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Da princesa Leonor à empregada de café de Penafiel: por dentro dos colégios UWC, onde "o mérito vale mais do que a coroa"

De refugiados a portugueses na Arménia e no Essuatíni, a rede UWC junta princesas e bolseiros em 18 colégios pelo mundo, numa experiência onde "a condição financeira nunca deve ser um obstáculo".

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▲Os UWC são uma rede de 18 colégios internacionais distribuídos por quatro continentes e fundados com o objetivo de promover a paz e a sustentabilidade através da educação

Getty Images

▲Os UWC são uma rede de 18 colégios internacionais distribuídos por quatro continentes e fundados com o objetivo de promover a paz e a sustentabilidade através da educação

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A imagem de um castelo medieval do século XII situado no Vale de Glamorgan, na costa do País de Gales, com salões góticos e vista para o mar, onde princesas europeias dividem quarto e tratam de burros de estimação nos jardins, é o postal ilustrado mais conhecido dos United World Colleges (UWC). Mas para as centenas de jovens portugueses que já passaram por este programa, a vida nos colégios vai muito além deste conto de fadas.

“Mais do que os famosos, são as histórias que marcam“, afirmou ao Observador Mariana Arrobas, antiga aluna do UWC Atlantic e atual presidente da associação em Portugal, recordando o amigo Ghebre, que chegou ao País de Gales em 1991, vindo de um campo de refugiados da Eritreia. Recuperou o tempo perdido, “conseguiu o diploma IB [equivalente à conclusão do ensino secundário em Portugal] e formou-se em farmácia no Reino Unido, onde vive com a família”.

A diferença não está no luxo das instalações, mas na diversidade de quem partilha a mesma sala de aula. No mesmo colégio, há famílias reais que pagam mais de 83 mil euros pelos estudos dos filhos, jovens que chegam de campos de refugiados e estudantes portugueses selecionados pelo mérito e pelo envolvimento na comunidade. E a oportunidade não se limita ao castelo galês que o jornal britânico The Times chama de “Hogwarts para hippies“: através da candidatura feita em Portugal, os alunos podem concorrer a um dos 18 colégios da rede UWC espalhados por quatro continentes — de Singapura à Costa Rica, da Noruega à Tanzânia.

Por estas escolas passaram a princesa Leonor e a irmã, a infanta Sofia de Espanha, a princesa Alexia dos Países Baixos (seguindo as pisadas do pai, o Rei Willem-Alexander) e a princesa Elisabeth da Bélgica. Mas o mesmo programa que acolhe jovens da aristocracia também abriu portas a estudantes como Gilda, da Margem Sul, que sonhava ser médica, e Francisco, de Lisboa, que encontrou na Arménia uma nova forma de olhar para o mundo. Ambos conseguiram bolsas para concluir o secundário no estrangeiro. Desde 1969, quase 300 portugueses foram selecionados para esta experiência.

▲ UWC Atlantic College, no Reino Unido, e UWC Changshu, na China

Matthew Horwood / Getty Images

Da Margem Sul ao Essuatíni: a independência que Gilda descobriu longe de casa

Nascida e criada na Margem Sul do Tejo, no distrito de Setúbal, Gilda Mundja, de 18 anos, nunca tinha vivido fora de casa até embarcar rumo ao continente africano. Tinha o sonho de estudar no estrangeiro, mas desistiu no 9.º ano por achar que já não seria possível fazê-lo no secundário. No 11.º ano, descobriu os UWC durante uma palestra de divulgação na sua escola. Quando a mãe a incentivou a concorrer e recebeu a notícia de que foi selecionada para o Waterford Kamhlaba UWC of Southern Africa, com uma bolsa de 100% que cobre todas as despesas, a surpresa foi total: “Nem acreditava, achei que não era verdade”, contou ao Observador.

A viagem até ao Essuatíni (antiga Suazilândia) durou mais de 24 horas, com escalas no Dubai e na África do Sul. Ao chegar, relatou, encontrou um campus integrado numa reserva natural no topo de uma montanha, cercado por vegetação e “macacos que às vezes aparecem nas árvores”. O colégio acolhe cerca de 600 estudantes de dezenas de nacionalidades e é dos poucos da rede onde muitos alunos têm quartos individuais, um privilégio que Gilda valorizou durante a fase de adaptação.

