A Reserva Federal dos EUA (Fed), o banco central mais poderoso do mundo, anunciou nesta quarta-feira uma subida de 25 pontos-base (um quarto de ponto percentual) nas taxas de juro, para um intervalo entre 3,75% e 4%, confirmando aquela que já era a expectativa da generalidade dos analistas. Kevin Warsh, que está desde maio na liderança da Fed, subiu assim as taxas de juro na terceira reunião de política monetária sob a sua liderança – em junho e julho a decisão tinha sido de manter os juros inalterados.
A decisão de subir a taxa (pela primeira vez desde 2023) terá sido unânime entre os responsáveis do banco central, uma vitória “diplomática” para Kevin Warsh. A visão geral dentro do conselho é que deverá haver ainda mais uma subida das taxas de juro até ao final do ano, o que se justifica pela inflação “elevada” que se verifica neste momento e, provavelmente, no horizonte próximo.
O comunicado divulgado nesta quarta-feira, que inclui um quadro com as previsões de cada governador para a evolução da taxa de juro, sustenta a ideia de que as taxas de juro vão continuar em níveis elevados por bastante tempo. Doze dos 18 responsáveis que compõem o conselho apontam para mais uma subida dos juros até ao fim do ano, ao passo que quatro responsáveis acreditam que os juros podem subir ainda mais, para entre 4,25% e 4,5%.
A convicção da generalidade dos membros do conselho é que as taxas de juro vão continuar elevadas muito para lá do final de 2026. Catorze membros admitem que a taxa de juro pode terminar o ano de 2027 acima do nível atual, e mesmo para 2028 a expectativa média é de taxas de juro de 3,9% (contra os 3,4% que eram anteriormente previstos).
A decisão desta quarta-feira surge num contexto em que voltaram a agravar-se as pressões inflacionistas nos EUA. A inflação mantém-se acima do objetivo de 2% da Reserva Federal, enquanto a subida dos preços da energia tem alimentado os receios de que o ritmo de aumento dos preços possa acelerar ainda mais. O petróleo tem estado a ser negociado acima dos 100 dólares por barril nas últimas semanas, fruto do agravamento das tensões no Médio Oriente.
Ao mesmo tempo, a economia norte-americana tem revelado uma resistência superior à esperada. Dados recentes sobre a atividade e o consumo têm reduzido os argumentos para uma política monetária mais expansionista – ou, dito de outra forma, têm aumentado a confiança de que a economia é capaz de aguentar juros mais elevados (que podem ser necessários para combater a inflação).
Por outro lado, os mercados obrigacionistas também têm refletido a preocupação com a inflação e com a trajetória das contas públicas dos EUA. A taxa de juro da dívida federal norte-americana (os Treasuries) a 10 anos chegou a superar os 5% esta semana, o valor mais elevado em vários anos.
“Este comité irá assegurar a estabilidade dos preços“, prometeu Kevin Warsh na conferência de imprensa, reconhecendo que a inflação “tem-se mantido demasiado elevada há demasiado tempo”. “A decisão sóbria que tomámos hoje é a decisão certa“, até porque “aqueles [cidadãos] com menos recursos são aqueles que mais beneficiam de uma estabilidade dos preços”.
Esta subida da taxa de juro, caso consiga convencer os investidores de que a Reserva Federal irá ser dura no combate à inflação, poderá atenuar um pouco a pressão sobre as taxas de juro da dívida norte-americana – já que as dívidas públicas tendem a sofrer juros mais altos quando há risco maior de inflação.
Nessa perspetiva, esta decisão poderá ajudar a administração Trump a baixar um pouco a “fervura” que se tem sentido nos mercados de dívida pública. Por outro lado, esta subida dos juros faz aumentar os custos de muitos norte-americanos com os seus créditos, o que pode penalizar a popularidade do Presidente dos EUA a poucas semanas das eleições intercalares (de novembro).
A decisão ocorre ainda num contexto de tensão entre a independência da política monetária e a pressão política por juros mais baixos. Donald Trump tem defendido publicamente uma redução dos custos de financiamento, enquanto a Fed tem de equilibrar essa questão com o seu mandato de estabilidade de preços e emprego máximo. Em Sintra, Kevin Warsh garantiu que a Fed, sob a sua liderança, será sempre impermeável a pressões da Casa Branca.