Durante anos, Jason Arday foi apresentado como um exemplo de resiliência. Diagnosticado com autismo aos três anos, atraso global do desenvolvimento e dislexia, foi não verbal até aos 11 anos e só aprendeu a ler e a escrever aos 18. Em 2023, aos 37 anos, tornou-se o professor negro mais jovem da história da Universidade de Cambridge, em Inglaterra.
O percurso de Arday, no entanto, deu lugar a uma das maiores controvérsias recentes do ensino superior britânico. Acusações de plágio, dúvidas sobre o seu percurso académico e sobre alguns dos feitos que relatou, seguidas de semanas de escrutínio mediático, levaram-no a deixar a prestigiada universidade na quarta-feira passada.
E a demissão parece ter sido apenas a primeira peça de um efeito dominó que se estendeu à sua carreira e à sua vida pública. Nos dias que se seguiram, outras começaram a cair: segundo a BBC News, Arday cancelou uma participação na conferência da Royal Geographical Society, em Londres, e deixou de figurar em dois outros eventos para os quais estava anunciado. Também abandonou funções na British Sociological Association (BSA), acrescenta a emissora britânica nesta segunda-feira, enquanto Cambridge abriu uma investigação sobre as suas qualificações académicas e nomeações honorárias.
Quem é e como ascendeu Jason Arday?
Jason Atta Kewi Arday é um académico britânico, nascido em 1985, filho de pais ganeses, e cresceu no distrito de Clapham, no sudoeste de Londres.
A sua história de vida, contada nas memórias Great and Unfortunate Things — que chegam às livrarias este mês e de que o New York Times divulgou esta segunda-feira alguns detalhes — é parte importante da imagem que construiu.
Segundo o próprio relato, Arday foi não verbal até quase aos 12 anos e só aprendeu a ler e a escrever em idade adulta. O livro descreve depois uma trajetória marcada por dificuldades de aprendizagem e episódios pessoais e profissionais extraordinários, até à chegada a Cambridge. Algumas dessas afirmações estão também agora sob escrutínio.
Apesar das dificuldades, conseguiu concluir um curso em estudos de educação, obtendo o grau de licenciado em Artes. Completou um mestrado em educação e pedagogia e uma pós-graduação também em educação e concluiu o doutoramento na mesma área.
Depois, em 2015, Arday iniciou uma carreira académica que o levou por várias universidades britânicas, entre elas Leeds Beckett, Roehampton, Durham, Warwick e Glasgow. Ao longo desse percurso, especializou-se na área da sociologia e da educação, chegando a ocupar, na Universidade de Glasgow, o cargo de professor de sociologia da educação na Escola de Educação e de vice-reitor executivo para as pessoas e cultura na Faculdade de Ciências Sociais e Saúde. Em Durham, foi professor associado de sociologia.
A par da carreira académica, Arday foi também editor convidado do programa Today, da BBC Radio 4, e assumiu funções em várias organizações ligadas à educação, à luta contra o racismo e à inclusão. Foi patrono da Adult Literacy Trust e da Get Further e integrou, durante 11 anos, o Conselho de Curadores do Runnymede Trust, o principal think tank de igualdade racial do Reino Unido.
Este percurso culminou em 2023, quando, aos 37 anos, se tornou professor de sociologia da educação na Faculdade de Educação da Universidade de Cambridge e o professor negro mais jovem da história da instituição.
Arday era apresentado como um exemplo de perseverança e tornou-se também uma figura associada às políticas de diversidade no ensino superior britânico.
Mas, depois de todas estas conquistas, passou a ser alvo de acusações de plágio e de dúvidas sobre algumas das afirmações relativas ao seu percurso.
A Universidade de Cambridge continua a ter Jason Arday e uma nota biográfica na sua página na internet
Como começou a polémica?
As dúvidas sobre o trabalho de Jason Arday começaram a circular discretamente no meio académico em 2023, recordam o The Guardian e o The Telegraph, mas apenas ganharam maior dimensão em julho deste ano. O académico Nathan Cofnas publicou uma análise em que alegava ter encontrado múltiplos indícios de plágio nos trabalhos de Arday após recorrer a um software de deteção. As acusações rapidamente ultrapassaram o meio académico e integraram o debate mediático público, aumentando a pressão sobre Cambridge.
A prestigiada Universidade defendeu inicialmente Jason Arday, classificando as alegações como uma “campanha vil” destinada a prejudicar a credibilidade de Arday.
Cambridge sublinhou que levava as alegações de má conduta científica “extremamente a sério”, mas explicou que, de acordo com os procedimentos do ensino superior britânico, a investigação de suspeitas de plágio deve ser conduzida pela universidade onde a investigação foi realizada, refere o The Guardian. Por isso, encaminhou as queixas para a Universidade de Liverpool John Moores, familiar a Arday, por considerar que a instituição tinha acesso aos elementos necessários para realizar uma investigação completa e imparcial.
Com novas informações a serem divulgadas pela comunicação social e o aumento do escrutínio público, a pressão sobre Cambridge intensificou-se e a universidade acabou por anunciar uma nova investigação na quarta-feira. A iniciativa surgia “na sequência de novas informações” relacionadas com as “qualificações académicas e nomeações honorárias” de Arday.
As alegações de plágio
As acusações contra Jason não se limitaram a um único trabalho. À medida que o escrutínio aumentou, a atenção passou para a tese de doutoramento, para artigos científicos e para aspetos do seu percurso profissional e biográfico.
