O jogador de futebol Kylian Mbappé declarou-se esta terça-feira “sinceramente arrependido” e apresentou as suas “desculpas”, reconhecendo ter feito “comentários infelizes” sobre o antigo líder Mao Zedong, provocando uma forte reação na China e o cancelamento de contratos publicitários.
“Peço desculpa a todos aqueles que se sentiram ofendidos pelas minhas palavras. Essa não era, de forma alguma, a minha intenção. Tenho um profundo respeito pelo povo chinês e pela sua história e sinto-me sinceramente arrependido”, afirmou esta terça-feira o jogador do Real Madrid num comunicado.
— Kylian Mbappé (@KMbappe) October 27, 2026
“Numa entrevista recente, reagi a uma imagem minha que fazia parte de uma montagem. O comentário foi infeliz e esta terça-feira compreendo que este feriu muitas pessoas na China e na comunidade chinesa ao redor do mundo”, acrescentou Kylian Mbappé no comunicado.
O capitão da seleção francesa reagiu assim à circulação de um vídeo que se tornou viral, no qual se refere a Mao Zedong como um “ditador”.
Mbappé姆巴佩采访视频流出
我翻来覆去看了好多遍,也没看出来哪里有问题 pic.twitter.com/xjiP05HdAk
— 一桐 (@xue9500) October 27, 2026
Mbappé comentou, numa entrevista, os memes de que é alvo dizendo que “aquela com que mais me ri foi uma em que usam a minha cara num ditador chinês. Uso-a muito com os meus amigos”, afirmou o jogador, sem mencionar especificamente qualquer dirigente.
O futebolista parece referir-se a um meme que nos últimos meses se tornou popular nas redes sociais, uma montagem em que se sobrepõe o rosto do futebolista francês a um retrato de Mao Zedong, fundador da República Popular da China.
Desde então, três empresas que utilizavam o nome e a imagem da estrela francesa — as gigantes Dongpeng (bebidas) e Mengniu (laticínios), além da fabricante de queijos Milkground — anunciaram esta terça-feira, e em termos praticamente idênticos, a rutura imediata da sua parceria com Kylian Mbappé.
Nos últimos meses, anúncios protagonizados por Mbappé a promover as bebidas da marca Bu Shui La surgiram frequentemente em paragens de autocarro, veículos de transporte público e elevadores de cidades chinesas, sobretudo durante o Mundial de futebol de 2026.
As empresas defenderam a “tolerância zero” para atos e palavras “que firam os sentimentos nacionais”.
O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Guo Jiakun também reagiu à polémica advertindo que palavras e comportamentos que “firam os sentimentos do povo chinês serão rejeitados por todos os setores da sociedade“, numa conferência de imprensa regular.
Na China, as sátiras dirigidas a antigos líderes e figuras históricas associadas ao Partido Comunista Chinês (PCC) podem ser punidas ao abrigo da legislação que criminaliza a “difamação de heróis e mártires”, num contexto de forte censura de conteúdos políticos.
Segundo o portal estatal online The Paper, a estação pública chinesa CCTV decidiu suspender a transmissão de todos os jogos da LaLiga que envolvam Kylian Mbappé e remover todos os anúncios em que este apareça. A AFP não conseguiu confirmar esta informação de forma independente.
“Nós, na LaLiga, lamentamos profundamente as declarações de Kylian Mbappé que causaram mal-estar e ofensa na China. Compreendemos os danos causados e, em nome da LaLiga, quero expressar as nossas sinceras desculpas ao povo chinês”, declarou o dirigente da organização espanhola, Javier Tebas, nas redes sociais.
LALIGA lamenta profundamente la ofensa que los recientes comentarios de Kylian Mbappé han causado entre los aficionados chinos. Estos comentarios fueron realizados a título personal y no representan a LALIGA. En la medida de nuestra responsabilidad institucional, pedimos… pic.twitter.com/d433TZQ14h
— LALIGA Corporativo (@LaLigaCorp) October 27, 2026
Tebas acrescentou que compreende e respeita “plenamente a sensibilidade” do povo chinês.
O responsável da organização espanhola defendeu que a LaLiga e a China construíram, “ao longo de muitos anos”, uma relação de “respeito, confiança e cooperação”, incluindo com “as suas instituições desportivas, os seus operadores audiovisuais e milhões de adeptos do futebol espanhol”.
“Não podemos permitir que uma atitude individual manche esta relação nem prejudique os mais de 20 clubes das nossas competições profissionais e milhões de adeptos chineses”, afirmou Tebas.
A LaLiga informou que está a “adotar medidas” e a “trabalhar diretamente” com os seus parceiros e interlocutores na China para “superar esta situação”.
“O nosso compromisso com a China, o seu povo e as suas instituições é firme. Uma relação construída ao longo de tantos anos não pode ser prejudicada por um episódio isolado”, referiu a organização.
A rescisão do contrato com Mbappé junta-se a uma série de controvérsias recentes envolvendo clubes do futebol espanhol na China.
Em setembro, órgãos de comunicação social oficiais chineses criticaram o Real Madrid após a publicação de uma mensagem nas redes sociais que mencionava conjuntamente o Nepal e a região chinesa do Tibete, na sequência de inundações.
A formulação foi considerada “incorreta” pela imprensa chinesa, por colocar os dois territórios no mesmo plano.
Em abril, o FC Barcelona pediu desculpa na China após a divulgação de uma imagem com a bandeira de Taiwan numa página gerida por terceiros e associada à sua academia internacional.
Em fevereiro deste ano, o Real Madrid divulgou na rede social Weibo um pedido de desculpas atribuído ao defesa Dean Huijsen, após o jogador ter republicado na sua conta de Instagram um conteúdo considerado racista e ofensivo para os cidadãos asiáticos.