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“A intenção é matar. E até pode ser divertido. Cumprir missões é fixe. Peso na consciência? Não, porque não se falava sobre isso.” As declarações foram feitas por um antigo membro das Forças de Defesa de Israel (IDF). Durante uma madrugada, tendo como pano de fundo os céus e os arranha-céus de Telavive, este ex-militar — que manteve o anonimato — confessava ao jornalista Yuval Abraham como decorriam as operações militares israelitas na Faixa de Gaza. “Ninguém se importava” com a morte de civis ou vítimas colaterais.
Este é um dos 24 testemunhos (todos anónimos) de antigos membros das IDF presentes no documentário NAZA, realizado pelos jornalistas de investigação israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor, que se estreou em Portugal esta quinta-feira. O próprio título condensa uma gíria e um acrónimo militar: NAZA [Nezek Agavi, em hebraico] designa as vítimas colaterais de um ataque destinado a eliminar membros do Hamas em Gaza. Para matar um alto dirigente do grupo islâmico considerado terrorista pelo Ocidente, pode ser preciso matar cem ou quinhentos NAZAs, como se explica no filme.
A reação ao documentário tem sido bastante polarizada. No Festival Internacional de Cinema de Veneza, recebeu o Prémio Especial do Júri e uma ovação de pé que durou cerca de 25 minutos — a mais longa de sempre no evento. O filme está a ser aclamado pela crítica um pouco por todo o mundo. Porém, em Israel, o feedback tem sido demolidor. Praticamente toda a classe política israelita — incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, cujos discursos desde o ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023 são uma constante ao longo do filme — tem deixado duras críticas ao documentário. Na mesma linha, grande parte dos israelitas subscreveu a condenação.
“Traidores”: este é o termo que as vozes mais críticas estão a usar para classificar Yuval Abraham e Rachel Szor. Surfando a onda de indignação, Benjamin Netanyahu já ameaçou revogar a nacionalidade aos dois jornalistas e os ministros mais radicais pretendem inclusivamente banir a sua entrada no país. Numa entrevista ao Haaretz, os realizadores reconheceram que o público israelita “está muito irritado”, mesmo que muitos não tenham “visto o filme”. Até ao momento, nenhuma distribuidora ou cadeia de cinemas israelita aceitou exibi-lo comercialmente, ainda que estejam a ser planeadas exibições em determinados centros recreativos.
De qualquer forma, o filme — produzido pelo jornal britânico The Guardian e pela companhia independente norte-americana JW Films — será disponibilizado online gratuitamente em novembro, após estrear nas salas de cinema de todo o mundo um mês antes. Os realizadores não escondem o desejo de que o público israelita assista ao filme, apesar de todas as críticas. A revolta, referiu Rachel Szor, é motivada pelo facto de os israelitas “quererem evitar o que está efetivamente no filme”: os testemunhos violentos, os métodos controversos, os civis mortos e as acusações de genocídio na Faixa de Gaza.
Yuval Abraham e Rachel Szor já denunciavam abusos nas IDF. Mas NAZA gerou um impacto inédito
As revelações dos antigos membros das IDF que são transmitidas no documentário não são propriamente uma novidade. Enquanto jornalista, Yuval Abraham escreveu grandes reportagens sobre o assunto na revista +972, em que denunciava os métodos dos militares israelitas, assim como expunha a forma como a inteligência artificial era usada para matar civis na Faixa de Gaza.
▲ Graffitis em Telavive em protesto contra Yuval Abraham e Rachel Szor
Anadolu via Getty Images
O documentário acaba por sintetizar os trabalhos que o jornalista israelita já tinha feito desde 2023. “Acho que já escrevi, juntamente com o Guardian, cerca de 16 peças jornalísticas sobre as políticas do Exército em Gaza e a tecnologia utilizada pelos militares”, confirmou Yuval Abraham ao Haaretz, ressalvando, ainda assim, que no “texto escrito” é possível ser “muito específico” e dar um contexto mais completo — mais do que propriamente no filme.
