Milhares de pessoas manifestaram-se esta quarta-feira em Espanha em solidariedade com Ceuta e com muitas críticas à atuação do Governo espanhol na crise que afeta o enclave, originada pela entrada ilegal na cidade de uma avalanche humana em julho.
As centenas de manifestações foram convocadas por diversas instituições e associações para esta quarta-feira por ser o Dia de Ceuta, a festa anual da cidade, um enclave espanhol no norte de África que faz fronteira com Marrocos. As concentrações desta quarta-feira começaram a ser convocadas desde meados de agosto nas redes sociais, com apelos à solidariedade com a cidade.
Posteriormente, a presidente da Federação Espanhola de Municípios e Províncias (FEMP), María José García-Pelayo, do PP, anunciou também concentrações em frente das câmaras municipais e governos regionais de todo o país, mas outras formações políticas representadas na federação demarcaram-se da iniciativa e alguns autarcas, partidos e associações anunciaram concentrações próprias.
Segundo a associação PorCeuta.es foram convocadas para esta quarta-feira mais de 800 concentrações por parte de diversas entidades em toda a Espanha.
As manifestações mobilizaram, segundo os dados de autoridades locais, 20 mil pessoas na própria cidade de Ceuta e outras 50 mil em Madrid, onde houve uma das concentrações mais numerosas, na praça de Cibeles, em frente da câmara municipal da capital espanhola, liderada pelo Partido Popular (PP, direita). Já em Valência, foram contabilizados pelo menos 25 mil manifestantes.
No centro de Barcelona, a Praça Sant Jaume foi ocupada por cerca de 1500 a demonstrar apoio a Ceuta e por outras 700 pessoas numa demonstração antirracista e antifascista, ambas as manifestações separadas por um amplo dispositivo da polícia catalã. Já em Badalona, a norte, a polícia municipal estima que tenham estado 10 mil pessoas.
Os protestos provocaram incidentes contra profissionais da comunicação social. Jornalistas foram insultados e agredidos durante as mobilizações de Madrid e de Ceuta. Na capital, a Polícia teve de intervir depois de vários manifestantes se terem confrontado com profissionais da imprensa.
Los manifestantes de Madrid cargan contra un periodista de TVE durante las protestas por Ceutahttps://t.co/SO9h5tF64m pic.twitter.com/9MUTwgbRjN
— EL MUNDO (@elmundoes) September 2, 2026
Agreden al reportero de TVE Jesús Poveda en la manifestación ultra en Cibeles. Sujetos que no saben dónde está Ceuta en el mapa. No les importan los ceutíes, solo esparcir odio y generar violencia.
Vergüenza. pic.twitter.com/ZmociKAR9E
— Pablo Fernández (@_PabloFdez_) September 2, 2026
Na manifestação de Madrid esteve o líder do PP e da oposição em Espanha, Alberto Núñez Feijóo, e o do Vox (extrema-direita), Santiago Abascal, que preside ao terceiro maior partido no parlamento nacional.
Em declarações aos jornalistas, Feijóo lamentou que Sánchez não tenha estado esta quarta-feira em Ceuta nas celebrações do dia da cidade. “Ceuta merece que os poderes do Estado estejam presentes“, afirmou, antes de sublinhar que “uma cidade espanhola foi invadida e ocupada e com o conhecimento do Governo”.
Feijóo acusou também Sánchez de mentir sobre Ceuta e de ter escondido os relatórios policiais sobre o ocorrido na cidade. “Vai-se descobrir por que razão invadiram Ceuta, quem o permitiu e quem o promoveu. Mas claro, já sabemos quem nos mentiu. Quem o fez, com os relatórios da polícia em mãos, foi todo o Conselho de Ministros e o presidente do Governo. É um facto sem precedentes na nossa história”, atirou o líder do PP.
Sánchez não participou esta quarta-feira em nenhum evento relacionado com o Dia de Ceuta, tendo antes divulgado um vídeo nas redes sociais reiterando o compromisso do Governo com a mobilização de todos os meios e esforços para solucionar a crise instalada na cidade, assumindo que é uma situação complexa.
Hoy quiero agradecer al pueblo ceutí la serenidad, la solidaridad y la responsabilidad que ha demostrado durante estas semanas.
Estamos movilizando todos los recursos a nuestro alcance para que vuestra ciudad recupere cuanto antes la plena normalidad.
Estoy seguro de que el… pic.twitter.com/hfveSeXbRW
— Pedro Sánchez (@sanchezcastejon) September 2, 2026
“Hoje quero agradecer ao povo de Ceuta a serenidade, a solidariedade e a responsabilidade que demonstrou durante estas semanas“, disse o presidente do Governo espanhol.
A manifestação ao final da tarde desta quarta-feira em frente da câmara de Madrid foi uma das concentrações em que se ouviram gritos e insultos contra o líder espanhol e pedidos de demissão de Sánchez e do Governo por causa de Ceuta.
Como aconteceu noutras cidades e localidades espanholas, em Madrid houve à mesma hora outras manifestações, de grupos que se quiseram desvincular do PP e do Vox, convocadas em solidariedade com Ceuta e “contra o racismo” e os “discursos de ódio”, mas também por grupos conotados com a direita mais extremista.
Em locais como Valência, os meios de comunicação social relataram como manifestantes queimaram cartazes com a cara de Pedro Sánchez e do Rei de Marrocos, Mohamed VI, enquanto noutros casos houve lamentos pelo aproveitamento político que os manifestantes consideram estar a ser feito de Ceuta pelos partidos de direita e, sobretudo, de extrema-direita e xenófobos.
O ministro da Política Territorial de Espanha, Ángel Víctor Torres, que está a coordenar a resposta do Governo à crise de Ceuta, disse esta quarta-feira que a maioria das concentrações teve motivações políticas. “Não é para demonstrar apoio à cidade de Ceuta ou aos seus habitantes, é para atacar o Governo de Espanha“, afirmou, em declarações a jornalistas.
Em Ceuta, o presidente do governo da cidade autónoma, Juan Vivas, do PP, agradeceu o apoio vindo de todo o território espanhol e disse no final de uma das concentrações desta quarta-feira no enclave que “Ceuta não se rende, defende-se” e que essa defesa se faz “com todos os habitantes de Ceuta, rezem como rezem”, numa referência à diversidade religiosa da cidade a que preside.
[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]