Chegou a vez do número um conquistar a montanha mágica. A antepenúltima etapa da 113.ª edição da Volta da França perdurará na história como uma das mais espectaculares, daquelas que, dentro de 20 anos, ainda serão lembradas por quem assistiu, fazendo parte dos almoços de família e das conversas entre avós e netos. Com chegada ao mítico Alpe d’Huez, Tadej Pogacar (UAE Team Emirates-XRG) não quis desperdiçar a primeira oportunidade de triunfar na montanha dos grandes campeões do ciclismo e mostrou que é o número um do mundo com uma vitória descomunal. Foi no palco onde só ganham os campeões que o esloveno atacou e recuperou mais de dois minutos para a fuga em cerca de 12 quilómetros. Depois, foi mais forte que todos os outros e cortou a meta sozinho. Para trás ficou uma subida especial, com ataques, espetáculo e um mar de gente excecional, ainda que com alguns excessos à mistura, como o que custou o abandono de Einer Rubio (Movistar) “a troco” de 20 pontos na cara.

Há montanhas que falam e escutam o grito de quem quer antecipar a festa: Pogacar bate recorde de Pantani no Alpe d’Huez e chega à quinta

“Sinto a necessidade de explicar o que aconteceu ontem [sexta-feira], da minha perspetiva de dentro do carro. Nos quilómetros finais do Alpe d’Huez, com milhares de fãs muito próximos da estrada e a imensa pressão típica de uma etapa decisiva do Tour, um espectador, inesperadamente, entrou na estrada e caiu à frente do nosso carro. A minha única reação foi travar imediatamente para não o atropelar. Foram apenas alguns décimos de segundo em que só pensei em evitar uma tragédia muito maior. Após a queda ouvimos um grande estrondo atrás de nós, mas no meio do barulho, da tensão, da multidão e da responsabilidade de continuar a proteger o líder da corrida, só quando chegámos à meta é que soube da gravidade do acidente e que Einer teria que abandonar o Tour. Liguei imediatamente para a Movistar para expressar a minha preocupação e perguntar como é que ele estava”, explicou Joxean Matxin Fernández, diretor desportivo da Emirates, sobre o acidente.

“É fantástico vencer aqui. O ambiente foi de loucura durante toda a subida. Obrigado a toda a equipa por me ter permitido conseguir isto no final. Corri pelos meus colegas de equipa e estou super feliz por ter conquistado a vitória. Demos tudo o dia todo. No primeiro quilómetro do Alpe d’Huez sabia que tinha boas pernas e que já não restavam muitos ciclistas capazes de me acompanhar ou de tentar seguir-me, por isso tentei e dei tudo até ao alto. Tinha o Adam [Yates] no meio, o que me deu um grande impulso moral, e fiquei super feliz por ele estar finalmente de volta. Depois do contrarrelógio, ele ficou muito doente e fiquei super feliz por pedalar atrás dele durante alguns quilómetros na subida. No final, tive de lutar contra ciclistas muito bons, mas eles acabaram por se distrair um pouco uns com os outros, o que me ajudou a recuperar e a vencer a etapa”, analisou o maillot jaune.

Ao penúltimo dia chegou uma das etapas mais duras da história do Tour de France, com quase 5.500 metros de desnível positivo acumulado e três subidas de categoria especial. A etapa rainha ligou Le Bourg d’Oisans ao Alpe d’Huez, num percurso com 170,9 quilómetros de extensão. A primeira dificuldade foi o Col de la Croix de Fer (24 km a 5,2%), logo nos primeiros 30 quilómetros. Depois da longa descida, o pelotão começou a subir para o Col du Télégraphe (11,9 km a 7,1%), que serviu de preparação para o lendário Col du Galibier (17,7 km a 6,9%), que tinha o seu alto a 2.642 metros de altitude, perfilando-se como o ponto mais alto desta edição (Prémio Henri Desgrange). A 26,5 quilómetros da meta começava o último obstáculo do dia, o Col de Sarenne (12,8 km a 7,3%). Ao contrário da véspera, o Alpe d’Huez aparecia apenas nos últimos quatro quilómetros, já bem perto do alto.

