O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ordenou este domingo que as forças armadas, a agência de informação Shin Bet e o procurador-geral de Israel abram uma investigação, revelem as identidades e levem a tribunal os participantes no documentário NAZA, que relata o massacre em massa de civis em Gaza através de testemunhos, por “crimes graves contra a segurança de Israel”.

Segundo um comunicado publicado pelo gabinete de Netanyahu e entretanto divulgado na rede social X pela conta oficial do primeiro-ministro israelita, “o filme constrói uma narrativa falsa, enganosa e tendenciosa que difama o Estado de Israel e as IDF (Forças de Defesa de Israel) a nível mundial, e que prejudica gravemente a imagem de Israel”.

Por essa razão, Netanyahu exige que estas três instâncias “iniciem uma investigação exaustiva contra os participantes no filme NAZA e os levem a tribunal por crimes graves contra a segurança da informação, difamação criminal e prejuízo aos interesses políticos e de segurança de Israel”.

Apesar de tal não constar do tweet de Netanyahu, o jornal israelita Haaretz adianta que o primeiro-ministro escreveu no seu pedido que “existe a preocupação de que os envolvidos no filme difamatório tenham cometido crimes graves ao revelarem informações altamente confidenciais e ao criarem uma falha na segurança da informação de uma unidade de informações altamente sensível”.

Grande parte do documentário baseia-se em investigações realizadas desde 2023 pelo jornalista israelita Yuval Abraham, correalizador do filme, e publicadas tanto na revista israelo-palestiniana +972 como no jornal britânico The Guardian, que também produz NAZA, e tem por base testemunhos de 24 militares e oficiais dos serviços secretos israelitas. Esta obra deve o seu nome ao acrónimo utilizado pelos serviços de inteligência de Israel para estimar o número de civis (baixas colaterais) que poderiam morrer num ataque, por exemplo, ’20 NAZA’.

NAZA tem sido um filme muito incómodo para o governo de Netanyahu, especialmente por ter estreado poucas semanas antes das eleições legislativas de Israel, marcadas para 27 de outubro. Após a sua estreia a 10 de setembro no Festival Internacional de Cinema de Veneza — onde ganhou o prémio especial do júri após receber a mais longa ovação da história do evento —, vários ministros e figuras militares têm vindo a pedir represálias para Abraham e Rachel Szor, a outra correalizadora do filme.

“NAZA”: o documentário premiado e aclamado que está a enfurecer os israelitas e Netanyahu

Na sequência da estreia de NAZA em Veneza, o ministro da Cultura israelita, Miki Zohar, pediu ao Ministério do Interior do país para que considerasse a revogação da cidadania dos criadores do filme. Além disso, o The Guardian reporta que vários apoiantes do governo israelita prometeram perseguir os cineastas quando regressassem a Israel e fizeram um piquete à casa dos pais de Szor, em Savyon, enquanto gritavam “pena de morte aos traidores”.

Da parte das IDF também veio uma resposta muito dura. O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Eyal Zamir, ordenou, na sequência da estreia de NAZA, os oficiais militares e jurídicos que identificassem os soldados que aparecem no filme e analisassem a possibilidade de tomar medidas legais contra eles por participarem num filme que é um “ataque ao Estado de Israel” e que espalha “mentiras e libelos de sangue”.

O procurador-geral militar, Itai Ofir, no entanto, já veio admitir que poderão estar apenas medidas disciplinares em cima da mesa, já que um processo penal exigiria provas de violações de segurança ou da divulgação de material classificado.

Nas investigações realizadas pelos cineastas, várias fontes dos serviços secretos descrevem como Israel passou a autorizar, após 7 de outubro de 2023, a morte de dezenas de centenas de civis como “danos colaterais” em ataques contra altos responsáveis do Hamas.

O documentário descreve, por exemplo, a prática israelita de bombardear habitações palestinianas, com famílias inteiras no interior, assim que o pai — o suposto alvo por ser um alegado militante do Hamas — regressa a casa para dormir. Além disso, menciona também a utilização de modelos de inteligência artificial que preveem — com base nos padrões das chamadas telefónicas e com uma margem de erro de 15% — a probabilidade de um habitante de Gaza ser ou não um militante, criando assim uma lista de possíveis alvos.

Os militares descritos no filme, sob condição de anonimato devido às represálias que poderiam sofrer, afirmam igualmente que o Exército bombardeou zonas sob ordem de evacuação de Gaza, sabendo que ainda ali se encontrava população civil.

O Exército israelita, por seu lado, sustenta que as suas normas proíbem atacar deliberadamente civis e obrigam os comandantes a adotar medidas para reduzir os danos à população civil, argumentando ainda que as decisões finais sobre os ataques e a avaliação do risco de vítimas civis cabem aos oficiais.

No dia 2 de outubro, o The Guardian defendeu a investigação e afirmou ter consultado, ao longo de três anos, mais de cem fontes com conhecimento dos sistemas militares israelitas utilizados na guerra, incluindo altos comandantes envolvidos na autorização de ataques.

Na sequência deste pedido de abertura da investigação por parte de Netanyahu, o jornal britânico emitiu uma declaração através do seu porta-voz: “Depois de, inicialmente, ter ameaçado retirar a cidadania israelita aos administradores da NAZA, o governo israelita está agora a exigir uma investigação às suas fontes jornalísticas. Todas estas medidas constituem tentativas de desviar a atenção das questões urgentes que o filme levanta sobre os assassinatos em massa de civis palestinianos em Gaza. Os jornalistas devem ter liberdade para realizar investigações de interesse público sem ameaças nem assédio”.

*com Lusa

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