O ex-líder do PSD Rui Rio disse esta quarta-feira que Portugal está pior hoje do que há dez anos e que para reverter a situação são precisos líderes políticos mais “capazes”, de forma a dar resposta a três reformas urgentes, com destaque para o setor da Justiça. “Enquanto não formos capazes de ter no poder político as pessoas capazes, com a coragem necessária, com o desprendimento do poder necessário para poder arriscar, para fazerem as reformas que no imediato são altamente penalizadoras, (…) vamos estar em 2036 pior do que em 2026”, explicou o antigo autarca do Porto na conferência do 10.º aniversário do Jornal Económico.

“Aqueles que estão na direção do País têm de ter uma qualidade francamente superior à que têm e francamente superior à média da sociedade”, apontou Rui Rio, na Alfândega do Porto, com Luís Marques Mendes presente na assistência.

Questionado sobre a comparação com 2016, o economista não hesitou em dizer que Portugal “está pior”, assistindo-se a uma maior “radicalização de posições” na política e na “própria sociedade”. “A política, de certa forma, está-se a ‘futebolizar’. Toda aquela radicalização, toda aquela estupidez em torno do futebol em que não há capacidade para ver a posição do adversário, está em larga medida transferida também para a política.”

O lado mais visível da regressão de Portugal, de acordo com Rui Rio, é a área da Justiça. “A reforma da Justiça é absolutamente vital — seja a Administrativa, seja a Penal, seja a Justiça de modo geral. A Justiça hoje está pior do que estava em 1973”, disse, repetindo uma ideia que o próprio, um dos fundadores do Manifesto dos 50, já havia manifestado.

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“Alguém que tenha um problema qualquer com a Justiça e queira resolver, hoje está em pior situação do que estava há 50 e tal anos, não tenho dúvida nenhuma. Isto é uma vergonha. A maior falha do pós 25 de Abril é a Justiça, está na mesma”.

Apesar de o economista considerar que a reforma do sistema político é também urgente, admite que pode ser “praticamente impossível de conseguir”, uma vez que obrigaria os partidos políticos a alterarem o seu próprio funcionamento e a forma como são eleitos.

Por último, e sem excluir, além das reformas, eventuais “alterações importantes” noutras áreas, Rui Rio aponta à necessidade de reformar o Estado em duas vertentes: “na forma como o Estado é gerido”, com a racionalização e otimização da despesa pública; e na “forma como governamos o País”. “A forma como governamos o País entra naturalmente no patamar da descentralização e eu acho que deveríamos também debater e discutir a regionalização”, completou.

O antigo autarca entende que “este regime político” não está a ser “capaz de dar a resposta à sociedade” que se deveria traduzir nas reformas mencionadas. Acusa ainda os políticos de estarem mais preocupados “com a próxima sondagem” na hora de tomarem decisões. “Isto é o contrário do que o país precisa. O que o país precisa é que se pense (…) pelo menos a 10 anos”.

Além destes setores estruturais, Rui Rio aponta graves falhas nos serviços públicos, nos demorados e “caóticos” processos de licenciamento e na própria democracia. “Temos, claramente, uma democracia de grau mais baixo. (…) Formalmente somos uma democracia. Agora, do ponto de vista substantivo, somos uma democracia de grau mais baixo”, reclama.

“E na economia? O crescimento é fraco, a produtividade está baixíssima, há uma escassez de poupança, as assimetrias territoriais e sociais são cada vez maiores, temos um problema gravíssimo na habitação, temos uma despesa pública sempre em crescendo e temos uma qualidade de vida muito aquém daquilo que devíamos ter”, acrescentou.