Além disso, Yuval Abraham e Rachel Szor já fizeram documentários com um forte impacto político. Em 2024, a dupla lançou, juntamente com os palestinianos Basel Adra e Hamdan Ballal, No Other Land, que retrata a expansão dos colonatos israelitas na Cisjordânia. Em 2025, o filme recebeu inclusivamente o Óscar de Melhor Documentário, provavelmente o galardão mais importante da indústria cinematográfica nesta categoria. Embora na altura já tenha sido alvo de críticas bem duras por parte do Governo e da sociedade israelita, essas reações pouco se assemelham à revolta que gerou o NAZA.
Políticos a ameaçarem retirar-lhes a nacionalidade, graffitis com a inscrição traidores em muros de várias cidades israelitas e protestos à porta dos pais de Rachel Szor. O NAZA gerou uma forte indignação e raiva em Israel. “Não têm de concordar connosco em tudo, mas este é um filme cujo propósito é abrir uma discussão crítica em Israel sobre a política das Forças Armadas em Gaza”, responde Rachel Szor aos críticos.
▲ Yuval Abraham a receber o Óscar de Melhor Documentário na cerimónia de 2025 pelo No Other Land
AFP via Getty Images
Inicialmente mais afastado da indignação, o primeiro-ministro israelita juntou-se à campanha em curso contra o NAZA. “Estamos a combater a incitação ao ódio antissemita a nível global, mas quando vem de dentro, de entre nós, é simplesmente intolerável”, declarou Benjamin Netanyahu, lamentando: “Os dois realizadores israelitas retratam as Forças de Defesa de Israel como se fossem criminosos de guerra e são aplaudidos no Festival de Veneza”.
Mais recentemente, Benjamin Netanyahu comparou a publicação do documentário ao lançamento de “dezenas de mísseis balísticos” contra Israel. Publicamente, o primeiro-ministro tem sublinhado que a reputação do país na comunidade internacional está em risco, numa altura em que o Estado judaico está a ser alvo de crescentes boicotes nos meios culturais ocidentais. Um filme como NAZA pode fragilizar ainda mais a imagem externa do país e alcançar outros públicos mais alinhados com o estado do conflito.
Aliás, NAZA tem sido aclamado pela crítica ocidental: venceu cinco prémios no Festival de Veneza e já foi premiado no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, em Espanha. No Metacritic, agregador de críticas de filmes, o documentário tem uma classificação de 95 (em 100), o que significa que entra na categoria de “aclamado universalmente”. Noutra plataforma idêntica — a Rotten Tomatoes —, tem uma avaliação perfeita: 100%.
O documentário estrutura-se essencialmente em volta dos depoimentos dos ex-membros das IDF, alternando-os com imagens de arquivo e registos históricos. Consegue transmitir na perfeição uma dualidade impactante: a forma como uma cidade como Telavive — com os seus arranha-céus e vida cosmopolita — continua a funcionar normalmente, enquanto a apenas 60 quilómetros dali as tropas israelitas levam a cabo operações militares em Gaza.
Para os realizadores, a escolha da cidade — economicamente a mais importante de Israel — foi deliberada. “Há uma sensação de que Telavive é um centro liberal e que, por isso, é fácil de estar desconectado de tudo. Enquanto israelitas, habituámo-nos a estas imagens”, lamenta Rachel Szor. Os jornalistas sublinham que o documentário serve para lembrar a sociedade israelita da brutalidade do que se está a passar no enclave palestiniano, procurando enfrentar o público com o seu próprio alheamento em relação à realidade.
[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]
Esta mesma dualidade, que se reflete tanto na forma como no conteúdo, é um dos aspetos mais impactantes do documentário. Já na versão do Governo israelita, o filme extrapola a situação e apoia-se em testemunhos anónimos para atacar as instituições do país. Para o Executivo e para as Forças Armadas, o principal risco reside na abertura de um debate, dentro e fora de portas, sobre se certos limites éticos foram claramente ultrapassados — uma perspetiva que gera algum pânico na elite político-militar israelita. Os realizadores admitem que esse é um dos objetivos.
