Neste ano de 2026, a Suíça perdeu mais de 5% dos seus glaciares. Em cinco anos foram 20%. E não é só em comprimento, mas também em espessura: alguns glaciares perderam este ano entre 10 e 13 metros. E alguns dos mais pequenos desapareceram mesmo por completo. No final do verão já não havia sequer neve a 3.500 metros de altitude. “É impressionante ver a enorme quantidade de gelo que derreteu. Mas ainda mais impressionante é que acontecimentos desta dimensão estejam agora a repetir-se ano após ano”, disse Matthias Huss, diretor da Glamos (Annual mass balance on Swiss glaciers), depois da publicação do seu relatório anual — “Devastating year for Switzerland’s glaciers”.
A situação parece demasiado complexa num país que chegou a usar medidas extremas para defender os seus glaciares. Tapou-os com cobertores quentes, para não derreterem. Por isso, talvez a frase mais forte do relatório da Glamos/Universidade de Zurique seja mesmo aquela que alude ao futuro: “Os glaciares alpinos não têm qualquer hipótese de sobreviver a longo prazo nestas condições.”
Tudo faz parte de uma cadeia meteorológica ligada ao aquecimento global. O último inverno foi ameno e com pouca neve. Isso fez com que os glaciares chegassem à primavera com menos neve do que o habitual. E a neve é a sua proteção natural, a sua redoma: como é branca, reflete a luz do sol e impede que o gelo glacial fique exposto diretamente. Ora, como era pouca, essa neve desapareceu cedo. E logo depois chegaram temperaturas elevadas. Como o gelo absorve muita energia solar, começou a derreter depressa.
Depois veio mesmo muito calor. Temperaturas excecionalmente altas. A altitude da isotérmica ultrapassou os 4.000 metros — isotérmica é a altitude a partir da qual a temperatura passa de positiva para negativa. Estamos a falar de mais do dobro do normal. A Suíça bateu recordes: teve temperaturas positivas em altitudes onde o gelo costuma estar bem protegido pela neve. E não foi por pouco tempo. Durante 76 dias das ondas de calor deste verão, essa linha ultrapassou os tais quatro mil metros. Foram muitos dias (ainda que não consecutivos) em que nas montanhas mais altas da Europa as temperaturas estavam positivas lá bem no topo.
O resultado não surpreende. Agora, no fim do verão, não havia neve aos 3500 metros. Nem nas zonas mais altas havia neve durante toda a estação do degelo. Daí a perda de metros de espessura dos glaciares. Que, em média, foi de 2,5 a 4 metros, mas que chegou aos 10 metros nalgumas ‘línguas’ dos glaciares. E que deixou o Aletsch, o maior glaciar dos Alpes, com 20 quilómetros de comprimento, 13 metros mais fino só este ano (tendo sofrido uma redução de três quilómetros desde 1860).
▲ A perda de gelo ao longo dos últimos anos
Mas se alguns glaciares encolheram e ficaram bem mais curtos, outros simplesmente deixaram de existir. Pequenos glaciares foram dados como definitivamente perdidos este ano. Entre eles estão o conhecido Bella Tola, no cantão do Valais, e o Griessfirn, em Glarus. Até alguns dos chamados gigantes dos Alpes bateram em 2026 recordes de degelo. Entre eles estão os glaciares Rhône, Aletsch e Clariden, que sofreram as maiores perdas de gelo desde que são monitorizados. “Aquilo que antes eram fenómenos extremos — por definição raros e muito intensos — acontece agora quase todos os verões”, disse outro dos responsáveis do relatório à Swissinfo.
Mas o gelo não desaparece, transforma-se. Em água. E segundo o relatório anual da Glamos, entre julho e setembro o degelo dos glaciares suíços libertou cerca de 2,2 mil milhões de litros de água. Agora, é uma boa notícia: este valor corresponde a mais de quatro vezes o que consomem os suíços durante um ano. Mas, olhando a longo prazo, as reservas estão a ser consumidas, os glaciares deixarão de existir e os rios alpinos dependem do degelo do verão. E tudo isso está a ficar ameaçado.
Além do calor, há um outro fator a contribuir para o degelo acelerado dos glaciares suíços: as poeiras do Saara. O relatório da Glamos evidencia esse ponto. As nuvens de pó viajam ao longo de quilómetros e depositam-se sobre a neve e o gelo. A neve deixa de ser muito branca, escurece à superfície (chama-se albedo) e, em vez de refletir grande parte da radiação solar e proteger o gelo por baixo, absorve energia e derrete mais rapidamente. Este ano o fenómeno nem foi muito grave (as poeiras andaram mais pela Península Ibérica e pela América Central e do Sul). Mas houve dois episódios graves, um em 2022 e outro em 2024. A Glamos recorda que a forte concentração de poeira saariana na neve durante a primavera de 2022 acelerou o degelo — nesse ano a Suíça perdeu cerca de 3,1 km³ de gelo, aproximadamente 6% do volume de então. E a NASA Science vai buscar um episódio de 2021, em que a brancura da neve foi anulada pelas poeiras em cerca de 40% e isso reduziu a profundidade da neve para metade num só mês.
[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]