Luís Montenegro era para estar em Madrid, mas obrigações internas, como a preparação do debate do Estado da Nação, fizeram-no entrar à distância. “Agradeço a presença de Luís Montenegro”, disse Alberto Núñez Feijóo quando falou minutos antes, como se o português estivesse na sala. Não estava. Mas, mesmo assim, não deixou de puxar pela eleição do líder do PP em 2027, pagando na mesma moeda de Pedro Sánchez que, quer em 2024, quer em 2025, defendeu convictamente a eleição de Pedro Nuno Santos.
O primeiro-ministro português disse que acredita que a visão reformista que o Governo português segue pode também aparecer num “novo ciclo político em Espanha”. Montenegro dirigiu-se diretamente ao presidente do PP espanhol para defender que Portugal também sairá favorecido se Feijóo substituir Sánchez. “A Espanha merece uma liderança que ofereça estabilidade, credibilidade e confiança. Uma liderança que permita ao país aproveitar todo o seu enorme potencial. Portugal ganhará com uma Espanha mais forte”, defendeu.
Montenegro não tem dúvidas de que a “Europa ganhará com uma Península Ibérica mais forte”, que sugere que não existe por culpa do Governo de Pedro Sánchez. “Estou convencido de que, sob a tua liderança, o Partido Popular estará preparado para oferecer aos espanhóis essa alternativa séria, moderada e reformista.” Desde o primeiro dia em que se conheceram — precisamente em Madrid — ficaram, aliás, evidentes as diferenças que existem entre Sánchez e Montenegro.
O primeiro-ministro português deixa claro que será mais fácil os dois países trabalharem em conjunto se o PP substituir os socialistas do PSOE no poder: “Quando Portugal e Espanha trabalham lado a lado, quando o Partido Popular Europeu lidera com coragem e quando colocamos a liberdade e a responsabilidade no centro da ação política, toda a Europa fica mais forte.”
Sebastião Bugalho, eurodeputado, vice-presidente e porta-voz do PSD, estava sentado na primeira fila a três cadeiras de distância de Feijóo. Na ausência de Montenegro foi ele que cumprimentou o líder do PP espanhol quando este chegou à sala do Eurostars, em Madrid. À distância, mas com uma audiência de vários parceiros europeus, Montenegro vendeu a sua versão do milagre económico português que a revista The Economist premiou em 2025.
A “aceleração” da economia portuguesa e as reformas em curso
O primeiro-ministro português, que tinha o líder da oposição espanhola, o vice-presidente italiano, Antonio Tajani, e o presidente do PPE, Manfred Weber, a assistir recordou que há pouco mais de dois anos, “os portugueses confiaram ao PSD e ao CDS a responsabilidade de liderar um novo ciclo político”.
Montenegro explicou que o Governo tem “procurado concretizar um programa de reformas profundamente alinhado com a visão do Partido Popular Europeu e com muitas das propostas que também o Partido Popular espanhol defende: reformas para libertar a economia, aumentar a competitividade, simplificar o Estado, apoiar as empresas, criar melhores salários através do crescimento económico, e devolver confiança às famílias e aos investidores.”
O chefe de Governo português destacou que o fez sempre “respeitando um princípio essencial: a responsabilidade orçamental.” Montenegro fez vários elogios, em causa própria, à situação em Portugal destacando que “a economia portuguesa voltou a acelerar, o investimento privado aumentou, exportações continuam a crescer e o desemprego mantém-se em níveis historicamente baixos.” E tudo isso, lembrou, “foi conseguido sem recorrer ao caminho fácil do aumento da dívida pública e do aumento de impostos.” Lembra ainda que já conseguiu aprovar “dois Orçamentos do Estado sem aumentar um único imposto. Reduzimos a dívida pública para menos de 90% do Produto Interno Bruto.”
Primeiro-ministro culpa Costa por aumento da imigração “sem planeamento e sem critérios”
Quanto à imigração, um tema de grande relevância para a esmagadora maioria dos países que integram o Partido Popular Europeu, Montenegro referiu-se a esta como uma área em que “era indispensável mudar de rumo: a imigração.” O primeiro-ministro português diz que Portugal é um país “aberto e humanista”, que precisa de “imigração e de trabalhadores”, mas que sabe que “uma política de imigração só é verdadeiramente humanista quando assenta em regras claras.”
Pouco preocupado por estar a responsabilizar o presidente do Conselho Europeu, o chefe de Governo português apontou o dedo ao Governo de António Costa, ao explicar que “nos últimos anos, sob governos socialistas, o número de imigrantes duplicou em menos de cinco anos. Hoje representa cerca de 16% da população residente. Esse crescimento aconteceu, demasiadas vezes, sem planeamento, sem critérios e sem capacidade de integração. Isso não protege quem chega. Não protege quem já cá vive. E não protege a própria coesão social.”
O jornalista do Observador viajou a convite do PPE ao primeiro evento do Fórum Libertas