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ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

2024, o ano mais quente de sempre. Portugal representou 25% da área ardida na Europa

Continua a observar-se uma tendência crescente das temperaturas na Europa e no mundo, com uma maior incidência de eventos meteorológicos extremos, como tempestades e cheias.

Depois de 2023 ter sucedido a 2020 como o ano mais quente de sempre, chega a vez de 2024: tornou-se o ano mais quente de sempre na Europa. A região centro, sul e sudeste do continente foram as mais afetadas atingindo temperaturas médias recorde, enquanto no sudoeste, na Península Ibérica, se sentiram menos noites tropicais e menos dias de “calor extremo”. Quanto a Portugal, a maior preocupação foram os incêndios, que queimaram cerca de 110 mil hectares no espaço de uma semana — um quarto de toda a área ardida na Europa no ano passado, de acordo com o relatório anual sobre o clima do observatório europeu Copernicus.

“Este relatório sublinha que a Europa é o continente que regista o aquecimento mais rápido e que está a sofrer graves impactos das condições meteorológicas extremas e das alterações climáticas”, afirma Celeste Saulo, a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), em comunicado. Os resultados foram exatamente os esperados também pelo climatologista Carlos da Câmara que, em declarações ao Observador, explica que se deve à conjunção de dois fatores: a variabilidade climática associada ao El Niño e as alterações climáticas.

O fenómeno meteorológico El Niño ocorre cerca de duas vezes por década, não é periódico, mas sim uma “vacilação” — sabe-se vagamente quando irá surgir, mas não de que forma se irá manifestar. Assim, nestes anos em que se verifica esta interação específica entre os oceanos e a atmosfera, existe uma tendência para haver um aquecimento dos oceanos e secas em várias regiões do mundo. 2023, o ano mais quente antes de 2024, foi um ano El Niño. Os restantes são anos La Niña, em que se verifica um ligeiro arrefecimento e as condições acabam por não ser tão extremas, ou então neutros e não há alterações das médias.

Conjugadas com esta variabilidade, surgem as alterações climáticas, que se expressam principalmente com o aumento sucessivo das temperaturas dos oceanos. De acordo com o relatório do Copernicus, o Atlântico teve, nos últimos dois anos, um aumento de 0,7 ºC acima do normal, enquanto que no Mediterrâneo se verificaram mais 1,2 ºC. Ao mesmo tempo, e de uma forma geral, todos os territórios europeus sofreram uma perda de gelo em 2024. Os glaciares na Escandinávia registaram as maiores taxas de perda de massa de sempre, e tem tudo a ver com o aquecimento dos oceanos. Como explica o climatólogo, “a água tem uma capacidade brutal de armazenar calor sem aumentar muito a sua temperatura. Portanto este aumento registado pelo oceano é uma loucura de energia que foi armazenada que se pode libertar”. Mas como é que se liberta? Através de tempestades como a DANA, que inundou Valência e matou mais de 200 pessoas em outubro passado, ou como a Boris que afetou milhares no centro e leste europeu.

A energia renovável representou 45% de toda a energia produzida na Europa, um novo recorde. Com o aumento da intensidade dos ventos e das chuvas, juntamente com o aumento do investimento na capacidade eólica e das barragens, os Estados europeus conseguiram alcançar níveis nunca antes atingidos de produtividade nesta indústria, dependendo cada vez menos da energia fóssil.

Além dos extremos em termos de temperatura, a Europa também registou a maior quantidade de cheias desde 2013 — quase um terço (30%) da rede fluvial do continente registou inundações, onde cerca de 12% representam cheias “severas”. A Europa ocidental teve um dos dez anos com maiores níveis de precipitação de sempre, registados principalmente em França e na região norte de Espanha, ao contrário do leste, onde as condições foram “mais secas do que a média”. Assim, 2024 foi um ano de grande contraste entre este e oeste. Enquanto um lado apresenta temperaturas recorde e secura acima da média, o outro regista também um aumento das temperaturas, mas com níveis de precipitação intensa.

Segundo Carlos da Câmara, a responsabilidade é também atribuída ao efeito de estufa, o armazenamento de energia na atmosfera pelo aumento das emissões de dióxido de carbono. “O CO2 tem uma propriedade engraçada: é transparente à radiação visível, mas é opaco para a radiação infravermelha [para o calor]”, ou seja, retém o calor e, “para que o globo possa exportar a mesma quantidade de energia que recebe, tem de aumentar a temperatura, de modo a garantir que compensa a energia que fica retida”. Assim, com uma maior retenção desta energia na atmosfera, tal como nos oceanos, leva à intensificação de tempestades e do ciclo da água, provocando precipitações mais fortes e desigualmente distribuídas.

Mas este fenómeno de contraste não é novo, é algo que se tem verificado consistentemente ao longo dos anos. Contudo, devido à intensificação destes fatores climatéricos, “vai haver cada vez mais uma tendência para maiores contrastes e um maior estímulo para condições extremas”. Uma evidência tem sido a diferença entre o observado nas simulações meteorológicas, “mais suaves” do que tem vindo realmente a acontecer com ondas de calor e precipitação. Isto revela que, provavelmente, ainda não estão a ser “convenientemente simulados” alguns “aspetos termodinâmicos” e, por isso, “as coisas estão a ir mais rápido do que os modelos simulam”.

