Ferrán Torres foi o herói da final do Mundial-2026. O avançado espanhol entrou na segunda parte para marcar o golo da vitória de Espanha, já no prolongamento, selando o triunfo por 1-0 sobre a Argentina e guiando La Roja para o seu segundo título de campeão mundial. Após a partida, ainda com muita emoção na voz, o jogador do Barcelona recusou ficar apenas com os louros do momento. “Acho que no final o golo é de 47 milhões de pessoas, não meu. O destino estava escrito, estava feito para que ganhássemos. Se todas as finais são difíceis, quando tens o Messi na equipa adversária entra sempre aquele nervosismo, mas nós dependemos de nós próprios e demonstrámo-lo mais uma vez”, disse à RTVE. Recordou ainda as críticas de que foi alvo ao longo da prova: “Uma libertação muito grande. Fui muito criticado ao longo do Mundial, mas o destino está escrito e graças a Deus, que me dá sempre forças para continuar. Como costumo dizer… Deus dá as coisas a quem mais as merece”.

Luis de la Fuente não escondeu a emoção depois de conquistar o segundo título mundial da seleção espanhola. “Temos falado muito com os jogadores e diziam-me: ‘Mister, ganhámos tudo’. Isso é maravilhoso. Esta geração é um exemplo e demonstra que juntos somos mais fortes. Que não reste dúvida a ninguém”, afirmou o selecionador à TVE. O técnico reconheceu ainda o mérito de Emiliano Martínez, guarda-redes argentino, que impediu que o resultado ficasse resolvido mais cedo: “As grandes intervenções do Dibu impediram que o jogo se resolvesse antes e que nos colocássemos à frente com mais clareza. Mas isto era uma final de um Mundial e, apesar de o rival ter ficado com dez jogadores, tínhamos de continuar a sofrer. Voltámos a demonstrar que esta equipa está preparada para qualquer situação”.

Rodri, capitão espanhol, não escondeu a dimensão do momento, à RTVE: “Quero agradecer, este grupo é sensacional e somos campeões do mundo, é incrível dizê-lo. É o torneio mais difícil da história dos Mundiais, têm o melhor da história, batemos todos os recordes”. Sobre a forma como a Espanha geriu a falta de oportunidades claras da Argentina, resumiu a filosofia da equipa: “Este é o segredo desta seleção, seja o que for que tenhamos pela frente, vamos atrás disso, é preciso ser valente na vida e a vida recompensa isso“. O médio, que recuperou de uma grave lesão no joelho para chegar a este Mundial, deixou ainda uma mensagem pessoal: “Que possam ver que um jogador que toca o céu e cai ao mais baixo, com esforço, a vida acaba por lhe pagar isso. Sou um exemplo de superação. Há muita gente que não te conhece, mas senti o apoio, o carinho das pessoas em Espanha”, concluiu.

Pedro Porro, ex-jogador do Sporting, dedicou o momento à família, à DAZN: “Por toda a minha família que ficou ali, que me apoiou desde o primeiro minuto. Não acredito, o que é que te vou dizer…”. Entre as felicitações que chegaram de antigos internacionais espanhóis, destacou-se a de Pepe Reina: “Para mim é um orgulho enorme, olho para muitos destes jogadores e sou muito fã de todos vocês“.

Nico Williams resumiu a euforia do momento: “Acho que não temos consciência do que isto realmente é, mas estamos muito felizes. Uma loucura”. O extremo do Athletic Bilbao, que viveu um Mundial de crescendo depois de recuperar de lesão, sublinhou o espírito coletivo do grupo: “Toda a gente está aqui para dar o seu contributo, ninguém pode vir a fazer-se de estrela, trabalhamos todos uns para os outros”. Mas foi ao olhar para trás, para o ano que teve, que Williams se emocionou mais: “É uma loucura, passei por muita coisa difícil este ano e agora estou aqui, a viver o dia mais feliz da minha vida“.

