E, de repente, Jorge Jesus era o porta-voz da Seleção Nacional. Depois de Cristiano Ronaldo abandonar o estágio e tendo em conta que os jogadores iriam obviamente responder a todas as perguntas de forma circular e longe da pressão de uma conferência de imprensa, o selecionador nacional surgia como o principal veículo de comunicação da Federação Portuguesa de Futebol. 

Nesse sentido, pareciam existir duas possibilidades assim que Jorge Jesus se sentasse na cadeira da sala de imprensa do Parken de Copenhaga: ou pedia desculpa, procurando amenizar a situação com Cristiano Ronaldo abrindo até a porta a um possível regresso para uma despedida por outra porta, ou mantinha a ideia de que está perfeitamente confortável com todas as atitudes que assumiu. Pelo meio, essas duas possibilidades pareciam estar diretamente associadas ao cenário de vitória e ao cenário de não vitória. E Portugal ganhou.

Gonçalo e a prova de que as equipas não ficam órfãs (a crónica do Dinamarca-Portugal)

Portugal ganhou e ganhou bem, marcando três golos em Copenhaga e respondendo diretamente ao empate que a Dinamarca alcançou por duas vezes. Assim, já depois de ainda antes do apito inicial ter apontado explicações adicionais para o pós-jogo com a Noruega no próximo domingo no Dragão, Jorge Jesus optou pela hipótese b): manter a ideia de que está perfeitamente confortável com todas as atitudes que assumiu. 

Ainda na zona de entrevistas rápidas, à RTP, o selecionador nacional desvalorizou o impacto de todo o burburinho dos últimos dias. “Até ao jogo que vem a seguir no Dragão tenho de estar focado no jogo. Depois, logo se vê o resto… Difícil de me focar? Difícil era se não soubesse o que se passa ali dentro. Tenho de me focar é em treinar nos jogadores. O importante é ganhar! É a vida de um treinador. A defesa de um treinador, sabe qual é, esqueça todos os nomes… Chama-se vitória”, atirou.

Pouco depois, já na sala de imprensa, acabou por dar uma conferência curta, respondendo rapidamente a uma pergunta de cada jornalista português e a outras duas da imprensa internacional — com o assessor da Federação Portuguesa de Futebol a recordá-lo constantemente de que só podia mesmo responder a uma questão por jornalista e não devia entrar em conversação direta.

Menos um milhão de seguidores, os contratos até 2030 e a internacionalização: que impacto tem a saída (a mal) de Ronaldo da Seleção

Logo na primeira pergunta, foi questionado sobre se se arrependia de ter dito, ainda esta quarta-feira e antes de Cristiano Ronaldo deixar a Dinamarca, que alguns jogadores têm um estatuto diferente. “Não, zero. Há jogadores com estatuto, mas as regras são iguais para todos. Sempre pensei assim ao longo da minha carreira e vou continuar a pensar”, garantiu.

Sobre o jogo propriamente dito, a terceira vitória consecutiva que deixa o apuramento para os quartos de final da Liga das Nações praticamente garantido, Jorge Jesus defendeu que “a equipa acredita coletivamente no que faz”. “Para mim este foi o melhor jogo até agora, o que é normal porque já tivemos mais tempo para trabalhar. Consegui trabalhar o ataque posicional. O golo do Gonçalo Ramos é um grande golo de ataque posicional e o do Félix também. Toda a gente sabe que temos de estar melhor nos cinco momentos de jogo. Foi uma grande vitória e marcámos grandes golos”, disse, indicando depois que a exibição não foi “uma mensagem”.

