A China está a mobilizar fundos de investimento ligados ao Estado para travar a queda dos mercados acionistas, depois de as ações de empresas tecnológicas terem sofrido fortes desvalorizações, segundo observadores.

O índice CSI 300, que reúne as principais empresas cotadas nas bolsas de Xangai e Shenzhen, acumula uma queda de cerca de 20% face ao máximo atingido em junho, entrando num mercado tecnicamente em baixa.

Desde o início do ano, o índice perdeu 10%, num contexto de abrandamento da economia chinesa e de expectativas cada vez menores quanto à adoção de novos estímulos orçamentais de grande dimensão.

A tendência negativa estendeu-se a Hong Kong, onde os investidores da China continental venderam ações no valor de 20 mil milhões de dólares de Hong Kong (2,3 mil milhões de euros) desde o início de outubro.

O território poderá registar a maior saída mensal de capitais provenientes da China continental desde julho de 2021.

O índice Hang Seng, da bolsa de Hong Kong, acumula perdas superiores a 12% este ano, enquanto o subíndice tecnológico caiu mais de 30%.

Perante as desvalorizações, Pequim terá mobilizado a chamada “equipa nacional”, um conjunto de fundos de investimento e corretoras ligados ao Estado, para adquirir ações e desencorajar os investidores de abandonar o mercado.

Analistas do banco Macquarie estimaram que as compras de fundos negociados em bolsa (ETF) realizadas na semana passada por entidades estatais terão sido as maiores desde o anúncio das tarifas comerciais do Presidente norte-americano, Donald Trump, em abril de 2025.

“As compras da equipa nacional visam estabelecer um limite de queda para o mercado”, escreveram os analistas, numa nota divulgada na terça-feira.

O banco de investimento norte-americano Goldman Sachs estimou que os fundos ligados ao Estado chinês tenham adquirido cerca de 170 mil milhões de yuan (quase 23 mil milhões de euros) em ETF durante outubro.

O Bank of America apresentou uma estimativa mais conservadora, apontando para compras superiores a 110 mil milhões de yuan (14,8 mil milhões de euros).

As intervenções contribuíram para uma valorização de 0,9% do índice CSI 300 na quarta-feira, mas analistas de vários bancos de investimento advertiram que as compras estatais poderão apenas estabilizar temporariamente os mercados, sem garantir uma recuperação sustentada.

Os analistas advertiram que uma recuperação sustentada das bolsas dependerá da retoma da procura interna, sobretudo quando a China deixar de poder contar com as exportações como principal motor do crescimento.

As empresas associadas ao desenvolvimento de equipamentos para inteligência artificial (IA) estão entre as mais penalizadas.

A CATL, maior fabricante mundial de baterias, perdeu 37% do valor das ações cotadas em Shenzhen desde o início do ano, enquanto a CXMT, maior fabricante chinês de memórias DRAM, recuou 20% no último mês.

As quedas ocorrem apesar dos esforços de Pequim para competir com os Estados Unidos no setor da IA, impulsionados pelo desenvolvimento de modelos de código aberto por empresas chinesas como a DeepSeek e a Moonshot.

O recuo dos mercados reflete também a deterioração das perspetivas económicas chinesas, num momento em que o consumo interno permanece fraco e o setor imobiliário continua mergulhado numa crise prolongada.

O investimento em ativos fixos caiu 7,2% em termos homólogos nos primeiros nove meses do ano, apesar do crescimento das exportações.

Em setembro, as autoridades chinesas anunciaram novos subsídios ao crédito à habitação, mas a dimensão das medidas foi considerada insuficiente por analistas face às dificuldades do setor imobiliário.

A pressão sobre as bolsas poderá estar também relacionada com o reforço da fiscalização das autoridades chinesas sobre patrimónios e fundos fiduciários detidos no estrangeiro.

Alguns analistas admitem que investidores mais abastados estejam a vender ações para obter liquidez e fazer face a obrigações fiscais, particularmente em Hong Kong.