▲ Filme passa-se na noite de Telavive
Anadolu via Getty Images
“O departamento do Bibi”. Como os realizadores quiseram alertar Israel e o Ocidente
No documentário, outro tema que é explorado é o “departamento do Bibi”: um ramo das secretas que trabalha para o primeiro-ministro. No fundo, a função daquele órgão informal serve para garantir que a opinião pública internacional continua a apoiar — ou pelo menos a não censurar — as movimentações militares em Gaza e noutras regiões do Médio Oriente. Essa denúncia, reconheceu Yuval Abraham, incomoda profundamente Benjamin Netanyahu: “O filme é muito prejudicial para ele, para o Governo e para as Forças Armadas”.
Mesmo assim, o realizador nunca escondeu que o documentário tem também fins políticos. Gerar um debate em Israel é um deles. Externamente, o objetivo é idêntico: consciencializar as sociedades ocidentais para o que se passa em Gaza. Ao Haaretz, Yuval Abraham lembrou que o Presidente norte-americano “anunciou o envio de armas”, numa continuidade do que define como uma política de “apoio incondicional” a Israel, algo que tem sido uma constante durante a administração Trump.
“As pessoas que acreditam nos Direitos Humanos dos palestinianos e dos israelitas — e não creio que haja contradição nisso — não podem continuar a enviar armas desta forma, quando estas são utilizadas para violar o Direito Internacional. Estes debates e ações precisam de acontecer também nos Estados Unidos“, defendeu Yuval Abraham. Ou seja, o NAZA é assumidamente um documentário para agitar as águas e para, no melhor dos cenários, tentar condicionar o apoio militar a Israel.
E é certo que, nos Estados Unidos, surgem cada vez mais dúvidas sobre a continuidade do apoio militar a Israel. Embora os republicanos tradicionais e os democratas mais ao centro continuem uma aliança com Israel, a contestação tem ganhado terreno no Partido Democrata — sobretudo na ala mais à esquerda. Figuras como Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez e Zohran Mamdani têm alertado a base eleitoral para as contradições do apoio incondicional a Telavive. Em paralelo, mesmo no seio do movimento Make America Great Again (MAGA), a facção mais defensora do isolacionismo começa a demonstrar um ceticismo crescente.
Entre o eleitorado norte-americano, a aliança entre Benjamin Netanyahu e Donald Trump levanta algumas reservas. A alegada influência do primeiro-ministro israelita em convencer o Presidente norte-americano a começar uma guerra contra o Irão incomoda muitos eleitores. Tendo em conta este contexto, um documentário aclamado pela crítica tem o potencial de fragilizar ainda mais a reputação internacional de Israel nos Estados Unidos — algo que Benjamin Netanyahu quer evitar a todo o custo.
Os aplausos no Festival de Veneza foram a prova de que a crítica não deverá deixar de elogiar NAZA nos próximos tempos. Nos Estados Unidos, o documentário pode ser um forte candidato para vencer prémios em cerimónias como os Globos de Ouro e os Óscares (tal como aconteceu em 2025 com No Other Land), o que aumentará o interesse em torno de um documentário que coloca em causa o projeto político montado por Benjamin Netanyahu nos últimos anos.
▲ Objetivo do NAZA é também criar impacto nos EUA
Anadolu via Getty Images
As eleições e o cansaço de guerra. A tempestade perfeita que causou revolta antes do lançamento do NAZA
O documentário estreou no Festival de Veneza, a 10 de setembro, e venceu o Prémio Especial do Júri. Quando recebeu o galardão, na cidade italiana, Yuval Abraham declarou: “Acreditamos que a negação de um crime é o que ajuda a que ele persista. É especialmente importante para nós que os israelitas vejam este filme. É o nosso país que está a praticar estes crimes”.
Perante as câmaras de televisão, Yuval Abraham salientou ser “importante que os europeus vejam” o documentário, especialmente os italianos e os alemães: “Estes Governos estão a bloquear a pressão para que Israel termine isto”. E não esqueceu o público norte-americano: “Esse país está a financiar muitas das mortes”. Em Veneza, tal como já tinha feito noutras ocasiões, o realizador nunca escondeu que NAZA serve como uma arma cultural para que a comunidade internacional deixe de apoiar o esforço de guerra israelita.