“O que mais me assustou no início foi a língua”, admitiu. O ensino é inteiramente em inglês, uma dificuldade acrescida para quem nunca tinha estudado nessa língua. O dia escolar começa às oito da manhã e termina, em geral, às quatro da tarde. O curso é exigente, sobretudo pela quantidade de trabalhos, projetos e apresentações. “Eu não diria que é muito mais difícil que o curso de ciências em Portugal, mas nós temos muitos trabalhos para fazer”, explicou.

▲ Alunos do colégio Waterford Kamhlaba UWC of Southern Africa (Essuatíni) e do UWC Red Cross Nordic (Noruega)

UWC Portugal

A par das aulas, Gilda pratica boxe e tem aulas de canto. A experiência também lhe tem permitido ganhar confiança nos estudos. A portuguesa acredita que os professores e auxiliares do colégio a ajudam a rever disciplinas em que sentia mais dificuldades em Portugal, como a matemática, e a preparar-se para os exames. “Sinto-me muito mais confiante“, afirmou.

A independência é outra das mudanças que destacou. “Além de ser um curso que nos prepara para a faculdade, também nos ensina a sermos um pouco mais independentes”, disse. Longe da família e num ambiente multicultural, tem aprendido a gerir o dia a dia e a relacionar-se com pessoas de diferentes origens. “Sinto que é mais difícil ganhar essa independência em Portugal, onde a proximidade de casa e o acesso aos transportes públicos permitem aos estudantes ir e voltar diariamente”, notou ao Observador.

Nas férias intercalares deste primeiro ano letivo, viajou até à costa de Moçambique com um grupo de amigos, entre os quais moçambicanos e brasileiros. Aproveitaram para ir à praia, conhecer restaurantes e explorar a paisagem. A viagem foi também uma oportunidade para descobrir uma nova cultura e perceber até onde a experiência no UWC a pode levar. “Nunca achei que poderia fazer uma viagem assim tão cedo com amigos. Sinto que cresci emocionalmente muito rápido desde que cheguei aqui. De uma forma mesmo drástica”, confessou.

Com o sonho de seguir Medicina, Gilda admite que o futuro poderá passar por uma universidade fora de Portugal. Os alunos dos UWC podem candidatar-se a bolsas do programa Davis UWC Scholars, que apoia estudantes em 153 universidades norte-americanas. Embora reconheça que estudar Medicina nos Estados Unidos pode ser mais difícil para estudantes internacionais, não exclui essa possibilidade noutras áreas ou noutros países. “Se eu tiver a oportunidade, eu aceito“, concluiu. Regressar a Portugal também continua a ser uma opção, embora prefira, para já, manter os horizontes abertos.

Do futebol na Arménia ao estudo de Sebastião Salgado: os dois anos que mudaram Francisco

Francisco Cassiano, de 19 anos, cresceu em Lisboa e estudou no Colégio de São João de Brito antes de entrar no UWC Dilijan, na Arménia. A inspiração veio da irmã mais velha, que frequentou o UWC Maastricht. Francisco tinha 10 anos quando ela foi para os Países Baixos e, dois anos depois, já sabia que também se queria candidatar. “Nós candidatamo-nos ao movimento e, onde houver uma bolsa correspondente à capacidade financeira dos nossos pais, é para onde nós vamos”, explicou. Acabou por receber uma bolsa parcial e, apesar de preferir a Bósnia-Herzegovina, descreve a experiência na Arménia como “incrível“.

No colégio, que tinha cerca de 200 alunos, partilhou o quarto com colegas do Nepal e de Espanha, que o ajudaram a integrar-se. No segundo ano, foi o único português e acolheu uma nova aluna, brasileira, que mal falava inglês, ajudando-a na tradução e na adaptação. As escolas UWC também disponibilizam aulas extra de inglês a quem precisa.

Para além das aulas, Francisco aprendeu árabe durante um semestre, fez filmmaking e jogou na equipa de futebol do colégio, que competia na divisão amadora arménia. Integrou ainda o Comité de Sustentabilidade, que organizava iniciativas para reduzir o consumo de gás nas residências e o uso de plástico na cantina. Participou também no Model United Nations, uma simulação das Nações Unidas, em que representou Myanmar na comissão de refugiados e em fóruns organizados pelos alunos sobre conflitos armados e acesso à água.

Fora do colégio, a experiência foi igualmente marcante. Apesar de não falar arménio, Francisco recordou a hospitalidade da população local. “Era um povo um pouco sofrido, mas bastante acolhedor”, contou ao Observador, lembrando que, durante as viagens pelo país, chegou a receber ofertas de comida e bebida de desconhecidos: “Eu tinha cara de quem tinha 16 anos e ofereceram-me vodka, bolachas, tudo o que tinham para oferecer“.

