Domingo, 19 de julho de 2026. Champagnole. Duas horas da madrugada. Depois de um dia em que perdeu 44 segundos para Tadej Pogacar (UAE Team Emirates-XRG) em Le Markstein, Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike) viu o seu descanso interrompido pelos batimentos na porta do seu quarto. Faltavam poucas horas para o início de mais uma etapa de alta montanha, com chegada no Plateau de Solaison. Do outro lado da porta estavam os responsáveis pelo controlo antidoping, com quem o dinamarquês e os seus colegas de profissão se têm cruzado todos os dias ao longo das últimas duas semanas. Levantou-se, identificou-se aos elementos da Agência Internacional de Testes (ITA) e acompanhou-os para serem recolhidas as suas amostras.

Uma rotunda, uma curva e um lancil também fazem parte da história: Vingegaard caiu a 21 quilómetros do fim e abandonou com braço imobilizado

Ao todo, o processo demorou cerca de 45 minutos e acabou por ser o último controlo de Vingegaard, que caiu durante a etapa seguinte e abandonou a Volta a França com uma fratura na clavícula. Recuando à madrugada, cerca de duas horas depois de o ciclista da Visma ter sido acordado pela ITA, repetiu-se o mesmo processo com o líder Pogacar. Eram 5 horas em França e, depois de ter acompanhado os elementos, o esloveno não voltou a conseguir dormir e partiu para a etapa com apenas quatro horas de sono e muita cafeína no sangue. No final do dia, nenhum dos dois apontou o controlo como uma consequência para o que aconteceu na estrada, embora Vingegaard considerasse que a interrupção no seu descanso “não ajudou” e Pogacar alertasse para os problemas que uma noite mal dormida provoca na concentração de um atleta.

Numa altura em que a polémica se tinha desencadeado por conta dos horários dos testes, o assunto ganhou outros contornos durante o último dia de descanso, na segunda-feira. Durante o dia, todos os ciclistas das 23 equipas presentes em competição foram testados, de acordo com o Libération. Ainda assim, as horas a que os inspetores se deslocaram aos hotéis foram distintas, com a Red Bull-Bora-hansgrohe, de Remco Evenepoel, e Picnic PostNL a serem testadas às 22 horas, quando alguns ciclistas já estavam a dormir. Já a Decathlon CMA CGM, de Paul Seixas, fez os testes às 20 horas, ao passo que a Groupama-FDJ United recebeu os inspetores uma hora depois. Esses fatores levaram a Associação de Ciclistas Profissionais (CPA)  a emitir um documentário, no caso considera que “em caso algum em questão a luta contra o doping”.

“A CPA deseja reafirmar, em nome de todos os corredores, o seu compromisso total com uma luta antidoping sólida, credível e eficaz. Os ciclistas profissionais são os primeiros a querer um desporto limpo. Os testes noturnos levantam questões sobre a sua pertinência: interromper o descanso dos atletas a meio da noite para realizar testes merece uma séria reflexão. Não seria mais apropriado investir mais em pesquisa científica e em tecnologias de deteção, em vez de aumentar o número de testes surpresa especialmente intrusivos? O nosso objetivo não é questionar a luta contra o doping, pelo contrário, queremos que seja cada vez mais eficaz e específica para identificar os verdadeiros batoteiros, respeitando sempre os direitos, a saúde e a recuperação dos atletas”, explicou o sindicato dos atletas.

Já a União Ciclista Internacional (UCI) pronunciou-se durante a tarde desta quarta-feira, sublinhando que “a luta contra o doping é uma prioridade absoluta”. “A UCI reconhece, naturalmente, que os controlos noturnos podem perturbar o descanso e a recuperação dos ciclistas e deseja reiterar que a realização desses controlos fora do horário normal continua a ser uma medida excecional, reservada a circunstâncias limitadas e justificadas. Embora plenamente consciente de quão onerosa tal medida é para os ciclistas, a UCI sublinha, no entanto, que estes controlos servem um interesse superior: a luta contra o doping. Em 2021, a UCI confiou à ITA a gestão do seu programa antidopagem — incluindo o planeamento e a execução dos controlos —, a fim de garantir a sua independência e maximizar a sua eficácia. Neste sentido, a UCI apoia plenamente o recurso da ITA a todos os meios ao seu dispor para cumprir a sua missão da forma mais eficaz possível”, começou por dizer a entidade que tutela o ciclismo em comunicado.

