No meio de uma manifestação com milhares de pessoas apertadas entre as ruas de Paris, uma série de violinos, clarinetes, outros instrumentos e partituras. No centro, um jovem em posição mais elevada a mover energicamente os braços, conduzindo a música. Não é o cenário habitual numa manifestação, mas é isso que tem acontecido em França, onde a orquestra Nouveau Monde (“Novo Mundo”) ganha fama enquanto acompanha os protestos — mesmo que o concerto já tenha sido interrompido pelo lançamento de gás lacrimogéneo.

As imagens gravadas em vídeo mostram um contraste com o cenário de destruição que se tem registado em França: em vez de montras partidas ou caixotes incendiados, um grupo de centenas de músicos junta-se para tocar pacificamente A Marselhesa, hino de França, mas também canções revolucionárias e de protesto — ou então músicas bem conhecidas da saga da Guerra das Estrelas ou Piratas das Caraíbas.

Mas esta não é a primeira vez que o jovem maestro Étienne Jarrier, de 24 anos, saiu à rua para usar a música como protesto, tendo fundado a orquestra com 20 anos, em 2022. Jarrier tem formação em clarinete e conta com Nina Simone como grande ídolo e inspiração, na música e no ativismo.

Segundo o Le Monde, o grupo de músicos define-se como “antirracista, anticapitalista, feminista, ecológico e orientado para o decrescimento” e reúne profissionais e amadores para tocar em manifestações populares. Também já promoveu ações de protesto próprias, tocando canções de protesto em frente à sede do partido de Marine Le Pen, por exemplo.

A orquestra tem agora 200 elementos, embora receba músicos voluntários para se juntarem e, no passado sábado, o número já chegaria aos 400 músicos. Foi nesse dia, na Praça da República, em Paris, que os cerca de 400 músicos acabaram por desmobilizar ao serem atacados pela polícia com gás lacrimogéneo.

O mesmo jornal registou que o “silenciamento brutal” da orquestra, que estava a ensaiar e tinha aberto a sessão com a canção de resistência italiana Bella Ciao, provocou no sábado uma onda de indignação nas redes sociais.

“Às 12h20 foi disparada a primeira bomba de gás lacrimogéneo, que provavelmente não era para nós. Havia a ameaça de uma investida da polícia de intervenção, que avançou na nossa direção sem aviso prévio. Este concerto tinha sido confirmado, e eu tinha dado o meu número de telefone a um polícia para que uma evacuação pudesse ser planeada em caso de emergência – não é algo que se possa fazer em cinco minutos com uma orquestra”, contou ao Le Monde o responsável pelas relações públicas da orquestra, Étienne Cognet.

Ainda assim, a orquestra continua a garantir que se sente tão à vontade nas ruas como em palco. O seu outro principal objetivo, além de tocar em manifestações populares sobre causas que acompanha na rua, é sensibilizar a população para o gosto pela música clássica.

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