O consumo de eletricidade em Portugal atingiu novos máximos históricos (considerando o verão), na sequência da onda de calor que atravessou o continente desde o dia 2 de julho.

O primeiro recorde foi batido logo no dia 2 de julho, na passada quinta-feira, com um consumo diário de 165,6 gigawatts hora (GWh). Este valor foi superado no dia seguinte, 3 de julho, quando foi alcançado um consumo de 171,1 GWh. Segundo dados enviados pela REN (Redes Energéticas Nacionais) ao Observador, o anterior máximo diário para um dia de verão tinha sido registado a 13 de julho de 2022 e foi de 163,4 GWh.

Também na ponta de consumo (período do dia em que há mais procura) registou-se um valor máximo para o verão. Às 20h00 do dia 2 de julho, a procura instantânea de energia elétrica foi de 8.493 MW (megawatts), superando o máximo anterior de 30 de junho de 2025.

A REN explica que os valores máximos do consumo de eletricidade se verificam em dias de inverno — 197,1 GWh para procura diária e 10.261 MW na ponta — mas destaca também que os “valores de consumo agora alcançados evidenciam uma tendência de aproximação que se tem verificado entre os consumos máximos de verão e de inverno”.

Apesar de se terem mantido as temperaturas muito altas nos dias 4 e 5 julho, o facto de se tratar de fim de semana leva a uma queda na procura de energia por parte das atividades industriais e de serviços. Estes segmentos são responsáveis por cerca de metade de todo o consumo de eletricidade em Portugal.

Ainda assim, as estatísticas disponíveis no data hub da REN permitem concluir que no sábado e no domingo, o efeito temperatura foi responsável por quase 8% do consumo total de eletricidade para aqueles dias.

Não existem nos sistemas elétricos europeus dados que relacionem de forma direta o aumento da procura com a temperatura, mas na sequência da onda de calor que atingiu grande parte do continente europeu no final de junho, a generalidade dos países da Europa central registou subidas da procura. Em França, foi onde se verificou a maior subida com um salto de quase 20% nas duas semanas mais quentes do mês passado, de acordo com dados do operador da rede francesa, a RTE, citados pela Euronews.

A corrida por eletricidade só não é mais expressiva porque a percentagem de casas na Europa com ar condicionado é ainda relativamente reduzida. Segundo dados da Agência Internacional de Energia citados por vários meios de comunicação internacionais, essa percentagem será de apenas 20%, embora atinja níveis mais altos nos países do sul.

Esta percentagem está muito distante de outros países, como os Estados Unidos onde o ar condicionado marca presença em quase 90% das casas. Mas a tendência é a de que na Europa se verifique um forte aumento da procura nos próximos anos, à medida que se multiplicam os fenómenos de calor extremo no continente.

Ainda sem o efeito da mais recente onda de calor, nos primeiros seis meses do ano, Portugal já vai com um recorde de consumo de eletricidade que subiu 3,3% face ao registado no mesmo período de 2025. A REN diz que o consumo acumulado neste período é o mais elevado de sempre no sistema elétrico nacional, ultrapassando em 900 gigawatts hora (GWh) o alcançado no primeiro semestre de 2025.

Apesar de a temperatura ter relevância nas variações do consumo, as estatísticas da entidade gestora da rede de transporte permitem isolar esse efeito e concluem que a procura está a crescer, mesmo retirando o efeito da temperatura. Durante o primeiro semestre, a produção hidroelétrica ultrapassou o valor médio, tendo sido a principal fonte de abastecimento, apesar de junho ter registado condições desfavoráveis a esta forma de energia. Seguiram-se a eólica e a solar que, em junho, atingiu a ponta mais elevada de sempre com 3.800 megawatts no dia 29 de junho por volta das 13h39.

A produção renovável foi responsável por 71% do consumo no primeiro semestre. A produção térmica a gás abasteceu 14% e os restantes 15% foram importados.