As conversas com colegas de diferentes origens também o aproximaram de outras culturas, nomeadamente através de uma amiga do Bangladesh, com quem discutiu o Islão, e de um amigo nepalês, com quem falou sobre o hinduísmo. Chegou ainda a participar em danças tradicionais da Ilha Maurícia.

A diversidade estendia-se às aulas. No programa do IB, Francisco combinou Química avançada com História e Artes Visuais, disciplinas em que desenvolveu trabalhos de investigação sobre o impacto do samba no Brasil e comparou obras de artistas como Sebastião Salgado. A liberdade de escolha permitiu-lhe ter “autonomia académica, mas também dar muitas asas à curiosidade“, afirmou.

▲ UWC Mostar, na Bósnia e Herzegovina

UWC Portugal

Hoje, estuda Economia no ISEG, em Lisboa, mas admite querer voltar ao estrangeiro. Mais do que as aprendizagens académicas, destaca a forma como a experiência mudou a sua visão do mundo. “Acho que me tornei uma pessoa mais empática”, confessou. A convivência com colegas de diferentes países fez-lhe perceber que os acontecimentos internacionais têm rostos e histórias concretas: “Há muita gente que diz que o mundo é pequeno, mas o que aprendi é que o mundo não é pequeno, de todo. Quando vejo notícias sobre a revolução no Nepal, não é só uma coisa que está nas notícias: eu tenho um amigo mesmo no Nepal. Eu podia ter nascido lá”.

“O mérito vem primeiro”. Como funciona a seleção “às cegas” para a rede global

Para entender como é que estes jovens chegam a Singapura, à Costa Rica, à Arménia ou ao País de Gales, é preciso recuar ao processo de seleção em Lisboa. “O que nos distingue de qualquer outro colégio internacional é que a maioria dos alunos não está lá porque os pais escolheram a escola ou porque têm meios para a pagar”, afirmou ao Observador a presidente da associação em Portugal, Mariana Arrobas, sublinhando que “os lugares são atribuídos estritamente por mérito através de comités nacionais”.

Anualmente, a representação portuguesa (sediada no British Council, em Lisboa) recebe cerca de 100 candidaturas completas e elegíveis. Após uma avaliação rigorosa, é feita uma pré-seleção (a chamada shortlist) de aproximadamente 30 finalistas, dos quais resultam sete a oito alunos colocados por ano, distribuídos pelos vários colégios da rede internacional conforme o perfil dos candidatos e as vagas disponíveis.

Para garantir a máxima isenção, explicou Mariana, todo o processo de seleção é “às cegas”. Nas primeiras fases, as candidaturas são analisadas sem nomes ou dados pessoais e a equipa responsável por avaliar o mérito académico, a curiosidade e o envolvimento social dos candidatos não tem acesso a informações financeiras. Só depois de estar definida a ordem de mérito é que uma equipa financeira independente analisa os rendimentos das famílias para determinar o valor da bolsa a atribuir. “Esta é a base do processo, tal como aconteceu com as princesas Leonor e Sofia em Espanha. Aqui, o mérito acaba por ter mais valor do que a coroa”, esclareceu a presidente.

“Os UWC sempre procuraram dar oportunidades a refugiados, vítimas de conflitos e guerras que provam que a educação é um elevador social e que muitos jovens só precisam de uma oportunidade para poderem realizar o seu potencial e transformar o mundo ao seu redor”, acrescentou Mariana.

▲ Alunos da UWC Maastricht, nos Países Baixos

UWC Portugal

A nível global, mais de 80% dos alunos dos colégios UWC recebem apoio financeiro parcial ou integral. As bolsas cobrem propinas, alojamento, alimentação, livros, materiais escolares e até empréstimo de computadores, viagens de avião ou apoio na obtenção de passaportes e vistos, conforme a necessidade de cada aluno.

“Em certas situações, se existe necessidade para tal, o apoio financeiro pode incluir viagens de ida e volta uma vez por ano para as férias de verão. E depois para as férias de Natal, sugerimos que, dependendo do sítio, tentem ficar em casa de amigos locais ou ver se existem programas organizados pelo próprio colégio para os alunos não terem que fazer viagens tão compridas e tão dispendiosas num espaço de tempo relativamente curto”, sublinhou a também antiga aluna de um dos colégios.

