Por mais que se queira, há dias em que o que podia correr bem se complica e acaba a correr mal. Porque todos têm dias em que as coisas não saem, porque todos têm dias em que os adversários parecem autênticas paredes que devolvem todas as bolas, porque todos têm dias em que pancadas diferenciadoras como o serviço não aparecem. A isso, existe também uma parte de pressão acrescida quando se joga “em casa”. Nuno Borges apontava alto neste Estoril Open mas acabou por não conseguir fugir a essa espiral negativa, caindo frente a Román Andrés Burruchaga e falhando a terceira presença consecutiva nos quartos da competição.

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“Falhou muita coisa, agora é difícil dizer o porquê. As condições estavam bastante difíceis para o meu estilo de jogo. Achei que hoje estive muito abaixo daquilo que eu sou como jogador, é a verdade. De certa maneira, não consegui estar com os pés bem assentes na terra, sentir o estádio, sentir a bola, jogar o jogo. Estive muito abaixo daquilo que treino e do que estou à espera de mim mesmo. Sinto que o meu corpo não estava a tremer mas ficou apático, não tive magia nenhuma na bola e acabei por fazer um jogo inteiro de uma maneira que não é o meu jogo. É muito desapontante e duro. Tento ver como só mais um jogo, mas não é. Porque não é só mais um torneio…”, lamentou o jogador maiato após a derrota na segunda ronda do quadro individual.

No entanto, o que para uns “pesa”, para outros pode ser um fator de libertação. Tiago Torres, português que ocupa o 427.º lugar da hierarquia mundial, é um exemplo paradigmático disso mesmo. A disputar apenas o seu primeiro torneio ATP, o jogador lisboeta de 24 anos conseguiu vencer na primeira ronda o georgiano Nikoloz Basilashvili (135.º) e teve o jogo de uma vida frente ao terceiro cabeça de série do torneio e 30.º do ranking mundial, o chileno Alejandro Tabilo, tornando-se apenas o quarto jogador nacional a chegar aos quartos desde que a organização do Estoril Open mudou, em 2015, a par de João Sousa, João Domingues e Nuno Borges. Agora havia mais um português na calha para atingir esse patamar de top 8: Jaime Faria.

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A atravessar o melhor ano da carreira, que teve como um dos pontos altos a autêntica batalha travada com o norte-americano Frances Tiafoe na terceira ronda de Roland Garros após vencer Denis Shapovalov e Jan-Lennard Struff, Faria conseguiu a primeira vitória no Estoril Open à terceira tentativa, batendo o neerlandês Botic van de Zandschulp (55.º), que está à sua frente no ranking mundial, com os parciais de 6-3 e 6-4 em 1h13 de jogo. Melhor início era impossível para um jogador que já pensava no próximo passo.

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“O nível não foi muito alto mas, às vezes, não é preciso jogar a um nível altíssimo, é preciso ser consistente. Significa muito uma primeira vitória no quadro principal aqui. Agora, é desfrutar e descansar. Estava tranquilo. É mais um encontro, aqui significa um bocado mais, mas há que lidar com isso. Espero estar aqui dez ou 15 anos a disputar este torneio, há que relativizar um pouco. Senti-me mais bem preparado para os nervos e para a pressão em relação aos anos anteriores”, comentou o jogador que, a certa altura da conferência de imprensa após o encontro, foi buscar a expressão “The power is in the air” para justificar a boa vitória. “Estou a citar apenas Erling Haaland e o Zlatan Ibrahimovic. São dois jogadores que têm o cabelo grande e utilizam muito essa expressão, e achei piada a isso”, apontou depois do triunfo com o neerlandês.

Seguia-se o peruano Gonzalo Bueno, 180.º da hierarquia mundial, que na primeira ronda afastou também um português, Tiago Pereira. “Foi pena esse jogo do Tiago mas ele [Bueno] é um jogador que se bate muito bem, acredita até ao último ponto. Conheço-o desde os juniores, já o defrontei e até já treinei com ele várias vezes. Conheço-o muito bem, ele conhece-me muito bem e, quando é assim, os encontros são sempre mais disputados. Há que preparar bem o desafio”, destacara Jaime Faria, 88.º do ranking, antes do jogo.

Com maior ou menor influência do cabelo, o arranque da partida mostrou sobretudo duas das características que permitiram que chegasse onde nunca tinha chegado no ranking ATP: o primeiro serviço, uma arma que tem para controlar os momentos de cada set, e a confiança. Jaime Faria até começou a perder os primeiros cinco pontos da partida mas nem por isso vacilou, segurando o seu jogo inicial de serviço e fazendo depois o break na primeira oportunidade que teve, confirmado pelo 3-1 com jogo em branco. O português só estava a pecar em algumas respostas mas, em tudo o resto, controlava o andamento da partida, voltou a quebrar o serviço do peruano no 5-2 cedendo apenas um ponto e fechou o 6-2 em apenas 29 minutos com mais duas bombas no primeiro serviço a rondar os 220 km/hora que apenas aceleraram o que era inevitável.

Bueno tinha um grande desafio: capitalizar algumas respostas falhadas de Jaime Faria no seu serviço, evitar eclipses em jogos onde sofria breaks e tentar pressionar de outra forma os serviços do português. Em relação ao último ponto, não teve a mínima hipótese; em tudo o resto, a capacidade de resistência não durou mais do que cinco jogos, altura em que Faria conseguiu meter uma série de winners e chegou ao primeiro break do segundo set, contrariado logo de seguida num 3-3 do peruano que fugiu à lógica do encontro. Bueno fez ainda o 4-3 passando pelas vantagens mas Faria teve sempre a capacidade de manter o foco na partida, saindo de um 30-0 no serviço do peruano para um break que fez o 5-4 e “sentenciou” o 6-4 final. Agora, nos quartos, Jaime Faria vai defrontar o vencedor do jogo entre Luciano Darderi e Pedro Martínez, naquela que será a primeira vez nesta nova era no Estoril com dois portugueses a jogarem o top 8 da prova.