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IGOR MARTINS / OBSERVADOR

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A despedida de Rúben Neves, as palavras de Manuel Linda e a emoção nas ruas de Gondomar no funeral de Diogo Jota e André Silva

Rúben Neves, jogador do Al-Hilal, fez um voo entre continentes para levar o caixão do amigo, numa cerimónia que contou com as palavras do bispo do Porto e a homenagem da equipa do Liverpool.

As ruas por onde caminharam lado a lado, na infância, encheram-se para o funeral de Diogo Jota e André Silva. As barreiras de segurança da Polícia de Segurança Pública e o calor não foram suficientes para impedir a presença de centenas de pessoas nas ruas, cemitério, varandas e muros nas redondezas da Igreja Matriz de Gondomar.

Menos de nove horas depois de terem saído as últimas pessoas da Capela da Ressurreição, que recebeu o velório dos dois irmãos, as artérias adjacentes ao espaço central da Paróquia de São Cosme voltavam a ser palco das cerimónias fúnebres.

Entre abundantes coroas de flores a imitar o equipamento do Liverpool e muitos aplausos, a principal homenagem dedicada, especialmente, a Diogo Jota foi imaterial e teve o nome de Rúben Neves. O médio quis, na sexta-feira, participar nos quartos de final do Mundial de Clubes, num jogo que arrancou com o produto da formação do FC Porto lavado em lágrimas, assim como João Cancelo.

▲ Jogadores do Liverpool levam 'coroas' de flores com o formato de equipamentos

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Mal terminou o encontro, pelas 17h locais (22h em Portugal), a dupla portuguesa entrou num avião fretado para fazer uma viagem de oito horas entre Orlando e o Porto, tendo chegado a Portugal já pela manhã. Em pouco tempo, deslocaram-se a Gondomar, onde os populares tentaram confortar a dor dos dois com a maior salva de palmas da manhã.

Em lágrimas, Rúben Neves ainda carregou duas vezes o caixão do amigo: da capela para a igreja e da igreja para o cemitério, onde Jota e André foram sepultados no jazigo da família onde já está a avó materna — ao final da manhã as dezenas de coroa de flores dadas aos irmãos repousavam no cemitério à espera de uma organização do espaço que permitisse acomodar tantas doações. Em cima da campa já estavam as flores em forma de equipamento oferecidas pelo Liverpool, uma faixa do Gondomar e vária velas.

▲ Equipa do Penafiel, onde jogava André Silva, homenageia irmãos

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Rúben Neves e o longo voo entre continentes para poder homenagear o amigo Jota

“Não é fácil porque o Rúben Neves é amigo íntimo do Jota. Estava muito perturbado ontem no hotel. A família telefonou-lhe a meio da noite. Não conseguiu dormir.” Foi assim que o médio recebeu a notícia da morte de um amigo de longa data, segundo o relato feito por Bono, colega do português no Al-Hilal.

Primeiro, as imagens de Rúben e Cancelo a chorar desconsoladamente no minuto de silêncio correram mundo. Depois, os próprios correram meio mundo para estar no funeral do colega de seleção.

Se Cancelo e Jota nunca se cruzaram nos clubes, apenas por Portugal, o início da ligação entre Diogo e Rúben remonta à época 2016/17, quando jogaram pela primeira juntos, no FC Porto de Nuno Espírito Santo. As proveniências não podiam ser mais diferentes: Jota fez a formação longe dos holofotes dos grandes clubes, primeiro no Gondomar e depois no Paços de Ferreira (chegando ao Porto por empréstimo do Atlético de Madrid que o contratou aos pacenses). Já Rúben Neves era a coqueluche dos portistas, tendo feito toda a formação de azul e branco ao peito.

▲ Rúben Neves

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“Vamos continuar a rir, a fazer planos, a partilhar a nossa vida um com o outro. Vou fazer questão que estejas sempre presente e vou garantir que nunca falte nada aos teus enquanto estás aí, longe mas a pensar em nós, à nossa espera. A vida juntou-nos e agora não nos pode separar. Conquistamos coisas muito bonitas juntos, temos ainda muito por conquistar, eu sei que vamos conseguir”, escreveu Rúben Neves nas redes sociais na mensagem emotiva de despedida a Diogo Jota.

Depois do Porto, seguiram os dois pela mão de Nuno Espírito Santo (que também esteve no funeral) para o Wolverhampton, onde coincidiram três temporadas até o avançado dar o salto para o Liverpool.

