Um conjunto de cidadãos apresentou esta quarta-feira, em Lisboa, um manifesto contra a concessão das linhas suburbanas da CP a operadores privados, defendendo a manutenção de uma empresa pública ferroviária integrada, que inclua também a gestão da infraestrutura.

O manifesto foi apresentado esta tarde na Casa do Alentejo e surge na sequência da intenção do Governo de avançar com a concessão de linhas suburbanas da CP-Comboios de Portugal, nomeadamente as da Linha de Sintra e de Cascais, que os subscritores consideram rentáveis e importantes para o financiamento da restante operação ferroviária nacional.

“O que se passa objetivamente é que o próprio ministro (Habitação e Infraestruturas) falou recentemente na possibilidade de concessionar algumas linhas. Isto implica desmantelar e retirar da CP os serviços que são mais rentáveis”, afirmou à agência Lusa Humberto Costa, porta-voz do manifesto.

Em julho, o ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, afirmou que a subconcessão de linhas ferroviárias permitirá à CP colocar recursos em linhas que são menos lucrativas, apontando a apresentação das linhas para setembro.

Segundo disse ainda o ministro, as linhas de Cascais e de Sintra transportam, respetivamente, 40 e 99 milhões de passageiros por ano, mais de metade dos 208 milhões de passageiros anuais transportados pela CP.

Na ocasião, o ministro das Infraestruturas e da Habitação acrescentou que a Linha de Cascais, por ser segregada da restante rede ferroviária, está “na pole position para poder ser a primeira linha subconcessionada”.

O porta-voz do manifesto “CP Pública Una e Nacional” deu também como exemplo negativo a Fertagus, referindo que a concessionária privada, que assegura ligações ferroviárias na margem sul do Tejo, opera com comboios da CP, numa infraestrutura gerida pela Infraestruturas de Portugal (IP).

“O que o Estado está a fazer é a tornar pública a despesa e a entregar os lucros aos privados“, criticou, defendendo uma fusão entre a CP e a IP e uma gestão do serviço ferroviário que tenha como prioridade as necessidades dos passageiros e não a rentabilidade da operação.

No mesmo sentido, Catarina Cardoso, coordenadora da Comissão de Trabalhadores da CP e subscritora do manifesto, contestou a separação entre a operação ferroviária e a gestão da infraestrutura, considerando que a divisão torna o serviço “menos eficiente e mais dispendioso para o erário público”.

“À medida que vai sendo partida aos bocados vai funcionando cada vez pior. É um pior serviço e é mais custoso para o erário público”, afirmou.

A responsável sustentou que os trabalhadores ferroviários conhecem as necessidades técnicas e operacionais do setor e considerou que a fragmentação dificulta a articulação entre os diferentes serviços.

“Isto funciona melhor e de forma mais eficiente, do ponto de vista económico, segurança, sobre qualquer aspeto, quando está unificado”, defendeu.

A esse propósito, a sindicalista invocou o acidente ferroviário ocorrido esta quarta-feira na província espanhola de Toledo e o ocorrido em janeiro na localidade andaluza de Adamuz para sustentar a necessidade de existir uma integração da operação ferroviária e da infraestrutura.

“O presidente da Renfe [empresa ferroviária pública espanhola] disse na comissão de inquérito que não faz sentido, dada a especificidade técnica do transporte ferroviário, estar separada a operação da infraestrutura. Isto tem muito peso e, num dia como hoje, mais peso tem pelas piores razões”, apontou.

Pelo menos 68 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas na sequência de um acidente ferroviário em Espanha, ocorrido esta quarta-feira na estação de Urda, província de Toledo.

“Não é aceitável para um país como Espanha sofrer dois acidentes na alta velocidade no mesmo ano”, diz Sánchez

Um comboio da empresa privada Iryo, com 147 passageiros, foi abalroado, quando estava parado na via à entrada da estação de Urda, por um comboio de alta velocidade da Renfe, que transportava 378 passageiros.

A colisão entre os dois comboios de alta velocidade ocorreu pouco antes das 09:00 locais (menos uma hora em Lisboa).