Em 1991, Mariana Arrobas entrou no UWC Atlantic College, influenciada pelo irmão mais velho, que frequentou outro colégio do movimento em Itália. Procurava uma experiência internacional antes da universidade, mas foi um episódio passado em família que lhe mostrou o valor de conviver com outras perspetivas.

Num Natal, a família recebeu um estudante israelita e um jovem norte-americano. Ao ver a decoração natalícia portuguesa, o jovem de Israel estranhou o musgo verde no presépio. “Ele olhou para a nossa decoração e disse-nos que Belém não tem musgo nenhum, que é só areia. Fomos de imediato à praia buscar areia para fazer um presépio geograficamente realista. Foi nesse momento que percebi que a realidade vivida na pele é muito diferente do que se transmite através dos jornais ou da televisão“, recordou.

Para Mariana, hoje médica veterinária e presidente da Associação UWC Portugal, a verdadeira essência do movimento não está nos nomes da realeza ou da política — como a ex-vice-primeira-ministra do Canadá Chrystia Freeland, a primeira-ministra galesa Eluned Morgan ou o ex-ministro português João Gomes Cravinho —, mas na transformação profunda de vidas anónimas. Para além do caso do Ghebre, guarda com emoção a história de uma jovem de Penafiel que marcou o seu percurso no comité de seleção: “Aos 15 anos tinha desistido da escola para trabalhar num café porque achava que nunca ia conseguir realizar o sonho de ser médica. Depois, ouviu falar dos UWC através de um amigo que se candidatou e decidiu tentar a sua sorte. Conseguiu um lugar com bolsa completa para o [colégio] Adriático, estudou Medicina numa universidade em Itália e hoje em dia trabalha como neurologista em Portugal”.

O modelo Kurt Hahn e a expansão para quase duas dezenas de colégios pelo mundo

A origem dos UWC remonta a 1962 e à visão do pedagogo alemão Kurt Hahn. Tendo vivido o impacto de duas guerras mundiais, Hahn acreditava que a educação entre os 16 e os 18 anos era a ferramenta ideal para promover a paz: uma idade em que os jovens já estão enraizados na sua cultura, mas têm a abertura e o idealismo necessários para compreender o outro.

O castelo no País de Gales — comprado nos anos 1920 pelo magnata norte-americano Randolph Hearst e mais tarde doado pelo empresário Antonin Besse — foi o primeiro campus a abrir portas. Hoje, essa visão inicial de Hahn expandiu-se para 18 escolas em quatro continentes: três nas Américas, duas em África, sete na Europa e seis na Ásia. Todos os campus partilham a mesma missão, mas com cenários de aprendizagem distintos.

Infanta Sofia ruma ao País de Gales. Como é o castelo do século XII onde estuda a realeza?

Viver em qualquer um destes 18 colégios significa partilhar o dia a dia com colegas de mais de 90 nacionalidades e participar diariamente numa diplomacia informal. Mariana Arrobas, que durante seis anos integrou a governação internacional dos UWC, recorda a complexidade de gerir momentos de tensão geopolítica real: “Em 2022, tive reuniões difíceis para encontrar soluções entre o comité da Rússia e o da Ucrânia relativamente a candidatos da região do Donbass, ou para assegurar a integração e segurança de alunos arménios e turcos no colégio na Arménia durante o conflito de Nagorno-Karabakh”.

Para os estudantes, os acontecimentos internacionais deixam de ser conceitos abstratos nas notícias: “Quando há cheias no Nepal, bombardeamentos no Líbano ou incêndios na Grécia, os alunos percebem que estão a um WhatsApp de distância. As notícias ganham um rosto e uma relação pessoal”, referiu a antiga estudante do colégio galês.

“O meu conselho para qualquer jovem é que nunca deixe de se candidatar — o prazo termina a 30 de outubro — por achar que não tem recursos financeiros ou o perfil adequado”, conclui Mariana Arrobas. “Se têm curiosidade sobre o mundo e vontade de perceber porque é que as coisas acontecem, este é o sítio certo. A situação financeira da família nunca será o obstáculo“.

[Annie consegue estar presente nos últimos anos do pai, que não vai viver tempo suficiente para conhecer a sua sentença no julgamento do homicídio de Humberto Delgado. Entretanto, também ela vai ficar gravemente doente. Já pode ouvir o último episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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