“Bicho, onde quer que estejas eu sei que vais ler isto, nós nunca fomos destas lamechices e talvez agora me arrependa um pouco, mas tu sabes o que significas para mim tanto como eu sei o que sou para ti. Mais do que uma amizade, somos família, e não o vamos deixar de ser só porque agora decidiste assinar um contrato um bocadinho mais longe de nós ! Quando for à seleção vais continuar ao meu lado na mesa de jantar, no autocarro, no avião .. vais estar sempre lá comigo, como de costume”, concluiu.

A emoção esteve patente na cara de Rúben Neves desde o momento em que entrou nas imediações da igreja até que regressou ao carro. Pelo meio, ficarão na memória as imagens em que surge a transportar o caixão do amigo — ao lado da viúva Rute Cardoso — depois de uma eliminação do Mundial de Clubes e um voo de oito horas que demonstra bem a força da relação entre os dois.

Já depois do funeral, a passagem do amigo de Diogo Jota interrompe a conversa entre um jogador da formação do Paços de Ferreira e o Observador. “Nem quero imaginar o que está a sentir”, desabafa Rodrigo antes de acenar para Rúben Neves, que devolve um acenar de cabeça de quem reconhece o carinho das pessoas numa fase complicada.

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Manuel Linda dedica homilia aos filhos de Diogo Jota e Rute: “Se é triste ver um adulto chorar, muito mais custa quando se trata de uma criança”

Ao contrário do velório de sábado, o funeral deste domingo foi vivido de forma privada entre aqueles que mais sentiram a perda de Diogo Jota e André Silva, os familiares e os amigos. Enquanto as pessoas se iam aglomerando nos locais possíveis para assistir à cerimónia, continuavam a chegar jogadores de todo o mundo. Além dos muitos futebolistas que já tinham marcado presença no velório de sexta-feira, o funeral contou com a presença de Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto.

Às 9h30 era muito difícil olhar à volta e encontrar um ponto sem pessoas que tentavam tirar partido da altura de alguns muros para terem uma visão privilegiada para a chegada dos ex-colegas de Diogo Jota e André Silva, que foram sempre muito aplaudidos pelos presentes.

Já com a presença dos plantéis de Penafiel e Liverpool, onde jogavam os dois irmãos, deu-se início, pelas 10h, ao cortejo fúnebre em direção à Igreja Matriz de Gondomar. O trajeto era musicado pelo repicar dos sinos, o choro e o aplauso das pessoas.

A curta espera à porta da igreja permitiu aos populares que estavam atrás das barreiras de segurança, a várias dezenas de metros de distância, ver os dois caixões, enquanto já se ouvia Bach através dos altifalantes na fachada do edifício medieval reconstruído no Séc. XVII.

Foi pelo mesmo meio que não só os populares, mas também os amigos que não tiveram lugar numa igreja a abarrotar, conseguiram ouvir as leituras e a homilia de Manuel Linda, bispo do Porto, que dedicou toda a atenção aos “queridos Dinis, Duarte e Mafalda”, filhos de Diogo Jota com Rute Cardoso.

▲ Toni e João Vieira Pinto; Bruno Fernandes; comitiva com jogadores do Penafiel; Rúben Dias

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“Queridos Dinis, Duarte e Mafalda, vós não sabeis quem sou e eu também não vos conheço pessoalmente. Mas sei que, neste momento, sofreis imensamente. Ou talvez não, porque nem vos dais conta da tragédia que se abateu sobre a vossa família. Vireis a tomar consciência mais tarde. E vai ser terrível. Mas eu vou rezar muito a Jesus por vós. Quem sofre imenso é a vossa mãe, a D. Rute. Ela tem o coração partido. Igualmente, os vossos avós, a D. Isabel e o senhor Joaquim e demais membros da vossa família. Ver à sua frente uma urna com os restos mortais de um filho deve ser o tormento máximo. Mas quando não é apenas uma urna e são duas, de dois irmãos… não há palavras”, disse.

O bispo prosseguiu a elogiar a postura dedicada dos dois irmãos que “subiram na vida pelo esforço”. “Não olharam a sacrifícios para atingirem os seus objetivos. O vosso tio André, por exemplo, conciliou os treinos com uma Licenciatura em Gestão. Foram pessoas abnegadas. Mas respeitando sempre o semelhante. Quer um quer o outro se podem classificar como pessoas discretas e tranquilas fora do campo, dedicadas aos outros e com grande capacidade de trabalho. Por isso, pessoas extraordinárias, sérias e responsáveis. E de fé, como já tinha dito”, acrescentou o bispo.

“Queridos Dinis, Duarte e Mafalda, falei-vos a vós porque, se é triste ver um adulto chorar, muito mais custa quando se trata de uma criança e quando o motivo é este”, rematou.