“A equipa passou uma mensagem de qualidade. Uma equipa que arrisca a defender, se repararem o avançado pressiona dentro da área. É uma equipa que aceita o risco, acredita nessa ideia e tem muita qualidade”, acrescentou, garantindo depois que não ouviu os assobios de alguns adeptos à saída do hotel. “Não ouvi assobios de adeptos portugueses… Mas o importante, até numa vitória, é respeitar os adeptos que fizeram muitos quilómetros. Eu fui um treinador emigrante nos últimos anos e de facto quando estás no estrangeiro sentes-te mais português. Por isso tenho muito respeito por esse sentimento”, afirmou.

Mais à frente, sobre o facto de ter ido diretamente ter com os adeptos, garantiu que não fez nada diferente do habitual. “Se vocês olharem para o que fiz nas outras equipas é igual. No Al Nassr até bombo tocava… Com o Cris. Mas acho que todos estão contentes por Portugal apresentar um jogo com grande maturidade e ideias de risco. Na vida de treinador só há um dado que nos garante, que é a vitória”, concluiu, assegurando ainda que “não sabe” se tem o país com ele, mas que “gostava de que estivesse”.

Ora, para além de Jorge Jesus, também alguns jogadores foram surgindo na zona de entrevistas rápidas e na zona mista — com um discurso claramente preparado que pretendia fugir às perguntas sobre Cristiano Ronaldo, tal como confirmado por Renato Veiga, que acabou por cometer mesmo a inconfidência de revelar que lhe pediram para não responder a questões sobre o capitão e ainda soltou um “não me deixam” entre sorrisos.

Gonçalo Ramos garantiu que toda a polémica “não influenciou”, Francisco Trincão reconheceu que “é sempre difícil”, mas disse não querer “falar da situação” por “respeito por toda a gente” e Nuno Mendes assegurou que a equipa “sempre remou para o mesmo lado”, atirando o foco para o próximo jogo. Rafael Leão, porém, alongou-se mais um pouco. 

“É um assunto que não nos diz respeito. Demonstrámos que somos um grupo, de certeza que ele está contente em casa pela vitória. Dou-me bem com ele, sei como ele é. O mais importante é a equipa. Mais três pontos, líderes do grupo. Agora é descansar e preparar o jogo de segunda-feira. Isso é uma situação que não nos diz respeito. O mais importante é o grupo e reagir como grupo”, atirou o avançado do Galatasaray, que também comentou o facto de ter ficado com a camisola 7 na ausência de Cristiano Ronaldo.

“Já tive casos com muitos jogadores. Com o Cris, não existe”: as explicações de Jorge Jesus após a “novela” com Ronaldo

“O Cris para mim é um ídolo, um ídolo de infância. O número 7 para mim tem um significado especial, foi a data do nascimento dos meus filhos. Simplesmente, tentei honrar a camisola e desfrutar, com os meus companheiros. Acho que o mais importante foi termos feito um bom jogo e ganho”, vincou. Já Vitinha, que também defendeu que o grupo procurou “manter-se à margem” do que tem acontecido, atribuiu o mérito da vitória ao trabalho de Jorge Jesus.

“Pelo trabalho do mister. A verdade é que fizemos um excelente jogo, não há como esconder. É muito difícil ganhar aqui. Tivemos essa lição no ano passado ou há dois anos. Perdemos e foi muito difícil. Não se deixem enganar pelo resultado. Além do resultado, foi a exibição. Foi a melhor que tivemos até agora. Temos vindo a crescer nestes três jogos. Quanto mais tempo tivermos com o mister, mais vamos assimilando as ideias, tendo mais dinâmicas. Defensivamente, temos estado sempre fortes e capazes. Temos um passo em frente na parte ofensiva. Espero que assim continuemos. Foi uma vitória muito difícil. É preciso dizer isso, é difícil jogar aqui. Além da vitória, foi uma exibição excelente”, explicou.

“Como disse, o trabalho do mister começa a surtir efeito. Já se vê, hoje já foi demasiado claro. Felizmente, está a correr bem e é assim que queremos continuar. Agora, é dizer a toda a gente para encher o Dragão, para fazer quatro em quatro, o que seria perfeito”, terminou.