A controvérsia ganhou maior dimensão quando o The Telegraph noticiou que a tese de doutoramento de Arday continha mais de uma centena de passagens alegadamente semelhantes às de Paula Zwozdiak-Myers, apresentada na Brunel University seis anos antes. O jornal britânico diz que as semelhanças incluíam frases quase iguais, estruturas de texto muito próximas e trechos que apresentavam apenas alterações mínimas.
Estas alegações alargaram-se a vários artigos científicos publicados por Arday. Alguns desses trabalhos já tinham sido alvo de correções depois de terem sido identificadas falhas nas citações e referências bibliográficas, gerando dúvidas sobre a sua carreira académica.
O escrutínio passou também da produção académica para algumas das afirmações presentes no relato da sua vida. Entre elas está a de que teria percorrido 600 milhas — cerca de 965 quilómetros — em seis dias e de que teria angariado 5,5 milhões de libras (6,44 milhões de euros) para instituições de caridade. O New York Times refere, por sua vez, que outra das histórias que mais atenção tem recebido é a de que Arday completou 30 maratonas em 35 dias, em 2010, para angariar dinheiro para causas sociais. Segundo o relato incluído no livro, o académico chegou a sofrer uma convulsão durante uma das provas e continuou a correr apesar de uma fratura na perna.
Arday admitiu erros no seu trabalho inicial, mas rejeitou ser descrito como um “mentiroso” tendo negado irregularidades.
A demissão
Após semanas de controvérsia no debate académico e mediático no Reino Unido, Jason Arday anunciou a demissão da Universidade de Cambridge no dia 5 de agosto, finalizando, pelo menos por enquanto, o trajeto que o marcava como o professor negro mais jovem da história da instituição.
Ao anunciar a saída, Arday afirmou que a pressão a que foi sujeito ultrapassou o que considera ser uma consequência natural do escrutínio académico.
Embora a crítica seja uma parte inevitável da vida académica, aquilo que vivi foi muito mais além de um desacordo académico”, afirmou.
Acrescentou que as “acusações incessantes, a especulação e os comentários públicos” tiveram um “profundo impacto” em si e nas pessoas que ama.
Arday disse ainda que o “custo pessoal” do escrutínio se tinha tornado “demasiado elevado” e sublinhou que a sua demissão não deveria “ser confundida com uma aceitação das narrativas que têm circulado” a seu respeito.
O professor deixou em aberto a possibilidade de regressar ao ensino e à investigação no futuro, quando considerar que está em condições adequadas para o fazer.
Várias participações canceladas
A saída de Cambridge começou também a ter consequências na agenda pública de Arday. Segundo a BBC News, uma participação que tinha prevista na conferência da Royal Geographical Society, em Londres, em setembro, foi cancelada a seu pedido. Outras duas aparições públicas que estavam marcadas para os meses seguintes — uma numa livraria de Edimburgo e outra num evento de autores no Arizona — deixaram entretanto de figurar nos respetivos programas. Mas mantém, por enquanto, uma participação prevista no Stroud Book Festival, em Gloucestershire, em novembro.
Também deixou entretanto a British Sociological Association, onde ocupava os cargos de diretor de publicações e administrador fiduciário.
Já o NHS Race and Health Observatory ainda o apresenta como membro do seu grupo consultivo académico com o antigo título de Cambridge, e a Advance HE recusou confirmar à BBC se mantém a sua distinção de senior fellow, invocando a legislação de proteção de dados.
O Runnymede Trust, do qual Arday foi administrador fiduciário até 2024, saiu em sua defesa. Numa declaração divulgada na semana passada, a organização condenou aquilo que descreveu como um “escrutínio mediático racializado e hiperagressivo”.
A autobiografia
Apesar da turbulência em torno da sua carreira, a publicação das memórias de Arday, Great and Unfortunate Things, mantém-se prevista para esta semana nos Estados Unidos e para 27 de agosto no Reino Unido.
O livro acompanha a sua vida desde a infância, quando, segundo o próprio relato, enfrentava dificuldades relacionadas com o autismo e outras deficiências, até à construção de uma carreira que culminou na nomeação para Cambridge. O New York Times, que teve acesso à auto-biografia, descreve-a como um relato de uma vida marcada por dificuldades, mas também por sucessos que Arday apresenta como improváveis.
Entre os episódios narrados está o momento em que afirma ter começado a falar poucos dias antes de completar 12 anos. Arday conta também que só conseguiu ler e escrever aos 18 e que, durante a formação académica, por vezes precisava de cerca de uma hora para ler e compreender uma única página de texto, devido à dislexia.
Arday escreve também que pouco antes da defesa da sua tese de doutoramento, em 2015, lhe foi diagnosticado um pequeno tumor na hipófise, que foi removido menos de cinco semanas antes da defesa, e que, durante a recuperação, sofreu um acidente isquémico transitório que, segundo afirma, afetou temporariamente a sua memória.
A narrativa termina com a chegada da oportunidade que o levaria a Cambridge. Arday conta que, em 2022, foi contactado por uma universidade de prestígio em Londres e que pouco depois tomou conhecimento de uma vaga em Cambridge. Apesar das dúvidas sobre as suas próprias capacidades, decidiu candidatar-se.
É precisamente essa trajetória — de uma infância marcada por dificuldades de aprendizagem até à chegada a uma das universidades mais prestigiadas do mundo — que está agora também em discussão. As memórias chegam às livrarias num momento em que não só a universidade investiga como também novas informações sobre as qualificações académicas e nomeações honorárias de Arday e como algumas das afirmações que ajudaram a construir a sua imagem pública estão a ser questionadas.
Texto editado por Dulce Neto