Em plena cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Paris, no Stade de France, apareceu de repente Tom Cruise. Desceu por uma corda qual Missão Impossível, colocou-se numa mota a acelerar e, no meio de toda essa parte cénica, colocou o foco em Los Angeles. Praia, calor, boa onda, atuações de Snoop Dogg (que tinha andado a distribuir charme antes pela capital francesa), músicas dos Red Hot Chili Peppers, entradas em cena de Billie Eilish e H.E.R.. Enquanto tudo isso acontecia, o logótipo de LA-28 ganhava formas e cores diferentes. As letras mexiam, viviam com outras tonalidades, davam a volta entre si. “Preparem-se, em 2028 vai ser tudo assim. Isto, pum, pum, pum do fogo de artifício e está a festa feita”, dizia um jornalista norte-americano presente na bancada de imprensa no fim de festa em que existe a passagem de testemunho.

A conversa vinha a propósito de coisas mais “práticas” relacionadas com o trabalho, a logística e os acessos a todos os venues que vão receber competições. “Sobre isso, esqueçam. Pensem no pior que já apanharam e entendam que vai ser ainda pior. Mas, quando estão depois nas coisas, o espetáculo está sempre garantido”, assegurava. Há uma parte de entertainment que parece umbilicalmente ligada a qualquer grande evento que seja organizado nos Estados Unidos, seja ele desportivo, político ou social. Muitas vezes essa faceta até pode “atropelar” aquilo que são mandamentos alegadamente inalienáveis que de repente são colocados de parte, como também irá acontecer no calendário dos Jogos de 2028 (atletismo começa mais cedo, natação arranca mais tarde porque a piscina vai entrar no SoFi Stadium só depois da cerimónia de abertura partilhada em dois recintos diferentes, haverá um Super Saturday com mais de 20 finais), mas… é mesmo assim.

Como não poderia deixar de ser, a cerimónia de encerramento não teria contornos diferentes. É certo que grande parte das atenções estava concentrada no inédito Halftime Show com nomes como Madonna, Justin Bieber, Shakira, BTS, Burna Boy, Coldplay ou Gustavo Dumadel mas, antes, a cerca de uma hora e meia do início da final, iria haver outra festa de “despedida” no MetLife Stadium com bilhetes a um preço de tal forma elevado que até Borja Iglesias, avançado espanhol, lamentou a “vergonha” nas redes sociais em dia de jogo. Ia ter música? Sim, claro. O habitual. Mas a presença do ator Tom Cruise no elenco prometia dar aquele toque de entertainment típico das organizações norte-americanas com espaço para surpresas de última hora, tendo em conta que tudo e todos os intervenientes eram conhecidos… menos o tempo do espetáculo.

Recuemos ao ponto de partida de comparação: o Mundial do Qatar, em novembro e dezembro de 2022. Aí, no majestoso Estádio Lusail para quase 90.000 espectadores, a cerimónia de encerramento teve somente 20 minutos sob o lema de “Uma noite para recordar”. A qatari Dana cantou, o poeta Tamim Al Barghouti declamou, seguiram-se novas atuações musicais marcadas pelas inúmeras recusas que a organização foi enfrentando, acabou com projeções de drones e muito fogo de artifício. Agora, ser “melhor” era pouco. Mas, afinal, recorrendo a um antigo programa dos Gato Fedorento, o melhor resumo é mesmo dizer que foi uma espécie de cerimónia de encerramento, partida em dois atos antes e na antecâmara do início do encontro.

Na metade inicial, com pouco mais de dez minutos, houve muitos tambores no arranque, a “invenção” espetáculo IShowSpeed que se tornou o primeiro criador de conteúdos a assumir papel de destaque num momento como este (e com o irmão de lágrimas nos olhos nas bancadas a ver esse momento que os norte-americanos não demoraram a apelidar de “histórico”) e que terminou a fazer um mortal no palco colocado na zona central do relvado, e as atuações de Post Malone, a interpretar Rockstar e Sunflower, entre outras, e Swae Lee. Tudo, claro, com fogo de artifício para dar e vender entre aqueles lança-chamas que se tornaram mais usuais a partir do Mundial do Qatar (e que aumentavam ainda mais uma temperatura que já era elevada, tendo em conta que o encontro teria início às 15h locais num dia com sol). “Uma forma de celebrar a viagem inesquecível das 48 equipas neste Mundial”, resumia a organização.

Ainda não se tinha percebido ao certo como decorreria o tempo até ao início da final mas a atuação apenas uns minutos depois de Christopher Macchio deixava uma garantia: o melhor era não tirar muito os olhos da TV, mesmo com os jogadores, a começar pelos guarda-redes, a iniciarem os exercícios de aquecimento.

Seria preciso esperar pelos 15 minutos antes do arranque do encontro para começar essa segunda parte da cerimónia de encerramento. Logo a abrir, e já com Donald Trump na tribuna do MetLife Stadium ao lado de Gianni Infantino, Jennifer Hudson cantou uma versão especial do hino dos Estados Unidos (“The Star-Spangled Banner”) que motivara muitas críticas antes do encontro por ser a primeira vez que se tocou e deu tanto destaque ao hino do organizador… sendo que neste caso eram três e não apenas um anfitrião. De seguida, numa música conhecida do Mundial de Clubes (“Desire”), subiram ao palco no centro do relvado Robbie Williams, Nicole Scherzinger e Laura Pausini, antes de uma mensagem final de Tom Cruise que não passou disso mesmo: uma mensagem. Pela grandeza, pela união, pelo melhor do futebol. Sem mais nada de efeitos especiais, cambalhotas ou demais partes cénicas, apenas palavras deixadas num pequeno púlpito.

Tinha chegado ao fim essa segunda parte de espetáculo, que teve sobretudo o condão de confirmar que as fichas estavam todas concentradas no Halftime Show e não tanto na antecâmara da partida. Aliás, o momento em que Carlos Alcaraz surgiu perto da mala que transportava o troféu e as duas ocasiões em que Andrés Iniesta e Mario Kempes levantaram a Jules Rimet provocaram, à semelhança do que aconteceu com os hinos, uma reação bem mais ruidosa por parte dos adeptos do que tudo o resto. Quando Tom Cruise surge de óculos escuros numa mão e o microfone na outra só para “falar”, ser especial era uma Missão Impossível.