Do lado argentino, Lionel Scaloni evitou qualquer tipo de desculpa e reconheceu o mérito do novo campeão do mundo. “Espanha foi melhor e nós demos tudo”, resumiu, no MetLife Stadium. O técnico valorizou o compromisso mostrado pelos seus jogadores ao longo de todo o torneio: “Agradecimento eterno a estes rapazes”, disse, referindo-se ao grupo que voltou a levar a Argentina a uma final mundial. Scaloni deixou ainda uma reflexão sobre como encarar a derrota: “Sabemos perder, perdemo-lo e assumimos as coisas. Nem por isso vamos deixar de nos lembrar do que estes jogadores fizeram”. No fecho das suas declarações, agradeceu o apoio recebido durante toda a competição: “Ao país quero dizer que demos tudo. Se derem tudo como estes deram hoje, é um grande exemplo para a nossa gente e para o nosso país. Quando dás tudo, é muito difícil reprovar alguma coisa”, concluiu.

Em conferência de imprensa, Scaloni falou também sobre a sua continuidade à frente da seleção, confirmando que terá de se reunir com Claudio Tapia, presidente da Associação de Futebol Argentino (AFA), para decidir o futuro. “Tenho uma ideia do que quero fazer. Cumprirei o contrato e depois vejo. Sinto necessidade de pensar. Não sei se se vai conseguir fazer algo tão grande como isto. Se calhar… Estou agradecido ao presidente”, disse. Entre lágrimas, o treinador da Albiceleste pediu desculpa por não ter alcançado o objetivo e admitiu que vai ser muito difícil voltar a montar um grupo como este, antes de terminar repentinamente a conferência de imprensa.

Nem tudo foi cordial no final do jogo. Assim que o árbitro esloveno Slavko Vinčić apitou para o fim, Nicolás Otamendi confrontou Rodri, capitão espanhol, quando este tentava cumprimentá-lo. “Estiveste a semana toda a chorar. Tu e o Laporte, os dois. Isso não se faz, estiveste a chorar com os árbitros, amigo”, acusou o defesa argentino, cara a cara, enquanto o médio espanhol se mostrava surpreendido: “De quê, de quê?”. Mikel Oyarzabal aproximou-se para tentar acalmar os ânimos e, ao ver-se ignorado, afastou-se da cena. Rodri pediu “respeito”, mas Otamendi insistiu: “Tenho respeito, mas tu não tens de falar assim, sabes?”. A tensão tinha origem em declarações feitas por Aymeric Laporte antes do jogo, sobre a postura da Argentina em campo: “Nos últimos jogos vimos coisas que estranhámos muito, ações que se deixam passar. Sobretudo com a Argentina, que é uma equipa que deixa muitos recados. Isso no futebol não se devia permitir, especialmente em competições tão grandes, porque te pode desestabilizar e irritar”, afirmou.

O presidente argentino, Javier Milei, não esteve presente na final por superstição — desde o início do torneio, acompanhava os jogos da seleção sempre no mesmo local e com as mesmas pessoas, seguindo a crença popular de que alterar as condições associadas a boas campanhas pode quebrar a sorte da equipa. Pedro Sánchez e Donald Trump estiveram, esses sim, presentes no camarote a assistir ao jogo. Pouco depois do apito final, Milei reagiu nas redes sociais: “Muito obrigado, jogadores. Até ao fim com as botas calçadas. A Argentina sempre no topo”, escreveu no X, numa mensagem que se tornou viral, com milhões de argentinos a mostrarem apoio à Albiceleste.

A imagem que fechou a noite pertenceu a Messi. Depois da derrota por 1-0 no prolongamento, o capitão argentino recebeu a medalha de prata e colocou-se, imóvel e com lágrimas no rosto, em frente ao setor dos adeptos da Albiceleste — que continuaram a cantar o seu nome com fervor, mesmo depois de o jogo ter terminado.