▲ Darwin Núñez regressa à igreja, onde já tinha estado no dia anterior

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A procura por um espaço para ver o funeral e o sonho de seguir os passos de Jota

Enquanto voltava a soar Bach na cerimónia, Matilde olhava de uma das dezenas de varandas repletas de pessoas para o movimento nas imediações da igreja. “Somos grandes apreciadores de futebol e víamos muito o Diogo Jota”, elogia, reforçando a humildade “dentro e fora de campo”, enquanto a mãe tenta acompanhar pelos auriculares o que se passa na igreja.

Ao lado, no espaço com ampla vista para o cemitério que receberia Jota e André, estava também Miguel, que apesar de ser benfiquista vincou que neste momento “não há rivalidade no futebol”. “Viemos todos aqui para o mesmo. É muito comovente”, conta o matosinhense que já esperava “ver tanta gente” no funeral. As palavras de desolação são tiradas a papel químico da homilia de Manuel Linda: “Não consigo imaginar a dor dos pais. Perder um filho é mau, mas perder dois é devastador”.

Sem tirar os olhos da igreja, de onde começam a sair os caixões, identifica o último golo pela seleção e o hat-trick contra a Atalanta na Liga dos Campeões como os momentos mais marcantes da carreira de Jota, uma estrela “que não se dava ao protagonismo”. Entre a saída da igreja e a chegada ao cemitério ainda se ouvem dois foguetes. Num enterro recatado e longe dos olhares do público.

▲ Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto

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De camisola da seleção vestida, Rodrigo não disfarça a emoção ao falar de uma referência cujos passos tem seguido escrupulosamente: tal como Jota, também começou no Gondomar e está agora no Paços de Ferreira. “Venha o Atlético de Madrid”, brinca o defesa de apenas 17 anos.

O fã do camisola 20 recorda outra paixão do jogador, os jogos virtuais: “Estou aqui também por um primo meu que jogava na academia de FIFA dele”. E não hesita em nomear o momento que mais o marcou no funeral: “Quando os jogadores do Liverpool fizeram a homenagem”.

Para seguir as pisadas de Jota, sabe que tem de “dar muito” pelas cores que veste e manter a “humildade”, à imagem dos gondomarenses “muito amados” de quem se despede com saudade.

▲ Rui Patrício; Ricardo e André Horta; Jorge Mendes; Thiago Alcântara e Fabinho (ex-jogadores do Liverpool)

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Cristiano Ronaldo não esteve no funeral

Se na noite de sábado alguns jornalistas começaram a cogitar a possibilidade de Cristiano Ronaldo ainda aparecer no velório, o que não se verificou, muitos davam como adquirido que o capitão da Seleção Nacional e estrela global do futebol estivesse no funeral, o que não aconteceu.

Rapidamente começaram a surgir teorias com a imprensa inglesa e a espanhola a mostrarem argumentos pouco abonatórios para o craque: diz o Daily Mail, que cita um jornal de Mallorca, que Cristiano Ronaldo estava de férias na ilha espanhola a bordo do seu iate de mais de seis milhões de euros, com vídeos a mostrar o jogador do Al-Hilal a nadar no mar.

“A ausência do capitão da Seleção Nacional nas exéquias fúnebres dos dois irmãos (...) explica-se por uma questão íntima, resultante do trauma emocional vivido aquando da morte do pai", lê-se na notícia publicada no Record

Se Cristiano Ronaldo, que publicou uma mensagem sobre a morte de Jota nas redes sociais, não reagiu, depois de terem surgido estes rumores o Record avançou  os motivos para esta ausência. “A ausência do capitão da Seleção Nacional nas exéquias fúnebres dos dois irmãos, que se tornou notada por ser muito aguardada até a nível internacional, explica-se por uma questão íntima, resultante do trauma emocional vivido aquando da morte do pai, José Diniz Aveiro, em setembro de 2005″, lê-se no texto sem assinatura e sem fontes citadas publicado também no Correio da Manhã — dois jornais do grupo Medialivre, grupo do qual Cristiano Ronaldo é um dos principais acionistas. Apesar disso, Cristiano Ronaldo chegou a marcar presença, interrompendo um período de férias, no funeral da mãe de Jorge Mendes, em 2010 (cinco anos depois da morte de José Aveiro), segundo avançou a Caras.

Na sexta-feira, Cristiano Ronaldo mostrou-se incrédulo com a morte do colega da seleção. “Não faz sentido. Ainda agora estávamos juntos na Seleção, ainda agora tinhas casado… À tua família, à tua mulher e aos teus filhos, envio os meus sentimentos e desejo-lhes toda a força do mundo. Sei que estarás sempre com eles. Descansem em Paz, Diogo e André. Vamos todos sentir a vossa falta”, escreveu nas redes sociais.

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