O início da etapa foi bastante intenso, com muitos ciclistas a tentarem entrar na fuga, mas só 15 acabaram por conseguir fugir ao pelotão, com destaque para as presenças de Juan Ayuso e Mads Pedersen (Lidl-Trek), que garantiu a conquista da camisola verde, bem como de Richard Carapaz (EF Education-EasyPost) e Valentin Paret-Peintre (Soudal Quick-Step) que continuaram na luta pela camisola da montanha. O equatoriano acabou por ser o melhor na primeira subida de categoria especial e, na segunda, viu o adversário direto ficar para trás, dando um passo de gigante rumo à conquista da camisola das bolinhas no Télégraphe, que assegurou no Galibier, numa altura em que o grupo principal era liderado por… Pogacar. Depois de Felix Grossschartner ter acabado o trabalho, o camisola amarela assumiu a dianteira do grupo e as despesas da corrida em prol do pódio de Isaac del Toro, como prometera na véspera. Ainda assim, faltavam mais de 60 quilómetros para a meta.

No início do Col de Sarenne, a última contagem de categoria especial desta Volta a França, Sepp Kuss (Visma-Lease a Bike) atacou e deixou para trás Jai Hindley (Red Bull), Carapaz e Ayuso. A 21 quilómetros do Alpe d’Huez, a Decathlon CMA CGM assumiu o grupo principal, com Nicolas Prodhomme a aumentar o ritmo de Pogacar antes de Matthew Riccitello também assumir o trabalho, na altura em que se ia jogar o pódio entre Del Toro e Paul Seixas. Tobias Halland Johannessen (Uno-X Mobility) e Mattias Skjelmose (Lidl) foram os primeiros a quebrar, enquanto que, na dianteira, o trio voltou a ficar junto. Nos últimos três quilómetros da subida, Kuss voltou a atacar e Del Toro e Pogacar reduziram o grupo a Remco Evenepoel (Red Bull) e Lenny Martinez (Bahrain-Victorious), deixando para trás Seixas. O norte-americano cortou o Col de Sarenne na frente, com 18 segundos de vantagem para o equatoriano e 2.05 para os favoritos.

A sete quilómetros da meta, Kuss saiu largo numa curva na descida, caiu e, apesar de ter mantido uma ligeira distância para Carapaz, voltou a embater num muro logo a seguir, numa zona de precipício sem qualquer sinalização, em que lhe valeu o facto de haver rede. O camisola da montanha aproveitou para iniciar a subida sozinha, ao passo que, no pelotão, o ritmo de Hindley fez com que Lenny descolasse. Evenepoel respondeu à seleção do companheiro e atacou a menos de três quilómetros, deixando Del Toro para trás e, por consequência, Pogacar, que não abandonou o companheiro. No final, Richard Carapaz voltou a ser gigante e venceu pela segunda vez nesta Volta a França, com Evenepoel a bater Kuss ao sprint em cima da meta e Pogacar e Del Toro a comemorarem juntos.

Olhando à geral, Tadej Pogacar chega ao último dia com 6.26 minutos de vantagem para Remco Evenepoel, com Isaac del Toro a carimbar o pódio a 9.42 do companheiro. Segue-se Paul Seixas, a 11.56, ao passo que Lenny Martinez completa o top 5, a 13.02. Nos pontos, Mads Pedersen parte para Paris com 527 pontos, contra os 445 de Jasper Philipsen (Alpecin-Premier Tech), ao passo que Carapaz tem 156 na montanha, bem à frente de Pogacar (100). O melhor jovem vai ser Del Toro e, por equipas, a vencedora vai ser a Lidl, que bateu a Emirates.