Este discurso não caiu nada bem em Israel. Numa sociedade que enfrenta há três anos o peso de vários conflitos, muitos israelitas reagiram com raiva às palavras do jornalista. Aliás, no documentário explora-se precisamente a forma como ex-dirigentes militares e membros das secretas relativizavam a morte de civis em Gaza, sendo que muitos deles justificavam estas ações pela raiva que tomou conta dos israelitas após os ataques do Hamas de 7 de Outubro.
▲ Yuval Raphael a discursar no Festival de Veneza
Corbis via Getty Images
Em 2026, a raiva ainda não desapareceu, mas o país está numa encruzilhada: Israel controla informalmente Gaza, mas os Estados Unidos lideram o plano internacional de reconstrução do enclave e têm imposto limites claros às operações militares israelitas. O Líbano é um assunto delicado — e Donald Trump já impediu Benjamin Netanyahu de atacar o Hezbollah. O derrube do regime iraniano continua a ser o grande objetivo do Governo israelita, mas já se viu que será uma missão bastante difícil de concretizar.
Apesar de ter eliminado algumas ameaças, Israel continua rodeado de inimigos pertencentes ao Eixo de Resistência iraniano. O Hamas nunca desapareceu da Faixa de Gaza. O Hezbollah continua a controlar partes do Líbano. Os houthis prosseguem numa ofensiva contra a Arábia Saudita. O próprio regime iraniano resiste, ainda que Donald Trump continue com as ameaças de o “aniquilar”. Os sacrifícios que a população israelita fez ao longo dos últimos anos até deram alguns frutos; mas ficaram longe de cumprir muitas das promessas que o Executivo de Benjamin Netanyahu fez.
Neste estado que mistura cansaço pelo conflito, desalento e resignação, a maior parte dos israelitas continua a valorizar as IDF, vistas como um escudo contra os inimigos. Ora, as críticas feitas no documentário denunciam os exageros cometidos por Israel na Faixa de Gaza. E podem ser interpretadas como estando a colocar em questão os sacrifícios feitos ao longo destes três anos. Será que a ofensiva militar no enclave palestiniano valeu a pena e teve os efeitos desejados, apesar de tantas mortes? A pergunta parece simples, mas a resposta não é linear.
▲ Bandeira de Israel na Faixa de Gaza
ABIR SULTAN/EPA
“Nós — não diria que tínhamos esperança —, mas esperávamos que, pela primeira vez, houvesse uma discussão na sociedade israelita sobre tudo o que aconteceu e o que fizemos em Gaza”, admitiu Rachel Szor. Contudo, esse debate está longe de acontecer. Numa sociedade profundamente polarizada, a realizadora revelou que a onda de reações que se gerou “tomou um rumo muito violento” contra si e contra Yuval Abraham.
No entender do realizador, o elemento que mais o perturbou foram as declarações de Benjamin Netanyahu a comparar o documentário a mísseis balísticos apontados a Israel. “É incitação ao homicídio”, acusou Yuval Abraham. “Penso que há uma ligação direta entre esta incitação e aquilo que estamos a ver nas ruas: os graffiti com alvos desenhados sobre os nossos rostos e os cânticos em frente à casa dos pais da Rachel”, elaborou, desabafando: “É a sensação que temos há muito tempo de que neste país, nos últimos anos, não há qualquer adulto responsável”.
Para além disso, o documentário foi divulgado numa altura em que Israel se prepara para uma das eleições mais polarizadas dos últimos anos. Benjamin Netanyahu enfrenta um momento decisivo nas urnas e tem feito quase tudo para contrariar os maus números das sondagens. O bloco de direita — que junta o seu partido, Likud, a partidos ultraortodoxos e de extrema-direita — talvez não consiga obter maioria absoluta no Knesset. Neste cenário, o bloco centrista, liderado pelo antigo general das IDF Gadi Eisenkot, pode vencer as legislativas.
Num país já polarizado e com eleições em poucas semanas, NAZA poderia servir para prejudicar eleitoralmente Benjamin Netanyahu, expondo o seu “departamento” dentro das secretas e denunciando as consequências devastadoras da Faixa de Gaza. Sendo um político hábil, o primeiro-ministro israelita respondeu na mesma moeda e usou o documentário para mobilizar a sua base eleitoral.
