O jogador de futebol Kylian Mbappé declarou-se esta terça-feira “sinceramente arrependido” e apresentou as suas “desculpas”, reconhecendo ter feito “comentários infelizes” sobre o antigo líder Mao Zedong, provocando uma forte reação na China e o cancelamento de contratos publicitários.

“Peço desculpa a todos aqueles que se sentiram ofendidos pelas minhas palavras. Essa não era, de forma alguma, a minha intenção. Tenho um profundo respeito pelo povo chinês e pela sua história e sinto-me sinceramente arrependido”, afirmou esta terça-feira o jogador do Real Madrid num comunicado.

“Numa entrevista recente, reagi a uma imagem minha que fazia parte de uma montagem. O comentário foi infeliz e esta terça-feira compreendo que este feriu muitas pessoas na China e na comunidade chinesa ao redor do mundo”, acrescentou Kylian Mbappé no comunicado.

O capitão da seleção francesa reagiu assim à circulação de um vídeo que se tornou viral, no qual se refere a Mao Zedong como um “ditador”.

Mbappé comentou, numa entrevista, os memes de que é alvo dizendo que “aquela com que mais me ri foi uma em que usam a minha cara num ditador chinês. Uso-a muito com os meus amigos”, afirmou o jogador, sem mencionar especificamente qualquer dirigente.

O futebolista parece referir-se a um meme que nos últimos meses se tornou popular nas redes sociais, uma montagem em que se sobrepõe o rosto do futebolista francês a um retrato de Mao Zedong, fundador da República Popular da China.

Desde então, três empresas que utilizavam o nome e a imagem da estrela francesa — as gigantes Dongpeng (bebidas) e Mengniu (laticínios), além da fabricante de queijos Milkground — anunciaram esta terça-feira, e em termos praticamente idênticos, a rutura imediata da sua parceria com Kylian Mbappé.

Nos últimos meses, anúncios protagonizados por Mbappé a promover as bebidas da marca Bu Shui La surgiram frequentemente em paragens de autocarro, veículos de transporte público e elevadores de cidades chinesas, sobretudo durante o Mundial de futebol de 2026.

As empresas defenderam a “tolerância zero” para atos e palavras “que firam os sentimentos nacionais”.

O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Guo Jiakun também reagiu à polémica advertindo que palavras e comportamentos que “firam os sentimentos do povo chinês serão rejeitados por todos os setores da sociedade“, numa conferência de imprensa regular.

Na China, as sátiras dirigidas a antigos líderes e figuras históricas associadas ao Partido Comunista Chinês (PCC) podem ser punidas ao abrigo da legislação que criminaliza a “difamação de heróis e mártires”, num contexto de forte censura de conteúdos políticos.

Segundo o portal estatal online The Paper, a estação pública chinesa CCTV decidiu suspender a transmissão de todos os jogos da LaLiga que envolvam Kylian Mbappé e remover todos os anúncios em que este apareça. A AFP não conseguiu confirmar esta informação de forma independente.

“Nós, na LaLiga, lamentamos profundamente as declarações de Kylian Mbappé que causaram mal-estar e ofensa na China. Compreendemos os danos causados e, em nome da LaLiga, quero expressar as nossas sinceras desculpas ao povo chinês”, declarou o dirigente da organização espanhola, Javier Tebas, nas redes sociais.

Tebas acrescentou que compreende e respeita “plenamente a sensibilidade” do povo chinês.

O responsável da organização espanhola defendeu que a LaLiga e a China construíram, “ao longo de muitos anos”, uma relação de “respeito, confiança e cooperação”, incluindo com “as suas instituições desportivas, os seus operadores audiovisuais e milhões de adeptos do futebol espanhol”.

“Não podemos permitir que uma atitude individual manche esta relação nem prejudique os mais de 20 clubes das nossas competições profissionais e milhões de adeptos chineses”, afirmou Tebas.

A LaLiga informou que está a “adotar medidas” e a “trabalhar diretamente” com os seus parceiros e interlocutores na China para “superar esta situação”.

“O nosso compromisso com a China, o seu povo e as suas instituições é firme. Uma relação construída ao longo de tantos anos não pode ser prejudicada por um episódio isolado”, referiu a organização.

A rescisão do contrato com Mbappé junta-se a uma série de controvérsias recentes envolvendo clubes do futebol espanhol na China.

Em setembro, órgãos de comunicação social oficiais chineses criticaram o Real Madrid após a publicação de uma mensagem nas redes sociais que mencionava conjuntamente o Nepal e a região chinesa do Tibete, na sequência de inundações.

A formulação foi considerada “incorreta” pela imprensa chinesa, por colocar os dois territórios no mesmo plano.

Em abril, o FC Barcelona pediu desculpa na China após a divulgação de uma imagem com a bandeira de Taiwan numa página gerida por terceiros e associada à sua academia internacional.

Em fevereiro deste ano, o Real Madrid divulgou na rede social Weibo um pedido de desculpas atribuído ao defesa Dean Huijsen, após o jogador ter republicado na sua conta de Instagram um conteúdo considerado racista e ofensivo para os cidadãos asiáticos.