Em pleno pico dos protestos que enchem as ruas francesas e depois de a UE ter pedido uma resposta proporcional, o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, veio garantir esta quarta-feira que as forças da autoridade francesas “não receberam instruções para confrontar os estudantes, ao contrário do que alguns dizem”. E reafirmou o seu apoio às forças policiais, destacando o “contexto muito difícil” em que estão a atuar.

No discurso, feito a partir da residência oficial do primeiro-ministro, em Matignon, Lecornu defendeu que a missão dos polícias é “proteger a propriedade, mas acima de tudo as pessoas, fazer cumprir a lei e garantir o acesso às escolas”. “Eles devem agir de forma proporcional para atingir esse objetivo, muitas vezes num contexto muito difícil“, argumentou, acrescentando que não se pode “brincar com a segurança dos jovens”.

Numa tentativa de acalmar os ânimos, o primeiro-ministro também quis garantir que compreende as reivindicações dos estudantes, dizendo mesmo que é “responsabilidade do Governo restaurar a confiança” dos jovens no Estado. Segundo Lecornu, a plataforma de consulta aos cidadãos lançada ainda na terça-feira pelo Ministério da Educação já recebeu mais de 40 mil contributos, principalmente sobre a organização do horário escolar, mas também a garantia de aulas quando um professor faltar, a melhoria das condições dos edifícios escolares ou a melhoria da plataforma de acesso às universidades.

Assim, o Governo francês planeia tomar decisões neste sentido no final de outubro, e aproveitou para anunciar que o orçamento para a Educação será debatido na Assembleia Nacional (o parlamento francês) no dia 12 de novembro e que a proposta de orçamento para 2027 prevê um aumento do financiamento para a Educação de 1,2 mil milhões de euros (64 mil milhões no total).

Além disso, estão a decorrer sessões de diálogo nas escolas. “As sessões de diálogo iniciadas hoje [esta quarta] continuarão a partir de amanhã [quinta-feira], em cada escola secundária, até à próxima semana”, anunciou o primeiro-ministro.

Chefe da polícia nega declarações, ministro lamenta: “Ao aplicar a lei somos acusados de repressão”

Também esta quarta-feira, o chefe da polícia parisiense, Patrice Faure, negou ter feito comentários controversos sobre a repressão ao movimento estudantil que se espalharam pelo TikTok sendo atribuídos a Faure. Supostamente, o polícia teria ameaçado com “disparos indiscriminados” e “risco de ainda mais amputações”. Numa mensagem enviada à AFP, Faure negou “categoricamente” ter feito estas declarações. “Essa manipulação é inaceitável. Aqueles que criam esse tipo de conteúdo, assim como aqueles que o disseminam, serão responsabilizados”, disse, anunciando que vai processar os responsáveis.

A Comissão Europeia já tinha vindo pedir uma resposta proporcional aos protestos, sobretudo havendo menores envolvidos. Ao mesmo tempo, condenou os episódios de violência contra polícias, profissionais de educação e propriedade pública. “Quando adolescentes sofrem, durante protestos, lesões que mudam as suas vidas, isso é algo que nos deve preocupar a todos. As autoridades devem manter a ordem, mas a sua resposta deve ser proporcional, especialmente quando há menores envolvidos”, afirmou o comissário europeu maltês da Equidade Intergeracional, Juventude, Cultura e Desporto, Glenn Micallef, numa mensagem publicada nas redes sociais.

Depois de a Liga pelos Direitos Humanos francesa ter denunciado um “afastamento generalizado do Estado de Direito” durante as intervenções das forças policiais, esta quarta-feira o ministro do Interior, Laurent Nuñez, respondeu: “Assim que começamos a aplicar a lei na França, enfrentamos queixas e críticas, e somos acusados de repressão”. E veio negar que, como a imprensa francesa noticiou, o Presidente francês, Emmanuel Macron, tenha criticado as polícias em privado e pedido “empatia”.

No mesmo dia, o Governo francês convocou o embaixador do Irão para protestar contra “a campanha de desinformação realizada pelas autoridades iranianas em relação ao movimento estudantil do ensino médio na França”, anunciou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, Pascal Confavreux. “Essas provocações vergonhosas devem parar.” O Irão tinha considerado a resposta policial “desproporcional” e “injustificável”.

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