Mesmo assim, nenhum político da oposição apoiou o lançamento deste documentário. Yuval Abraham queixou-se também do “silêncio da oposição israelita” — tanto na forma como não protegeram os jornalistas da vaga de críticas, como não aproveitaram para refletir sobre o que está a ser denunciado no documentário. Gadi Eisenkot, o homem que poderá ser o próximo primeiro-ministro de Israel e que foi antigo general das Forças de Defesa de Israel, condenou o filme, ainda que não tenha hostilizado diretamente os jornalistas.
“Os soldados e comandantes das IDF combatem há quase três anos numa guerra extraordinariamente difícil e justa contra um inimigo brutal que massacrou, violou e sequestrou crianças, mulheres e homens na manhã de 7 de outubro”, lembrou Gadi Eisenkot, frisando: “A decisão dos realizadores israelitas de subirem a um palco internacional, apresentarem uma imagem distorcida e unilateral e lançarem uma mancha moral sobre os soldados que protegem a nossa pátria representa uma cegueira moral e um golpe para o Estado de Israel num momento difícil”
▲ Realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor no Festival de Veneza após receberem Prémio Especial do Júri
Getty Images
“A crítica é legítima numa sociedade democrática”, disse Gadi Eisenkot, ressalvando: “Mas existe uma distância enorme entre criticar e difamar os nossos soldados para obter aplausos em festivais no estrangeiro”. O antigo primeiro-ministro, Naftali Bennett, teve uma reação parecida e sublinhou que a “guerra em Gaza e a morte de crianças é uma tragédia”: “Mas uma guerra terrível não é um genocídio. Mesmo agora, o Hamas não se arrepende do 7 de Outubro. Está a rearmar-se e a esperar por outra oportunidade para um novo massacre. As pessoas que estão entre nós e o próximo massacre são os nossos soldados e reservistas”.
É, portanto, consensual entre a classe política e grande parte da sociedade: as IDF continuam a ser uma instituição profundamente respeitada. Por mais falhas que possam ter existido na Faixa de Gaza, os líderes políticos entendem que criticar abertamente os militares é um ato irresponsável e contraria o que sentem os israelitas. NAZA faz precisamente essa crítica — e essa abordagem é rejeitada por uma população que ainda não sarou por completo as feridas do 7 de Outubro.
Ver um documentário a ser aplaudido no estrangeiro que critica diretamente as IDF, num país em que o serviço militar é obrigatório para os judeus seculares, incomodou significativamente os israelitas, ao ponto de a própria segurança de Yuval Abraham e Rachel Szor poder estar em risco. Os realizadores ainda não regressaram a Israel desde o dia 10 de setembro e admitem que os próximos tempos serão difíceis.
Ainda assim, os dois garantem que vão regressar ao país natal, a não ser que Benjamin Netanyahu e o Governo consigam mesmo avançar com a eventual medida de lhes retirar a nacionalidade, uma medida que desvalorizam e que não acreditam que se vai concretizar. Yuval Abraham está convicto de que regressará a Israel. “Vamos regressar e vamos continuar a lutar pelo futuro deste lugar. Não me vejo a desistir. E, pessoalmente, não quero ficar no exílio”, adiantou o jornalista ao Haaretz, recordando: “Somos jornalistas. Somos realizadores. Esta história é importante. A tempestade vai passar e vamos voltar e fazer outra coisa”.
Yuval Abraham também admite que o Governo, bem como os partidos que o suportam, estão a tentar colher dividendos “políticos” com a forma violenta como estão a reagir ao documentário. Mesmo tendo feito o filme para “gerar discussão pública sobre as ações do Governo em Gaza”, os realizadores decidiram que só o vão disponibilizar online após as eleições legislativas. A escolha da data foi deliberada: pretendem garantir que a forma como as operações militares foram conduzidas não caia no esquecimento, seja qual for o próximo primeiro-ministro.
