não me parece que ele fique numa má situação. Acho que ficaria numa má situação numa CPI a estes estudantes que estão sem colocação no início do ano.

Mas porque essa parte já não entra neste objeto.

Porque aí parece-me que é mais óbvio que possa ser uma consequência direta de decisões que ele tomou, nomeadamente a grande reestruturação que fez no seu ministério e dos vários organismos sob a sua tutela. Portanto, penso até que poderia ficar em más lençóis. Agora, no caso dos exames, eu acho que podem dar as voltas que quiserem, e até eu concordarei com bastantes críticas que farão. Eu também acho que claramente o país não estava em condições de ter avançado pra digitalização que foi, que se correram riscos enormes, que correu mal, que teve custos elevados, ainda não temos os resultados da terceira fase dos exames, aquela época especial do início de setembro, ainda não temos os resultados. Portanto, os alunos que se candidatam à segunda fase ainda não se puderam candidatar. Acho que houve custos muito elevados e concordo com essas críticas todas. Agora, de facto, vai ser possível dizer que a segunda fase dos exames correu bem, que não houve grandes polémicas, que agora o sistema é melhor do que era antes, que há uma transparência que não havia antes, e isso é verdade. A minha filha teve agora o 12º ano e o facto de eu estar recebendo no e-mail o exame, o PDF da filha, dá uma transparência que não estávamos habituados, que não existia. A questão é: neste momento as coisas estão boas e a discussão é se valeu a pena ter os custos que se tiveram. Isso é uma discussão que eu penso que a maioria dos portugueses comprará os argumentos do governo e a forma do governo poder dizer que também é reformista e que aceita e que está disponível pra cometer erros e depois corrigi-los, o que é sempre um discurso que vende bem.

Nuno Garoupa, se o ministro da Educação tivesse dado mais explicações ao longo de todo este processo, esta CPI seria evitável ou achas que é mais um ato político do que propriamente técnico?

Não, eu acho que é um ato político.

Desculpa, eu esqueci de fazer. Eu vou parar de fazer declaração de interesses quando é o Fernando Alexandre, está bem?

Vamos começar por uma nota de rodapé.

Não, isso é que este é um tema que está tão em cima da ordem do dia que não dá sequer pra fugir. Quer dizer, eu se recusasse a comentar as questões dos exames, não podia ser comentador político. Portanto, vamos parar com isso, está bem? Já toda gente conhece a declaração de interesses.

Força, Nuno.

Obrigado, Luís. Eu não discordo, Luís. Ainda a tua pergunta mais concreta. Eu acho que é um ato político. Acho que, ao contrário da CPI sobre Luís Neves e a Polícia Judiciária, esta, na minha opinião, pode ser uma CPI no sentido político do termo. Portanto, acho que este tema precisa muito menos de uma comissão técnico ou independente, como eu acho que o caso da Polícia Judiciária precisa. Agora, aqui, acho que o governo, neste caso, está numa posição de muito maior força, como disse o Luís, porque acho que os argumentos do governo, genericamente, vendem bem. Aliás, a prova disso é que apesar de Fernando Alexandre ter sofrido algo na sua imagem pública, as sondagens indicam que já acabou essa queda ou até estaria a recuperar, o que indica que, de facto, o grande desgaste está feito. Percebo que o Bloco de Esquerda tenha um interesse especial nisto. O Partido Socialista, que embarcou nisto, não sei se isto vai sair tão bem pro Partido Socialista. O Partido Socialista, a leitura que faz disto é que isto é uma forma de solidificar a recuperação dos votos dos professores que terá perdido nas últimas eleições, depois do que aconteceu em 2024 e 2025. Mas não é pra mim claro que o Partido Socialista vá sair bem desta CPI, precisamente porque a grande discussão vai ser: isto está pior ou melhor do que estava há três ou quatro anos. E não é evidente para todos os portugueses que isto está agora muito pior do que estava há quatro anos. E portanto, eu acho que o partido que pode sair bastante chamuscado desta CPI, na minha opinião, é o PS e não a AD.

