As mesas de autores do FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos arrancaram com duas conversas protagonizadas por mulheres, que partiram do tema “identidade” para falar de abusos, de poderes, da ascensão da extrema-direita e das manifestações de protesto em Espanha e França.
“Não ajustámos contas com o passado, nem em Itália, nem na Alemanha, nem em Portugal”, afirmou a escritora italiana Michela Marzano, aludindo aos regimes fascistas que em diferentes períodos da história lideram estes países e em relação aos quais “falta refletir” numa altura em que “estamos a regredir em relação a algumas matérias”.
Para esta escritora, a falta desse ajuste de contas com o passado “é o que leva à ascensão da extrema-direita em tantos países”, entre os quais a sua terra natal, a Itália.
Já a argentina Gabriela Cabezón Câmara, com a qual conversou na primeira mesa de autores do FÓLIO, acha que no seu país “até certo ponto, foram ajustadas contas com o passado, houve condenações”. Mas, reconhece, “pode não ter sido suficiente”, questionando-se “até quanto é preciso recuar” para condenar ditadores ou responsáveis por extermínios.
Pela conversa em três línguas (português, espanhol e italiano), passaram temas como a identidade de género, os abusos, os conceitos de consentimento ou de “cedência forçada” das vítimas, numa partilha em que as duas autoras acabaram sempre por ir parar ao tema central do “poder”, versus “as periferias” quase sempre inferiorizadas.
Defensoras de que a literatura pode contribuir para a mudança de mentalidades, as duas escritoras elogiaram “as novas gerações que protestam em Espanha e em França”, numa alusão aplaudida pelo público do FÓLIO.
Anne Serre (França) e Ana Margarida Carvalho fecharam a programação do FÓLIO, numa mesa em que foram desafiadas a falar de “ficção”, mas, tal como na primeira mesa, acabaram a falar dos protestos e das guerras, em relação às quais preferem distanciar-se quando escrevem.
A Anne Serre, “esse realismo não interessa” como matéria para as obras que escreve, porque “o mundo pode desmoronar que eu continuo a escrever a mesma história”.
E Ana Margarida Carvalho prefere dedicar-se à ficção, e “deixar a poeira assentar”, dedicando-se às crónicas ao invés de escrever livros que espelhem a realidade, por “não perceber o que se está a passar, como chegámos a este retrocesso”.
Na sua 11.ª edição, que decorre até ao dia 18, sob o lema “Para além da pele”, o FÓLIO será palco de mais 13 mesas de autor, entre as quais a que contará, no sábado, com a participação do Prémio Nobel da Literatura 2023, o escritor e dramaturgo norueguês Jon Fosse.
O FÓLIO realiza-se desde 2015, ano em que a vila do distrito de Leiria passou a estar integrada na Rede de Cidades Criativas da UNESCO, como Cidade da Literatura.
Organizado pelo município de Óbidos e pela empresa municipal Óbidos Criativa, o festival tem como parceiros a Fundação INATEL e a Livraria Ler Devagar.