O embaixador de Israel em Portugal pediu o cancelamento do concerto desta sexta-feira do cantor Kanye West no estádio do Algarve, considerando “uma vergonha” participar no espetáculo dum artista que “glorificou Hitler e promoveu o antissemitismo”.

Numa mensagem de vídeo divulgada nas redes sociais, Oren Rozenblat referiu que Kanye West “declarou publicamente ‘eu gosto de Hitler’ e ‘eu sou um nazi'”, além de ter defendido que “‘a escravatura foi uma escolha'”.

Esta frase “ofendeu profundamente milhões de descendentes das vítimas da escravatura”, apontou o embaixador, para quem “isto não é provocação, é um discurso de ódio”.

Por isso, defendeu, Portugal deve seguir o caminho já escolhido por vários países e afastar o cantor rapper norte-americano, dando como exemplo a Austrália, “que revogou o seu visto”, o Reino Unido, “onde foi impedido de entrar no país”, mas também a França, Polónia, Suíça e Eslováquia, onde “os seus concertos foram cancelados”.

Mostrando-se surpreendido por alguém que “glorifica Hitler, promove o nazismo e defende o antissemitismo” ter palco num estádio “que pertence aos municípios de Faro e Loulé e, por isso, aos seus cidadãos”, Oren Rozenblat sublinhou que isso devia ser “uma linha vermelha numa sociedade democrática”.

O embaixador ressalvou ainda que esta questão não tem nada a ver com a política de Israel, mas sim com o apoio dos portugueses a um artista que promove a discriminação.

“Ninguém é obrigado a concordar com Israel. Essa não é a questão”, afirmou, questionando quem pretende assistir ao concerto se o faria caso o artista em causa promovesse o ódio contra pessoas negras, contra muçulmanos, contra cristãos ou contra pessoas LGBT.

“Se a resposta é não, porque razão deveria ser diferente quando o alvo são judeus?”, argumentou.

O diplomata israelita avançou ainda ter falado diretamente com o presidente da Câmara Municipal de Faro, pedindo-lhe que cancelasse o evento ou apelasse aos cidadãos de Faro para não estarem presentes.

“Espero sinceramente que Portugal escolha estar do lado certo da História. E cancele este concerto. Se este concerto acontecer, é uma vergonha para Portugal, para os portugueses, para os cidadãos do Algarve e para todos os que vão assistir a este concerto”, concluiu.

Kanye West tem marcado para esta sexta-feira, às 21h, um concerto de duas horas no estádio do Algarve, onde o rapper irá apresentar temas da sua nova digressão internacional associada ao álbum “Bully”, além de percorrer várias eras da sua carreira.

O artista proferiu, ao longo dos últimos anos, várias afirmações de teor antissemita, teorias da conspiração sobre a comunidade judaica e declarações de apologia ao nazismo.

Estas afirmações resultaram na suspensão das suas redes sociais, no cancelamento de contratos com marcas globais como a Adidas e até na proibição de entrar em determinados países.

Entre outros casos, Kanye West afirmou, em dezembro de 2022, durante uma entrevista ao vivo, “Eu amo Hitler” e “Eu vejo coisas boas em Hitler” e defendeu que “todas as pessoas trouxeram algo de valor para a mesa, especialmente Hitler”, acrescentando que “não gostava de ver a palavra maldade associada aos nazis”.

Na mesma altura, publicou na rede social X (antigo Twitter) uma imagem que fundia a suástica nazi com a estrela de David judaica, o que levou o dono da X, Elon Musk, a suspender a sua conta na plataforma.

Em janeiro passado, poucas semanas antes do lançamento do seu novo trabalho, Kanye West comprou um anúncio de página inteira no jornal The Wall Street Journal, onde publicou uma carta aberta intitulada “Aos que magoei”.

Na carta, pediu desculpas públicas e afirmou: “Não sou nazi nem antissemita. Eu amo o povo judeu”, justificando o seu comportamento passado com graves crises de saúde mental causadas por um transtorno bipolar.