Estamos num dia quente de julho em Lisboa, mas neste sábado o Passeio Marítimo de Algés foi também um pouco do que é o Brasil em fevereiro e março. E não falamos só das altas temperaturas: a atmosfera de liberdade, diversidade e alegria do Carnaval foi trazida por Anitta, que realiza pela primeira vez em Portugal um concerto a solo, com o seu Ensaios da Anitta. Já cá esteve em duas edições do Rock in Rio (2018 e 2022), Meo Marés Vivas (2022) e MEO Sudoeste (2019 e 2024), mas sabendo que conseguiria fazer o seu próprio festival, fê-lo.
▲ O palco 360 graus foi montado no Passeio Marítimo de Algés logo foi encerrado o NOS Alive, há uma semana.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Na fila, a maior parte dos fãs investiu em outfits que remetem ao tema desta digressão: cosmos. Anitta vestiu-se de encarnado, a incorporar a carta de tarot Imperatriz, que refere “recordar que beleza e força caminham juntas”. Estrelas, brilhos e lantejoulas eram os elementos mais presentes entre o seu público, com um acessório a destacar-se entre todos: o leque. Com as cores do arco-íris, estampado com o rosto de Anitta, personalizado com o seu nome com cristais. Por aqui, não tem só a função de refrescar, mas também de ser abanado com força ao ritmo das canções. Tal movimento que atravessou o Atlântico ganhou força no Brasil em concertos com o público LGBT. “Nenhum tipo de preconceito será tolerado”, diz um dos avisos no recinto antes de a cantora subir ao palco, pelo que o público vibra e aplaude. Há casais de todos os géneros, pais com os filhos e jovens, muitos jovens a dançar até ao chão.
▲ O leque, acessório mais escolhido pelos fãs, era abanado com força ao ritmo das canções.
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Apesar do nome, não se trata de um ensaio. Os concertos ganharam este nome por seguirem o registo daqueles que a cantora do Rio de Janeiro organiza antes das apresentações carnavalescas — como uma antecipação para os milhões de pessoas que seguem o seu trio elétrico [um camião com palco, que se desloca ao longo de grandes avenidas durante o feriado religioso, como um concerto móvel]. “É para o público sentir que está numa festa junto comigo, um ensaio dentro da minha casa, algo mais intimista”, explica aos jornalistas nos bastidores.
Por cá não é feriado, mas Anitta esgotou os 30 mil bilhetes para quem queria não só vê-la cantar os seus principais hits de funk brasileiro com uma veia pop — que é como ela gosta de descrever o ritmo do qual é a percursora quando se trata de retirar o estigma de remeter somente às favelas e criminalidade. Incluiu também algumas das faixas do álbum mais recente, Equilibrium [cuja segunda parte será lançada a 23 de julho], e canções de axé de nomes como Ivete Sangalo. O tecnomelody e o brega pop, também ritmos de destaque nas plataformas de streaming de música, foram representados por uma participação breve da também brasileira Viviane Batidão.
Mal o NOS Alive foi encerrado na semana anterior, uma equipa de mais de duas mil pessoas começou a montar uma estrutura também digna de festival. Afinal, são cinco horas de concerto de Anitta, que aproveita para ir à casa de banho e hidratar-se quando os seus convidados entram para fazer participações no palco. Para esta edição, chamou Bárbara Bandeira, que confessou à plateia estar “muito, muito nervosa, mesmo estando em casa”. Depois, vieram os Calema para partilhar com ela o palco e a vibração do público. Anitta, de microfone na mão e claramente à vontade, não se intimida em pedir à produção para lhe entregar uma fatia de pizza para dar uma dentada entre uma dança e outra.
Apesar da lotação, há espaço suficiente para dançar ou mesmo sentar no chão, tal como na maioria dos festivais. Se a própria Anitta precisa das suas pausas, o público também. Afinal, alguns dos fãs chegaram a passar 18h na fila, como é o caso de Micael Jacob, português que vive na Alemanha. Após a viagem de avião, teve ainda energia para dormir com uma manta térmica no chão, à porta do Passeio Marítimo de Algés. Passou ali a madrugada, pois queria ser o primeiro da fila. Mas não foi o único a percorrer uma grande distância: num grupo de WhatsApp criado por fãs para partilhar fotos e informações sobre o evento, contabilizavam-se pessoas a viajar de França, Espanha, Inglaterra, Suécia, Itália e Luxemburgo. Houve até quem tenha fugido do inverno no Brasil para viver o Carnaval no verão de Portugal.
▲ Em cada um dos concertos dos Ensaios da Anitta, a cantora veste um look que remete ao tema da digressão. O deste ano é "cosmos".
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Anitta conhece a sua expansão internacional, e, por isso, cumprimentou o público em português, inglês, espanhol, francês e italiano. “Vou ter de aprender mais línguas“, ri-se. Anitta fala fluentemente todos aqueles idiomas, nos quais já gravou temas com artistas dos respectivos países. Mesmo que a maior parte das canções selecionadas para a apresentação em Lisboa sejam em português, o público acompanha letra a letra, entre bandeiras do Brasil, França, Cabo Verde e Portugal [Madeira incluída]. Excursões organizadas por fãs em várias zonas de Portugal rumo a Lisboa esgotaram, bem como as after parties temáticas das discotecas Posh e Trumps.
O quarto e último convidado da noite é o italiano Fred de Palma, com quem Anitta canta pela primeira vez num concerto La Testa Gira, anunciada em maio pela dupla e a canção mais ouvida nos streamings esta noite em Itália. Paloma e Un Altro Ballo, lançadas logo ao início da pandemia de Covid-19, também entraram na setlist, sendo agora cantadas a plenos pulmões pelo público que acompanha as letras em italiano.
▲ Anitta, que ao início da carreira subia em palcos montados com caixas de cerveja, tem agora o seu próprio festival.
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Aos jornalistas, Anitta confessou que as primeiras edições dos seus Ensaios no Brasil, iniciados em 2019, foram “um fracasso”. Mas com a experiência acumulada ao longo dos anos, o evento consolidou-se. “Gosto de me dedicar em tudo o que faço. Não é fácil um artista preencher um espaço grande como este fora do seu país, então estou muito feliz e emocionada”, diz. Dadas as proporções do seu concerto, os Comboios de Portugal e a Polícia de Segurança Pública fizeram uma operação especial para dar apoio ao público, que permaneceu, em sua maioria, até ao final da festa. Com a atração principal a puxar por isto. “Há alguém aí cansado?”. Pelos gritos como resposta, parece que não. E então Anitta continua, mesmo que no dia seguinte tenha concerto marcado em Berlim como headliner no Lollapalooza alemão. Antes de partir para a viagem, cumpriu em Algés as cinco horas que prometeu entre cantar, dançar e acompanhar a sua banda a tocar alguns dos tambores, para um verdadeiro Carnaval brasileiro em Portugal.