Susana, o que achas desta comissão parlamentar de inquérito? É um ato mais político ou não? Desculpa, deixa eu só perguntar também, o que os deputados devem tentar esclarecer nesta altura? Porque, na verdade, Fernando Alexandre já falou muitas vezes, mas os partidos têm se queixado de que não respondeu às perguntas todas que foram sendo feitas.

Pois, eu sou menos otimista do que os outros ases. Eu acho que isto ainda pode ter custos políticos pra Fernando Alexandre, porque, de facto, eu acho que mesmo com os elementos que nós já conhecemos, nós sabemos que havia um teste piloto com o exame de Filosofia do ano anterior, o qual aparentemente já trouxe problemas, mas depois nem sequer houve um relatório. Não haver um relatório é a mesma coisa do que haver um mau relatório e ser ignorado. E isso, obviamente, a responsabilidade é da tutela, portanto era Fernando Alexandre, tinha que pedir o relatório, tinha que o analisar, tinha que ver se era pra avançar ou não. Houve gastos grandes. O Expresso tinha uma notícia semana passada acerca do total de contratação pública do ministério nos últimos 10 anos e a metade disso foi concentrado agora no consulado de Fernando Alexandre. Houve gastos pra correr atrás do prejuízo e buscar consultoras pra conseguir depois resolver o problema. A pessoa pergunta por que isso não foi feito antes. Não é verdade que não foram prejudicados alunos. Por exemplo, eu estou me recordando uma notícia que veio nos jornais de uma aluna Da zona de Cascais, a quem o tribunal tinha dado a classificação máxima, o que é obviamente justo para essa aluna a quem perderam uma parte do exame, mas obviamente também num sistema de números clausos. Enfim, ela entrou na faculdade e alguém ficou de fora, e nem toda a gente tem o mesmo poder de litigância. Portanto, esta pessoa foi pra tribunal, e bem. Se fosse minha filha, teria acontecido a mesma coisa. Não estou a criticar nem a aluna, nem a sua família, estou a criticar uma versão oficial de que ninguém foi prejudicado. Isso não é verdade e é óbvio que o poder de ir pra tribunal não está igualmente distribuído. E é preciso perceber como é que esta terraplanagem, por muito lógica que ela fosse e boa e virtuosa, da reorganização dos serviços do ministério, teve ou não teve impacto nesta complicação dos exames e agora também nesta confusão de nós estarmos já agora a mais de meio de setembro. Nós já temos um ano letivo curtíssimo, é uma barraca o nosso ano letivo começar tão tarde. Tivemos um atraso no começo do ano letivo do secundário e nesta altura em que já há escolas, enfim, semana passada, nas vésperas de começar o ano letivo para os miúdos mais novos, havia centenas de miúdos sem escolas atribuídas. Eu percebo que a máquina de spin do governo é poderosíssima. E há aquela versão de: "Não, então não se pode fazer nada, o ministro quis reformar e agora corre mal, não se pode fazer reformas". Mas eu espero que a oposição esteja em condições de contrariar e que isso ainda tenha alguns custos políticos para o governo e para Fernando Alexandre.

Jorge, 30 segundinhos para terminar esta parte aqui da CPI aos exames nacionais.

Eu acho esta CPI relativamente normal. O que eu quero dizer é: foi de facto um tema muito mediático e é um tema cujas consequências são sentidas em todo o país, em todas as classes sociais, em todas as geografias, independentemente dos partidos em quem as pessoas votem. Portanto, eu acho que assumindo que Fernando Alexandre não mentiu nem omitiu nada de particularmente grave, e eu não acho que isso tenha acontecido, eu acho que o que a CPI vai apurar, vai ouvi-lo a ele, vai ouvir um conjunto de pessoas provavelmente ligadas ao ministério, mais da componente técnica, etc. Mas não penso que haverá grande possibilidade de o custo político que os exames podem ter feito, quer a Fernando Alexandre, quer ao governo, já é custo afundado neste momento e já está incorporado pelos eleitores e pelos portugueses.

Este Fora do Baralho fica por aqui para nos escrever, fazer perguntas ou deixar comentários para os ases, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Eu sou a Inês André Figueiredo, pode sempre ouvir-nos na Rádio Observador, em podcast, nas plataformas habituais.