Lavradores, criadores de gado e produtores de leite concentraram-se esta quarta-feira em Ovar em protesto contra a “falta de atuação” do Governo, que acusam de abandonar a agricultura e incentivar a importação de 70% da alimentação nacional.
É essa análise de Carlos Alves, que, enquanto presidente da União de Agricultores e Baldios do Distrito de Aveiro (UABDA), organizou a concentração e marcha de tratores para antecipar a entrega, esta tarde, na abertura da feira AgroVouga, de um documento com as reivindicações do setor ao secretário de Estado da Agricultura.
“É mais do mesmo e o mal de sempre”, disse o líder da UABDA à Lusa, ao comparar a motivação para o protesto desta iniciativa com a de idênticas iniciativas ao longo dos últimos anos. “Mas, a realidade é que este Governo dizia que a agricultura era um setor prioritário e afinal deixou-nos ao abandono, como fizeram outros antes, graças a décadas de políticas cujos maus resultados estão visíveis no terreno e tornam cada vez mais difícil que haja pessoas dispostas a trabalhar na agricultura”, justificou.
Carlos Alves apontou uma lista dos principais problemas do setor: o preço do gasóleo agrícola “aumentou 50% nos últimos seis meses”; o agricultor continua a ser mal pago pela produção e “ainda tem que competir com produtos da América Latina”, que não estão sujeitos ao mesmo controlo de qualidade; e falta “salário digno para o pequeno agricultor”, pelo que vem crescendo o número de famílias que abandonam a atividade agrícola e, face ao “défice de 70% na produção de alimentos”, a soberania alimentar nacional fica cada vez mais ameaçada.
“Os agricultores também vão às compras”, realçou Carlos Alves, referindo que, “portanto, não sofrem só com o aumento brutal do preço dos combustíveis: também têm mais gastos com os fertilizantes, com os fitofármacos, com as rações e com o custo de vida geral das suas explorações — e isto enquanto lhes pagam cada vez menos pelas suas produções”.
João Gomes, produtor de leite com 30 anos, e António Resende, criador de gado com 28, participaram na concentração e na marcha até Aveiro, e deram exemplos concretos do que gostariam de ver mudado, começando pela diminuição da burocracia associada ao setor.
“Pedem-nos tanta coisa, complicam tanto, que uma pessoa, mesmo tendo projetos, desiste de avançar com eles”, contou João Gomes.
Atendendo ao aumento constante do custo de vida, outra medida que seria bem acolhida pelos jovens agricultores é a fixação dos preços dos custos de produção: “O gasóleo agrícola, por exemplo, tem que ser mais barato, nem que seja o Governo a pagar a diferença”, propôs António.
Para esses jovens empresários, a introdução no mercado nacional de produtos importados que não estão sujeitos às mesmas normas — sejam elas sanitárias, fiscais ou outras — também devia ser proibida. “Não é bom para ninguém que os supermercados portugueses estejam a vender carne da América Latina que fica mais barata do que a nossa, porque os criadores de lá não estão sujeitos às mesmas exigências”, notou João.
“Claro que a qualidade não é a mesma — basta pensar que a carne deles anda em trânsito muito mais tempo o que a nossa — mas, na hora de comprar, mesmo as pessoas que percebem o que está em causa só olham ao preço e, da forma como isto está, não é de admirar”, admite António.
Lamentando que o assunto não esteja a ser tratado com políticas estratégicas que garantam ao país uma produção mínima, capaz de garantir à população portuguesa a sua autonomia alimentar face a outros estados, o presidente da UABDA avisou: “Temos que readaptar a forma como fazemos agricultura, adequando-a às características atuais do território, preservando o setor e desenvolvendo-o de forma equilibrada”.
Para Carlos Alves, é uma questão de senso comum que “qualquer cidadão percebe”, mas que parece escapar aos governantes atuais.
“Os produtos alimentares importados podiam bem ser produzidos por nós e para nós, aumentando o rendimento do agricultor, melhorando o preço cobrado ao consumidor e garantindo-lhe uma oferta com mais qualidade”, defendeu.
Como o tema “não está a ser encarado com seriedade” pelo Governo, a situação está “num ponto crítico” e a gerar “as condições para uma tempestade perfeita”. Se, em alternativa, o assunto fosse gerido com políticas inteligentes e “menos subservientes à União Europeia”, o país teria “capacidade para garantir toda a produção alimentar de que precisa e ainda gerar riqueza”, disse.