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Uma conferência, um jogo, uma conversa que prometia abordar tudo menos o jogo. Depois da viagem de Malmö para Copenhaga, após um pequeno estágio feito pela Seleção na sequência da vitória em Oslo diante da Noruega, Portugal realizava o seu último treino no Parken antes da terceira jornada da Liga A da Liga das Nações frente à Dinamarca. Antes, Jorge Jesus e um dos capitães, que acabaria por ser Rúben Dias, estavam apontados a falar aos jornalistas. Tema? De forma inevitável, o mal-estar entre Ronaldo e Jorge Jesus.

Depois da reunião entre ambos na noite desta terça-feira, que esvaziou todo o ambiente de alegada tensão que se vivia na sequência da não utilização do capitão na partida com os noruegueses, Pedro Proença, líder da Federação Portuguesa de Futebol que viajou mais cedo do que estava previsto para a Escandinávia para tentar ser uma espécie de “mediador” de um conflito que afinal estava extinto, esteve também com Ronaldo e com Jorge Jesus, confirmando que o ambiente no seio da Seleção era tranquilo, sereno e com o foco total no jogo com os dinamarqueses. O que faltava saber? Como iria dissecar Jesus toda esta “novela”.

“Da minha parte e de todo o grupo, não há pontas soltas e estamos prontos para o jogo de amanhã [quinta-feira]”, começou por dizer Rúben Dias. “Saída sem cumprimentar os adeptos? É um momento de frustração de dez, 15 ou 20 segundos que não belisca o compromisso que tem há 20 anos e passados esses segundos está a celebrar uma vitória importante. Vocês hoje vão ver o treino, sorrisos. Estamos bem, é um novo ciclo, já temos duas vitórias e estamos entusiasmados com o que aí vem”, assegurou o central, que só mesmo à quinta questão falou sobre a Dinamarca, adversário de Portugal na terceira jornada da Liga das Nações.

Estava dado o mote para o “esvaziar de pressão” depois de tudo o que foi escrito, com Rúben Dias a deixar também muitos elogios às primeiras semanas de um novo ciclo com Jorge Jesus, que já o tinha orientado no Benfica. “Mudou muita coisa. Acho que vai ser o primeiro grande passo para podermos alcançar o que nós queremos. Como o mister diz muitas vezes, uma equipa está muito mais perto de ganhar se defender bem. Acreditamos muito nisso. Bocadinho a bocadinho vai-se refletindo a importância do mister em campo. Já trabalhei com o mister no passado e acho que o que mais tenho a dizer é que é tudo mais fácil quando as coisas fazem sentido”, salientou o defesa do Manchester City, que foi titular nos dois jogos anteriores. “Se falamos com Ronaldo sobre essas questões? Eu acho que vocês dão uma importância que nós não…”, fechou.

“Vou fazer uma introdução antes de responder: o mais importante é o que viemos fazer a Copenhaga. Vamos ter um grande adversário, queremos conquistar mais uma vitória para conseguir a Liga das Nações. Isso é o mais importante porque não tenho um jogador, tenho 23 jogadores. Podem colocar as questões que quiserem sobre qualquer jogador. Sobre o Ronaldo, respondo a duas perguntas, só. Mais nada. A razão para estar aqui é a Dinamarca e o selecionador da Dinamarca, não é o Ronaldo”, começou por dizer Jorge Jesus.

“Combinei e criámos um plano, para o Ronaldo como para o Bruno, por exemplo. Disse ao Cris que no jogo com a Noruega e com a Dinamarca não ia jogar. Eu trabalhei um ano com o Cris, conheço perfeitamente as condições físicas. Já fazia isso na Arábia Saudita, com jogos de três em três dias o Cris raramente jogava. A seguir ao jogo, nunca treinava, nunca. Ele falou nisso, se fosse para jogar, jogava, se fosse para não jogar, não jogava. Eu sou um treinador que pensa que aos 60 minutos tiro este e aos 70 minutos aquele. Disse que se calhar podia precisar dele mas o jogo ditou-me outras coisas, esta é a verdade. Já tive casos com muitos jogadores mas não queiram fazer disto um caso que não existe”, assegurou o selecionador.

