As tensões entre os EUA e a África do Sul continuam a aumentar após o embaixador norte-americano em Pretória, Leo Brent Bozell III, ter declarado sentir-se “pessoalmente insultado” pelas críticas do ministro sul-africano das Relações Internacionais e Cooperação.
“Mais um insulto pessoal do ministro Lamola dirigido a um líder norte-americano desta vez a mim, que, ao ser denunciado, como estou a fazer agora, levará a uma ‘démarche’ [protesto diplomático formal] na qual serei repreendido por ‘quão pouco diplomático’ sou”, declarou Bozell na plataforma de redes sociais X, segundo relatos da imprensa local.
O embaixador, que ocupa o cargo desde fevereiro, acrescentou ainda: “E depois o Governo sul-africano interroga-se sobre o porquê de as relações se estarem a deteriorar”.
O diplomata estava a responder às declarações feitas à imprensa local no passado fim de semana por Lamola, que deplorou a “conduta altamente indelicada” de Bozell III e defendeu a decisão do Governo sul-africano, tomada na semana passada, de o convocar pela segunda vez desde março.
“Não se pode ter um diplomata a dizer que o tempo para falar acabou. Falar é o nosso trabalho. Portanto, se não consegue falar como um diplomata e não consegue dialogar, então demita-se”, declarou o ministro sul-africano das Relações Internacionais e Cooperação, Ronald Lamola.
O ministro reiterou que, “enquanto diplomata, não pode interferir na política interna do país anfitrião”.
“Esta é a regra número um da diplomacia”, disse o governante da África do Sul, acrescentando que “com a sua postura e as suas intervenções públicas [Bozell III] está a interferir” nos assuntos da África do Sul.
“Neste momento, já lhe enviámos uma nota diplomática, expressámos o nosso descontentamento com a sua conduta e instamo-lo a abster-se deste comportamento indelicado”, acrescentou.
Um alto funcionário do Departamento de Relações Internacionais e Cooperação da África do Sul confirmou na semana passada que Pretória convocou Bozell III pela segunda vez, após a primeira convocatória em março.
Esta segunda convocatória ocorreu depois de o embaixador dos Estados Unidos ter publicado um artigo afirmando que “o governo sul-africano não deseja uma relação construtiva com os Estados Unidos”.
Defendeu ainda a recente decisão dos americanos de impor restrições de vistos aos sul-africanos responsáveis por “crimes de motivação racial patrocinados pelo governo” contra africânderes, grupo étnico da África do Sul descendente de colonos europeus, principalmente dos Países Baixos, da Alemanha e da França.
O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma ordem executiva em fevereiro de 2025 que cortou indefinidamente a ajuda à África do Sul.
Trump tomou esta medida depois de acusar Pretória de expropriar terras e violar os direitos humanos dos africânderes, referindo-se à polémica lei promulgada pelo governo sul-africano em 2025 que facilita a expropriação de terras para uso público.
Em maio de 2025, o governo dos EUA ofereceu o estatuto de refugiado à comunidade africânder, alegando que eram vítimas de discriminação e até de “genocídio”, acusações que Pretória nega veementemente.
Desde então, as tensões bilaterais continuaram a aumentar.