A resposta das IDF e o possível processo judicial
Esta quinta-feira, as Forças de Defesa de Israel emitiram um longo esclarecimento em reação ao filme. Para quem assiste ao documentário, as IDF surgem retratadas como uma instituição sem qualquer consideração pela vida dos civis palestinianos. Perante estas acusações, as Forças Armadas denunciam “erros factuais substanciais” que resultam numa “representação distorcida e manipuladora” da realidade. “O filme apoia-se em testemunhos de indivíduos anónimos que descrevem experiências de uma etapa inicial e limitada de um processo que envolve muitas outras fases. O resultado é uma distorção da realidade incorreta e profundamente enganadora”, argumentam os militares.
▲ IDF rejeitaram críticas expostas no NAZA
Getty Images
Grande parte do descontentamento da classe política e militar israelita prende-se com o facto de o documentário assentar em 24 depoimentos, todos anónimos. Segundo o comunicado das IDF, esses relatos “centram-se em fases iniciais, ignorando o processo muito mais amplo de planeamento e aprovação de ataques — uma responsabilidade dos órgãos operacionais que gerem a seleção de alvos e não dos membros de serviços secretos das IDF”.
Os realizadores refutam estas acusações, garantindo a credibilidade de todas as fontes e respetivos relatos. “Tivemos acesso a muita informação específica que não está no filme, mas que nos serviu para verificar a veracidade de cada testemunho. Foi um desafio exigente — e é precisamente aí que reside uma das diferenças entre um documentário e um artigo escrito”, sustentou Yuval Abraham, destacando: “A perceção que recolhemos dos próprios soldados israelitas é a de que tudo é feito de forma extremamente calculada. O Exército sabe perfeitamente que está a bombardear famílias”.
Além disso, Yuval Abraham recorda as imagens da destruição da Faixa de Gaza — que aparecem no documentário e que falam “por si mesmas”. Em resposta, as IDF não desmentem que “as decisões que podem custar vidas civis estão entre as mais difíceis que soldados e comandantes enfrentam”. “Contudo, isso não é prova de que as decisões tenham sido ilegais ou indiferentes às vidas civis; reflete, sim, a seriedade com que foram tomadas.”
Outras das críticas que o documentário tem recebido são as associações que faz da destruição da Faixa de Gaza ao Holocausto, algo que gerou controvérsia em Israel. As IDF recusam totalmente a “impressão” que o filme cria de que as Forças Armadas “agem de maneira desumana”. Yuval Abraham entende que esta comparação é um “tópico sensível”, mas recorda como Benjamin Netanyahu tem evocado o que aconteceu durante a II Guerra Mundial para justificar as operações militares no Médio Oriente.
“Devemos aprender com as lições do Holocausto. Quando dizemos ‘nunca mais’, parte disso passa por entender os padrões de desumanização e a lógica de ser uma mera engrenagem num sistema — padrões esses que podem ser observados no presente”, expôs Yuval Abraham. A referência foi deliberada e choca: serve, metaforicamente, para demonstrar como num coletivo se perdem muitas vezes a razão e os limites. No entanto, para a maioria dos israelitas, esta comparação é incompreensível e inaceitável.
▲ Referências ao Holocausto foram propositadas, dizem realizadores
FABIO FRUSTACI/EPA
As IDF não ficarão pelas condenações e por comunicados. O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Eyal Zamir, ordenou, em meados de setembro, a criação de uma equipa multidisciplinar encarregada de “analisar as linhas de ação a adotar” e determinar como responder às “declarações falsas contra as IDF e os seus soldados”. Em cima da mesa, está um possível processo judicial para os “envolvidos” no documentário, devido à “disseminação de declarações falsas contra os soldados das IDF”, bem como as “possíveis implicações para a segurança pessoal e a segurança do Estado”.
Num país em que os conflitos desde 2023 são vistos quase consensualmente como justificados, Yuval Abraham e Rachel Szor vieram demonstrar que ainda há vozes contra eles dentro de Israel. “O jornalismo não é crime. A crítica não é traição. É dever de todos os cidadãos cujos Governos cometem crimes saber o que se passa e de todo o soldado que testemunhou esses atos contá-los”, defendeu o realizador. No entanto, muitos israelitas continuam sem esquecer o trauma do 7 de Outubro e recusam-se a enfrentar aquela que pode ser a realidade de parte de uma instituição militar à qual dedicam anos da sua vida.