“Foi uma opção do treinador. Tinha um plano com o Bruno [Fernandes], tudo igual. Isto para vos dizer que o estatuto é uma coisa, as regras são iguais para todos. Agora o estatuto permite ao jogador, pelo passado, o treinador ter cuidado com as decisões antes de o jogo acontecer. Depois de o jogo acontecer é a mesma coisa. O treinador tem de decidir e decide sempre em função do objetivo que é o melhor para a equipa e respeito sempre os jogadores. Disse ao Bruno Fernandes a mesma coisa. Depois do jogo de Gales ele vinha tocado, só que eu conheço o Bruno, ele trabalhou comigo. Perguntei ‘O que se passa? Não és o Bruno que conheço’. Ele abriu-se comigo. Disse que no próximo jogo não jogas. Vais jogar no outro jogo na Dinamarca se recuperares”, prosseguiu Jorge Jesus, antes de voltar à situação do capitão da Seleção Nacional.

“Foi exatamente o que fiz com o Ronaldo. O Bruno vai jogar na Dinamarca, se recuperar, claro. O estatuto do jogador não dá direitos que sejam diferenciados. O estatuto é o respeito pela carreira deles, como faço com todos, com o Cris, com outros que tive na carreira. Coloco sempre a questão do que quero fazer, do plano que quero traçar com o jogador e depois quem decide sou eu. Eles sabem, todos sabem que trabalharam comigo. Até os presidentes sabem. Num clube manda um presidente, na equipa mando eu. Em tudo o que eu estiver vai ser assim, com os jogadores é igual”, prosseguiu o selecionador sobre este tema.

“Se se recusou treinar? Não, não se recusou a treinar. Não treinou o Francisco Conceição, que estava lesionado, o João Félix, porque tentámos também descarregar a fadiga e vamos ver amanhã [quinta-feira]. E o Cris fez trabalho de ginásio. Fez mobilização no campo e depois fez trabalho de reforço para o hotel. Não recusou, ele hoje vai treinar. É o quarto dia, portanto vai treinar. Isso de recusar treinar é impossível, vocês acham mesmo isso? Isso não é o Cris. Acham que algum jogador de uma Seleção se recusa a treinar? Não é de Portugal, de qualquer Seleção, só se se quiser ir embora e tiver outras ideias. Ninguém se recusa”, garantiu.

“Não é que tenha problema de responder mas o foco é a Dinamarca. Parece que vimos aqui fazer um jogo amigável, sem interesse nenhum. Esse é o foco principal até para mim e para os meus jogadores. Não houve caso nenhum. Já expliquei por que é que foi o tal caso. Vou explicar outra vez: não tenho problema nenhum em ter casos. Tive tantos ao longo da minha carreira mas não queiram fazer disto um caso… Disse ao Cris que ele não ia jogar estes dois jogos. Pensei durante o jogo se calhar vou precisar e vai aquecer, depois não o pus no jogo. Qualquer jogador, quando andamos ali a aquecer 20 ou 30 minutos, e depois não entra, não há nenhum que fique contente. Quanto mais o Cris… Quanto mais fosse o Pelé, o Maradona. 30 minutos, Pelé ou Maradona? É esse o estatuto. Os direitos são iguais e como treinador decidi que não entrava”, vincou.

“Porque houve a reunião ontem [terça-feira] à noite? Obrigaram-me a falar com o Cris de um caso que não havia caso… Cris, em Portugal está a falar-se tanto que temos de falar, não estou a perceber o que está a acontecer. Não havia nada para falar. O que falámos é o que ele disse na conferência. Ele disse, estou aqui para tu decidires. Queres que eu jogue, eu jogo, queres que eu vá para bancada, eu vou. O presidente veio, é óbvio, tem de estar aqui, com a equipa. Falando o que se estava a falar em Portugal, quis saber o que se passou. Mas depois de jantar já tínhamos resolvido o problema que não era problema…”, assegurou.

“Se prometi que ele ia jogar 30 minutos? Posso prometer o que eu quiser, sou treinador. Sou o treinador, disse ao jogador não era para jogar. Vou levar-te para o banco. Se precisar de ti 30 minutos vais jogar, se não, não vais jogar. Nunca nenhum jogador vai mudar as minhas ideias, nem ele nem ninguém no futebol. Nem nenhum presidente. Nunca, nada”, rematou sobre o tema que tem dominado os últimos dias.