Depois da frustração do Mundial de 1966, em que o bicampeão não passou da fase de grupos, o Brasil entrou numa espiral de “caça às bruxas” sempre em torno do melhor sistema tático que pudesse potenciar todo o talento de gerações de ouro que se iam cruzando. João Saldanha foi chamado ao comando da equipa ainda em fevereiro de 1969 mas não chegou à fase final da edição de 1970. Uns apontavam para a influência da ditadura militar no país que não via com bons olhos um comunista no cargo, outros garantiam que só havia um problema e estava relacionado com a parte tática. Mário Zagallo, que ganhara em campo os títulos de 1958 e 1962, foi o escolhido por João Havelange para a Copa da redenção. E foi essa escolha, a cerca de dois meses do início da prova, que acabou por ajudar a escrever aquilo que se passou no México.

“Disseram que eu estava louco quando assumi colocar em campo cinco camisolas 10 ao mesmo tempo, até disseram que era impossível jogar com cinco camisolas 10 ao mesmo tempo. O que eu achei louco era deixar de fora Gerson, Rivellino, Tostão, Jairzinho ou Pelé”, comentou um dia o “Velho Lobo” Zagallo, explicando aquele que foi o grande segredo da conquista do terceiro Mundial do Brasil e de Pelé. Onde quase todos viam uma possível crise, o técnico encontrou a maior das oportunidades e aquela que ficou conhecida como o “Esquadrão de Ouro” pela forma como jogava futebol voltou mesmo a sagrar-se campeã numa edição em que ganhou todos os seis jogos realizados, goleando na final a Itália por claros 4-1 no Azteca.

A edição de 1970 foi marcada por uma série de inovações, da bola nova da Adidas aos cartões, passando pelas substituições e pelas assistências que iam batendo recordes num país apaixonado pelo futebol, mas aquilo que ficou no final para a história foi a grande campanha da canarinha, que teve como exemplo paradigmático o quarto e último golo da final com a bola a passar por nove dos 11 jogadores (só o guarda-redes Félix e o central Brito ficaram de fora nessa jogada) antes da assistência de Pelé para o golo de Carlos Alberto. Antes, a campeã Inglaterra tinha caído após prolongamento frente à RFA nos quartos, que por sua vez falhou a final depois de perder também em tempo extra com a Itália naquele que ficou conhecido como o “Jogo do Século”. Depois, sobrou o título do Brasil, o prémio de MVP para o inevitável Pelé, o prémio de melhor marcador para Gerd Müller e o prémio de Melhor Jovem para Teófilo Cubillas, peruano que ficaria até 1972 no Allianza Lima mas que seguiria depois para a Europa antes de reforçar o FC Porto em 1974.

Uma história. A edição que teve o “Jogo do Século” (e que não envolveu o Brasil)

O Mundial de 1970 teve algumas histórias paralelas mas ficou praticamente resumido ao rolo compressor do Brasil de Mário Zagallo até à conquista do título. No entanto, e de forma quase paradoxal, foi também nessa edição que houve o denominado “Jogo do Século” para a FIFA: Itália-RFA. Roberto Boninsegna adiantou os transalpinos na meia-final, Karl-Heinz Schnellinger conseguiu empatar nos descontos e o prolongamento iria ter uma invulgar chuva de cinco golos, com Gerd Müller a fazer o 2-1 (94′), Tarcisio Burgnich a restabelecer o empate (98′), Gigi Riva a adiantar de novo os italianos (104′), Gerd Müller a bisar para os germânicos (110′) e Gianni Rivera, que tinha saído do banco, a fazer o 4-3 final no minuto seguinte (111′). Ainda hoje o mítico Azteca tem uma placa de homenagem que assinala a realização deste jogo a 17 de junho de 1970, com uma lotação acima dos 100.000 espectadores (102.444) para ver quem iria desafiar o Brasil na decisão.

Um herói. O Mundial em que Pelé se tornou Rei com uma imagem icónica em ombros

Campeão mundial em 1958, campeão mundial em 1962, derrotado ainda na fase de grupos com Hungria e Portugal em 1966 deixando o terreno de jogo em evidentes dificuldades físicas. Ali, em Inglaterra, aquela era a imagem de um príncipe do futebol que parecia ter conhecido o seu limite. Ao invés, à beira dos 30 anos, iria para ser coroado como Rei. Foi no México que Pelé se tornou o único jogador de sempre a ganhar por três vezes o Campeonato do Mundo rodeado de jogadores que para muitos faziam a melhor equipa de sempre num Mundial. O avançado brasileiro marcou na estreia com a Checoslováquia, bisou diante da Roménia e voltou a aparecer na final frente à Itália com um fantástico golo de cabeça que desbloqueou a partida até à goleada por 4-1. Entre “quase golos” e receitais de futebol, a icónica imagem de Pelé levado em ombros com a terceira taça de campeão mundial tornou-se um dos principais retratos do futebol.

Uma curiosidade. As primeiras substituições, a primeira Telstar e a primeira caderneta

O Mundial de 1970 foi pioneiro em várias pequenas histórias que ficaram para a história. Alguns exemplos: foi no México que se realizaram as primeiras substituições num jogo do Campeonato do Mundo, neste caso com o soviético Anatoliy Puzach a ser o primeiro jogador a entrar na partida inaugural com os anfitriões; foi no México que os árbitros usaram o sistema de cartões amarelos e vermelhos, com a particularidade de não ter havido qualquer expulsão ao longo da prova; foi no México que a bola Telstar da Adidas foi pela primeira vez utilizada depois da experiência no Europeu de 1968; foi no México que as transmissões chegaram pela primeira vez a cores a diferentes continententes; e foi também no México, ou a propósito da fase final do Mundial, que nasceu pela primeira vez uma caderneta de cromos da Panini sobre a competição.

Como foram os resultados no Mundial de 1970

  • 31 de maio (fase de grupos): México-União Soviética, 0-0
  • 2 de junho (fase de grupos): Uruguai-Israel, 2-0, Inglaterra-Roménia, 1-0 e Peru-Bulgária, 3-2
  • 3 de junho (fase de grupos): Bélgica-El Salvador, 3-0, Itália-Suécia, 1-0, Brasil-Checoslováqui, 4-1 e RFA-Marrocos, 2-1
  • 6 de junho (fase de grupos): União Soviética-Bélgica, 4-1, Uruguai-Itália, 0-0, Roménia-Checoslováquia, 2-1 e Peru-Marrocos, 3-0
  • 7 de junho (fase de grupos): México-El Salvador, 4-0, Suécia-Israel, 1-1, Brasil-Inglaterra, 1-0 e RFA-Bulgária, 5-2
  • 10 de junho (fase de grupos): União Soviética-El Salvador, 2-0, Suécia-Uruguai, 1-0, Brasil-Roménia, 3-2 e RFA-Peru, 3-1
  • 11 de junho (fase de grupos): México-Bélgica, 1-0, Itália-Israel, 0-0, Inglaterra-Checoslováquia, 1-0 e Bulgária-Marrocos, 1-1
  • 14 de junho (quartos): União Soviética-Uruguai, 0-1 (a.p.), Brasil-Peru, 4-2, Itália-México, 4-1 e RFA-Inglaterra, 3-2 (a.p.)
  • 17 de junho (meias-finais): Brasil-Uruguai, 3-1 e Itália-RFA, 4-3 (a.p.)
  • 20 de junho (3.º/4.º lugares): RFA-Uruguai, 1-0
  • 21 de junho (final): Brasil-Itália, 4-1