“A UCI considera essencial que todas as partes interessadas se unam e apoiem o programa antidoping em vigor no ciclismo, que é agora reconhecido pelas autoridades desportivas competentes como uma referência neste domínio. A exigência de independência, rigor e eficácia no seu programa antidoping tem um custo para o ciclismo, um custo suportado coletivamente por todas as partes interessadas: todos os anos, são investidos mais de 10 milhões de euros na recolha, análise e reanálise de amostras, bem como na recolha de informações, em todas as provas abrangidas pela alçada regulamentar da UCI, incluindo o Tour. Este investimento reflete a determinação da UCI em proteger os ciclistas que respeitam as regras e em procurar incansavelmente reforçar o seu arsenal contra aqueles que fazem batota. A UCI continuará a apoiar a ITA no cumprimento da sua missão, no pleno e total respeito pela sua independência, ao serviço de um ciclismo mais limpo e credível”, sentenciou a UCI.

Esta onda de testes é descrita ao Libération por Jean-Pierre de Mondenard, antigo médico da Volta a França, como “algo nunca antes visto” e que exige uma grande operação logística da ITA, que tem sede em Lausanne e tem aproveitado a proximidade com a sua “casa” para fazer os testes. Antes de a competição arrancar, estavam previstos mais de 600 testes antidoping, naquele que foi anunciado como um dos maiores programas de sempre da corrida francesa. As análises feitas são simples e passam pela recolha de amostras de sangue e de urina, com vista a detetar a presença de substâncias proibidas que são eliminadas pelo organismo algumas horas após o seu uso. Apesar de o caso ter ganhado contornos no fim de semana, o jornal francês garante que, na primeira semana, já dentro da fronteira de França, a Bahrain-Victorious também recebeu a visita dos técnicos às 5 horas, para testarem um dos seus ciclistas.

Antes, ainda em Espanha, uma equipa também terá sido alvo do teste antidoping ao terceiro dia de competição e em horário não regulamentado. O Ministério Público de Paris confirmou ainda que um juiz autorizou uma inspeção prévia antes da que foi realizada a Pogacar e Vingegaard, garantindo tratar-se de “um ciclista de outra equipa”. Quando um destes agentes do controlo antidoping localiza um desportista, deve identificar-se, comunicar-lhe que foi escolhido e explicar-lhe o que deve fazer. A partir daí o atleta fica em observação direta e tem de se deslocar rapidamente ao posto de controlo, a menos que tenha alguma razão válida para não o fazer. O ciclista pode solicitar a presença do seu agente ou de um intérprete, fazer perguntas, comprovar as credenciais do agente e deixar prova escrita de qualquer incidência.

Na amostra de urina, o ciclista escolhe um recipiente fechado, entrega a quantidade mínima e divide o conteúdo entre dois frascos. Já o fiscal comprova se está tudo correto e regista todos os códigos para que o laboratório receba as amostras de forma anónima. No caso da extração de sangue, o ciclista deve estar sentado e em repouso pelo menos dez minutos antes. Dependendo do objetivo final, pode ser retirado sangue convencional, soro, amostras para o passaporte biológico ou gotas de sangue seco. A partir daí as amostras são enviadas para um laboratório acreditado pela WADA, que analisa o frasco A sem conhecer a identidade do atleta e guarda o B para o caso de ser possível uma nova comprovação. As amostras podem ficar armazenadas até dez anos e serem analisadas sempre que possível. O passaporte biológico monitoriza ao longo do tempo as variáveis sanguíneas e esteróides do desportista. Quando há suspeitas, estas são analisadas por especialistas e podem originar novos controlos.

“É a regra que existe. É justa? Não. Não acho que seja justo acordar ninguém. Se te acordarem às duas da manhã para fazer algo que, obviamente, não é agradável, interrompendo as seis horas de sono que, no mínimo, precisas de manter, não é agradável. Se a lei francesa diz que é permitido, temos de respeitar as regras. Se está estabelecido, podem fazê-lo. Eu só posso dar uma opinião, e a opinião deixa de ter importância quando existe uma regulamentação à qual temos de nos submeter”, explicou Joxean Fernández, diretor desportivo da Emirates. Já Jonathan Vaughters, diretor geral da EF Education-EasyPost, tem uma visão diferente: “Os controlos às 2h são uma das formas mais eficazes de impedir a administração de peptídeos e de testosterona. E se a UCI nos tivesse submetido a controlos em 2001 às 2h? Teríamos sido todos suspensos e poupado ao desporto 25 anos de drama. Eu aceitaria perder um pouco de sono em troca de ganhar alguma credibilidade”.