Miguel Sousa Tavares defendeu nas jornadas parlamentares da AD em Cascais que se deve “premiar o mérito e desproteger a preguiça e a batota”. O jornalista e escritor elogiou medidas do atual Governo que não foram aprovadas no Parlamento, como o trabalho social obrigatório, mas criticou PSD e CDS por terem “explicado mal” aos portugueses a proposta de reforma laboral, sugerindo à maioria parlamentar que insista em aprovar algumas das suas medidas, mas levando-as a votos “uma a uma”.

Sousa Tavares elogiou nomeadamente a polémica medida do trabalho social obrigatório — que caiu após as negociações entre AD e Chega para a PSU romperem — por ver nela o princípio de “faz alguma coisa pelo teu país”. Depois, defendeu que “devemos proteger os contribuintes e não os não contribuintes”, pedindo aos políticos mais responsabilização na despesa pública. “Devemos premiar quem mais investe, quem mais trabalha, quem mais impostos paga. Devíamos desproteger os preguiçosos, os falsos doentes, os que não pagam impostos.”

O escritor também abordou a reforma laboral do Governo, onde viu “coisas com que discordava absolutamente e outras com que concordava absolutamente”. Nesse sentido, Sousa Tavares sugeriu à maioria parlamentar que insistisse com a proposta, mas levando as medidas ao Parlamento de forma autónoma. “Não seria melhor passá-las uma a uma, em vez de passá-las por baixo do chapelão da reforma laboral?”, questionou.

Além disso, Sousa Tavares disse que a proposta do Governo devia ter incluído medidas para responder aos desafios impostos pela Inteligência Artificial. “Se não, se o pacote laboral tivesse sido aprovado, daqui a um ano já estaria desatualizado.”

No final da intervenção, Hugo Soares disse que a reforma laboral foi precisamente a razão que motivou o seu convite a Miguel Sousa Tavares para participar nas jornadas da AD. O líder parlamentar disse que, durante a discussão do pacote laboral, “não havia ninguém no espaço público a falar sobre o que efetivamente lá estava” e um artigo de opinião no Expresso de Sousa Tavares foi o primeiro a escapar à regra. “Nem os líderes partidários que à última hora votaram diferente do que tinham prometido leram a proposta. Estou convencido de que a maioria dos líderes parlamentares nunca a leram”, atirou Hugo Soares.

O secretário-geral do PSD não deixou passar o apelo de Sousa Tavares aos deputados da AD para que se dediquem a “explicar a política aos portugueses”. Hugo Soares perguntou ao escritor qual o papel “da comunicação social e do comentariado” na dificuldade em passar a mensagem política. “Como é que convencemos os jornalismos que o que conta, mais do que a espuma dos dias, são os problemas dos portugueses?”, questionou, depois de defender a necessidade de criar uma “barreira de proteção” para responder às dificuldades financeiras do jornalismo. “Os jornalistas são mal pagos, de resto, como são os políticos”, disse.

Sousa Tavares respondeu que o problema do jornalismo não são apenas os baixos salários mas o facto de os jornalistas não terem dinheiro para fazer investigação. “Temos um jornalismo tão mau quanto expectável dadas as condições que têm.” Depois, o escritor criticou os jornalistas por criarem um clima de “suspeição sistemática” em redor dos políticos, reconhecendo ainda a dificuldade da governação em Portugal. “Tenho um grande apreço pelos políticos sinceros. O pior trabalho que se pode ter é governar os portugueses. Não é o país que é difícil de governar, são os portugueses”, disse, defendendo que os políticos reivindiquem para si melhores condições remuneratórias.

“Deixem de se focar nos velhos e passem a olhar para os jovens”

Voltando às propostas do Governo, Sousa Tavares elogiou a medida para acabar com o visto prévio do Tribunal de Contas, porque “não podemos partir do princípio de que toda a gente faz batota”. Para combater a lentidão administrativa, defendeu cauções “violentas” para desincentivar quem contesta decisões de concursos públicos.

O escritor defende que é necessária uma “cultura de responsabilização dos serviços públicos” em Portugal e criticou duramente os entraves colocados pelo “lobby” da função pública. “O serviço público existe para servir o público e não os servidores públicos. O lobby da função pública é dos mais fortes, mais perigosos e dos que mais custam ao país”, defendeu. Sousa Tavares propôs instituir uma cultura de “avaliação de resultados na função pública”, por exemplo, premiando os professores “em função dos resultados dos alunos”. Por outro lado, critica o “absentismo” em certos setores da função pública, nomeadamente entre professores e médicos.

O escritor criticou a “autofagia administrativa” do setor público, ou seja, que certos “organismos no país só existam para justificar o emprego de quem lá trabalha”. Sousa Tavares propôs outras medidas para dar mais sustentabilidade ao Estado: criar uma “fatura virtual no SNS”, que diga aos contribuintes quanto custaram os seus cuidados de saúde aos cofres públicos, e cobrar IRS a todos os cidadãos que trabalhem para criar um reconhecimento de que os contribuintes são a fonte de receita do Estado. “Nem que fossem 50 euros”, sugere.

Sousa Tavares pediu aos partidos que “se deixem de focar nos velhos e passem a olhar para os jovens”, acrescentando que a proposta de Ventura para baixar a idade da reforma é “um suicídio”. “É roubar as pensões aos jovens de hoje”, defendeu. Outra proposta que o cronista apresentou foi promover uma valorização das reformas em função do número de filhos, considerando que quem não teve filhos teve “uma vida desafogada”.

Sousa Tavares elegeu a Justiça como o setor que precisa mais urgentemente de uma reforma e criticou duramente a ação do Ministério Público (MP) pelas investigações criminais “totalitárias, abusivas e intrusivas”. Nesse sentido, alertou os deputados: “Podemos acordar com uma ditadura do MP que não é sustentável”. Por fim, o escritor criticou diretamente PSD e CDS pelos “erros” nas privatizações de setores estratégicos, como aconteceu nas empresas EDP, REN e CTT. Sousa Tavares pediu ainda aos deputados que defendam as praias públicas, alertando para os entraves ao acesso que estão a aumentar na costa alentejana. “Não tirem as praias aos portugueses, não tirem as praias nem o futebol aos portugueses.”