A temporada só acaba a 6 de dezembro, daqui a mais de um mês, e depois deste fim de semana o Mundial ainda passa por Brasil, EUA, Qatar e Abu Dhabi. A larga maioria das decisões, porém, podia ficar fechada já este domingo e tudo dependia de Kimi Antonelli: no México, no Autódromo Hermanos Rodríguez, o jovem italiano da Mercedes não vacilou e sagrou-se campeão mundial de Fórmula 1 pela primeira vez.

As decisões deste domingo, porém, começaram no domingo passado. No primeiro match point que teve, nos EUA, Kimi Antonelli não carimbou desde logo a conquista do Campeonato porque George Russell e Lewis Hamilton não contribuíram, mas ganhou de forma absolutamente dominante e passou a dominar por completo a matemática para o México. Afinal, este fim de semana, era mesmo preciso acontecer um desastre para o italiano da Mercedes não suceder a Lando Norris como campeão do mundo.

As contas eram simples: Kimi Antonelli só precisava de dois pontos para conquistar desde já o Campeonato do Mundo, ou seja, só precisava de ficar em qualquer uma das primeiras nove posições para festejar, independentemente do resultado de George Russell e Lewis Hamilton. Para além disso, o piloto da Mercedes podia celebrar até se ficasse em 10.º ou 11.º, mas desde que Russell ou Hamilton não vencessem no México. Tudo somado e baralhado e a enorme probabilidade, naturalmente, era mesmo que Kimi Antonelli fosse campeão mundial já este domingo.

Na qualificação, porém, Lewis Hamilton foi mais forte. O britânico da Ferrari ficou com a pole-position, algo que não acontecia há mais de três anos e quando ainda estava na Mercedes, seguido de George Russell e Charles Leclerc, com Kimi Antonelli a arrancar em quarto. A corrida ficava ainda marcada pela estreia do japonês Ryo Hirakawa na Haas, depois de Esteban Ocon ter sido afastado na sequência de graves divergências com a equipa nas duas sessões de treinos livres, mas a narrativa do possível triunfo do jovem italiano dominava todas as conversas.

“Tenho estado um bocadinho mais tenso do que o normal, sem dúvida. Principalmente porque ouço a mesma coisa em qualquer sítio e a qualquer hora do dia. As pessoas dizem-me que já está feito. Conhecendo-me, sei que tenho estado a tentar bloquear esse ruído todo, mas não tem sido fácil”, disse o piloto, que nos últimos dias esteve doente, com febres altas e problemas de estômago. “Ainda não recuperei completamente. Não é uma desculpa, mas sei que não tenho estado no meu melhor. Arrancar bem vai ser importante. A primeira curva é sempre difícil, mas acho que se arrancarmos bem temos uma boa hipótese de subir. Vou tentar desligar o mais possível, dormir bem e preparar-me”, acrescentou.

Assim, na Cidade do México, o arranque foi acidentado: Lewis Hamilton e Charles Leclerc tocaram-se, o britânico saiu pior do duelo e caiu para terceiro, enquanto que o monegasco ficou na liderança e Max Verstappen aproveitou para se intrometer entre os dois. Mais atrás, Kimi Antonelli manteve o quarto lugar, enquanto que George Russell foi o principal prejudicado da primeira volta e aterrou em quinto. Leclerc acabou por ser penalizado em cinco segundos, enquanto que Russell, que bateu em Isack Hadjar nos primeiros metros, foi penalizado em 10 segundos.

Mesmo com a penalização, Hamilton não ficou nada agradado com a dimensão do castigo de Leclerc e vincou isso mesmo via rádio, recordando algo que terá ficado acordado numa reunião com os dois pilotos da Ferrari. O monegasco parou e cumpriu a penalização na volta 28, regressando à pista em sexto, com o britânico a assumir brevemente a liderança da corrida antes de ele próprio também parar, voltando atrás do colega de equipa.

Com todos os principais rivais a pararem à sua volta — incluindo Russell, que cumpriu a penalização e caiu para oitavo –, Kimi Antonelli foi-se mantendo em pista e acabou por ir parar ao primeiro lugar, com a Mercedes a apostar claramente na conquista de alguma vantagem em estrada para que o italiano não reentrasse demasiado atrás. O jovem piloto só parou na volta 44, caindo para quarto, mas com uma vantagem muito confortável para Lando Norris, algo que lhe permitia correr numa espécie de “terra de ninguém” e ir controlando as ocorrências.

Logo a seguir, porém, tudo isso foi por água abaixo. Valteri Bottas saiu a direito quando a suspensão do pneu dianteiro esquerdo partiu e não conseguiu deixar o carro de imediato, tendo de ser assistido pela equipa médica ainda em pista, e o safety-car inicial deu mesmo lugar à bandeira vermelha, ou seja, à interrupção da corrida. O finlandês da Cadillac não demorou muito mais a deixar o monolugar pelo próprio pé, algo que descansou as bancadas na Cidade do México, e todo o pitlane preparou-se para um recomeço parado, na grelha de partida, como se nada tivesse acontecido: mas, agora, com Verstappen na pole-position, seguido de Leclerc, Antonelli e Hamilton.

A corrida esteve parada mais de 45 minutos, devido à necessidade de reparar as barreiras onde Valteri Bottas bateu, e recomeçou com 24 voltas por cumprir. Verstappen fez um reinício competente e segurou a liderança, muito à boleia de um pequeno toque em Hamilton que estragou o brutal arranque do britânico, e Leclerc não conseguiu resguardar o terceiro lugar durante muito tempo, acabando por ceder na sequência de um mergulho de Antonelli.

O safety-car entrou em ação depois de Arvid Lindblad ficar de fora na sequência de um acidente com Oscar Piastri, mas nada mudou no recomeço lançado — nem até ao fim. Max Verstappen venceu o Grande Prémio do México à frente de Lewis Hamilton, enquanto que Kimi Antonelli fechou o pódio no terceiro lugar e à frente de Charles Leclerc, mais do que suficiente para se sagrar campeão mundial pela primeira vez e na segunda temporada na Fórmula 1. 

É o campeão mundial mais jovem de sempre, com 20 anos e 68 dias, superando os 23 anos e 134 dias que Sebastian Vettel tinha quando foi campeão com a Red Bull em 2010. É o primeiro italiano a ser campeão mundial em 73 anos, já que não acontecia desde Alberto Ascari em 1953, e é também o primeiro italiano a ser campeão mundial numa equipa que não é italiana. Quanto à Mercedes, volta a ganhar a classificação de pilotos depois de um jejum de cinco anos, entre o tetra de Max Verstappen e o título de Lando Norris, chegando aos 10 troféus na história, apenas atrás da Ferrari (15) e da McLaren (13).