Como o efeito El Niño já terminou e, em princípio, não deverá regressar este ano, é possível que 2025 não seja o terceiro ano consecutivo a receber o título de “ano mais quente de sempre”. Porém, dada a tendência que se tem verificado, “se não for em 2025, será 2026 ou 2027”, acredita Carlos da Câmara.

Temperaturas acima da média, mas menos noites tropicais e menor sensação de calor “extremo”: o retrato da Península Ibérica

Os recordes de temperatura ficaram no centro, no sul e no sudeste europeu, mas ainda assim as temperaturas em Portugal e Espanha estiveram acima da média durante o ano de 2024. O primeiro destaque e menção específica à Península Ibérica surge no contexto das noites tropicais — as noites com uma temperatura constante à volta dos 20 ºC — e o facto de terem existido menos ao longo do ano, juntamente com os dias de “calor extremo”, com sensação térmica superior a 46 ºC.

Ainda assim, não estando relacionada com a temperatura à superfície, a DANA é referenciada como uma das grandes tragédias na Europa. Valência recebeu a pior inundação do ano, resultando em custos de mais de 16 mil milhões de euros para o governo espanhol. Em comparação, todas as tempestades e inundações sentidas em solo europeu amealharam um prejuízo total de 18 mil milhões de euros — e só 16 foram a DANA. Isto vai de acordo com os números apresentados no relatório do Copernicus, que dão 2024 como um dos 10 anos mais chuvosos no sul da Europa, tendo como principal alvo França, Alemanha, e claro, Espanha.

▲ Mapa de temperaturas médias (esquerda) e mapa de precipitação média na Europa (direita)

Copernicus Climate Change Service

Portugal escapou às chuvas intensas, apesar de também ter registado algumas cheias preocupantes, mas em menor escala. As temperaturas foram acima da média, mas nunca bateram níveis recorde e foram também menos extremas. No entanto, Portugal não escapou a uma menção direta no estudo. Em setembro, incêndios em Portugal queimaram cerca de 110.000 hectares no espaço de uma semana, representando cerca de um quarto de toda a área ardida na Europa. Apesar de ser sempre apontada a responsabilidade à ação humana, Carlos da Câmara acredita que as alterações climáticas também influenciaram a intensidade das chamas. “Estava tudo muitíssimo mais quente e muito mais seco”, afirma o climatologista, ao salientar que este fator, em conjunto com o hábito de se deitar fogo aos pastos para prepará-los para o outono, encadearam uma série de eventos com ainda maior gravidade.

Estes incêndios deram também uma grande contribuição no aumento das emissões de carbono para a atmosfera, que outrora se encontrava em níveis abaixo da média. Também este terá sido um fator para o aumento de 1,5 ºC da temperatura média global e que, de acordo com os especialistas, atinge o “patamar crítico” e pode-se traduzir em “eventos meteorológicos extremos” e na morte de cerca de 30 mil pessoas devido ao calor. A verdade é que este dado, apresentado no relatório, não é tão simples como parece, explica o climatologista ouvido pelo Observador. “O valor é crítico apenas se for registado como uma média de 30 anos”, ou seja, se ao fim de 30 anos a média da variação de temperatura for superior ao grau e meio, ao contrário destes valores que se verificaram de um ano para o outro. Neste caso, foi verificado um aumento de 1,47 ºC acima da média para o período de referência de 1991-2020.

Não obstante, este “patamar crítico” continua a ser uma meta extremamente preocupante, porque vai aumentar significativamente a probabilidade da ocorrência dos tais “eventos meteorológicos extremos”.

Com isto em conta, Carlos da Câmara e os especialistas envolvidos na redação do relatório sublinham a importância da adoção de medidas políticas para mitigar e combater o efeito das alterações climáticas. De acordo com Florence Rabier, o diretor-geral do Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo, 51% das cidades europeias têm um plano dedicado à adaptação climática, enquanto que a produção de energias renováveis continua a ser uma maior aposta dos governos.

Prova disso foi o facto de a energia renovável representar 45% de toda a energia produzida na Europa, um novo recorde. Com o aumento da intensidade dos ventos e das chuvas, juntamente com o aumento do investimento na capacidade eólica e das barragens, os Estados europeus conseguiram alcançar níveis nunca antes atingidos de produtividade nesta indústria, dependendo cada vez menos da energia fóssil. Mesmo considerando que foi um “ano escuro” para a Europa, com menos luz do que 2023, 2024 foi ano em que se produziu mais energia através de painéis solares.

Tendo isto como exemplo, o climatologista reforça a necessidade de implementação destas medidas a longo prazo, mesmo que não se observem resultados “de um ano para o outro”. A expectativa é que devem começar a manifestar-se nas “próximas décadas”, se continuarem a subir os níveis de produção destas iniciativas. Mas para isto acontecer, é preciso que sejam adotadas noutras partes do mundo. Nota, também, que a Europa não é uma das principais regiões que alimenta as alterações climáticas, ao contrário dos Estados Unidos da América, da China e da Índia. Assim, o objetivo deve ser também exportar estas medidas para estas regiões do mundo, de modo a garantir uma maior eficácia global e uma maior mitigação geral dos efeitos nocivos.

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