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A maior noite de "Anora": como o filme de Sean Baker chegou à glória nos Óscares

Realizador, argumentista, produtor e montador: o cineasta saiu vitorioso, com quatro prémios a título particular — além do Óscar de Mikey Madison. Esta foi também a vitória do cinema independente.

“Estávamos a tentar fazer um filme, depois de Starlet (2012). Ia ser um salto gigante de orçamento, cerca de 15 milhões de dólares”. Quando contava esta história em 2017, numa entrevista ao podcast The Big Picture, o nome de Sean Baker andava nas bocas do mundo cinéfilo. Tinha acabado de realizar The Florida Project (2017), retrato social de uma América no olhar de uma menina de seis anos, a partir de um motel esconso na Flórida, paredes meias com a Disney World. Custou dois milhões de dólares e à época era o filme mais caro que realizara — e o mais aclamado. “Ia ser sobre Brighton Beach e a comunidade russa que lá vive. Queria atores russos reais, e em Hollywood não os encontrei. Agentes ainda me tentaram seduzir, sugeriam o Ryan Gosling a fazer um sotaque russo. Eu sabia que não ia funcionar, não ia ser real”.

Sean Baker em San Sebastian. Filmes que arruínam relações, o sucesso de “Anora” e a beleza do sonho americano

De facto, poder-se-á dizer que o arco da carreira do realizador, de 54 anos, representa um jogo de forças constante, entre as tentações de uma indústria onde os holofotes da fama ofuscam o real, e um cineasta para quem o real é a pedra de toque de toda a sua filmografia. A filosofia “bet on yourself” que sempre advogou, filmando com os recursos que tinha à mão e contando sempre as histórias dos esquecidos da América, colheu este domingo o seu fruto máximo: a tal longa-metragem de Brighton Beach, Anora, foi feito, com atores fluentes em russo e por apenas seis milhões de dólares, e subiu ao palco dos Óscares para colher a estatueta de Melhor Filme

[o trailer de “Anora”:]

A noite foi mesmo a coroação de Baker, venerado no cinema independente americano dos últimos 20 anos que, filme a filme, conseguiu conquistar o reconhecimento da indústria. A nível individual, o americano estava nomeado para quatro Óscares — Melhor Filme, como produtor de Anora, Realização, Argumento Original e Montagem — venceu os 4 e tornou-se no cineasta com mais Óscares ganhos numa só noite e por um único filme. Walt Disney também conquistou quatro em 1953, mas por quatro filmes diferentes.

Trata-se sobretudo de um triunfo simbólico do cinema independente americano, numa altura em que a indústria aposta na consolidação em busca de um novo modelo, focado no streaming e das novas tecnologias, e em que “filmes” são cada vez mais “conteúdo”.

O mais independente cineasta da indústria, Baker aproveitou cada oportunidade durante a campanha para sublinhar as dificuldades de fazer um filme como Anora nos dias de hoje, a importância da figura do realizador no processo criativo e exigiu a defesa do lançamento nas salas de cinema. “O cinema independente está a lutar pela vida (…) o sistema tem de mudar, nada disto é sustentável. Fazemos filmes que criam emprego para toda a indústria, não devíamos estar simplesmente a sobreviver”.

O realizador escolheu Mikey Madison depois de a ver em papéis secundários em Era Uma Vez em... Hollywood (2019), de Quentin Tarantino, e o reboot da saga de terror Gritos (2022). Dois filmes de relevo, que para Baker já deixavam antever o potencial. “Havia qualquer coisa de singular nela. Acho que ela tinha algo de diferente daquilo que costumamos ver em Hollywood.”

Apropriadamente, “tentar sobreviver” é justamente o que as personagens de Baker — estafetas, prostitutas, charlatões, trabalhadores precários — fazem numa América onde nasceram, mas da qual não parecem fazer parte. Anora não é exceção. Tal como a Moonee de Florida Project, também a stripper “Ani” vê o pote-de-ouro no fim do arco-íris, aqui literalizado na figura de um milionário filho de oligarcas russos que a pede em casamento. E, tal como a primeira, ou Saber em Red Rocket, também ela descobre aquilo que nós já sabemos: a miragem é isso mesmo, não existe.

Mikey Madison, um corpo estranho nas bocas do mundo

Ao aceitar o prémio máximo do Sindicato dos Realizadores, Baker destacou uma colaboradora particular. “Gostava que a Mikey estivesse aqui, subiu ao palco para gozar comigo e foi embora. (…) Ela *é* a Anora, este filme não existia sem ela”. O elogio não é descabido. Aos 25 anos, Madison conquistou a atenção da indústria, dando corpo e alma a “Ani” (é assim que no filme exige que a tratem), num desempenho que também lhe valeu a nomeação e a vitória no Óscar de Melhor Atriz.

Foi a primeira e a única escolha para o papel. O realizador selecionou-a depois de a ver em papéis secundários em Era Uma Vez em… Hollywood (2019), de Quentin Tarantino, e o reboot da saga de terror Gritos (2022). Dois filmes de relevo, que para Baker já deixavam antever o potencial. “Havia qualquer coisa de singular nela. Acho que ela tinha algo de diferente daquilo que costumamos ver em Hollywood.”

A jovem atriz é de resto um corpo estranho ao mediatismo da indústria, especialmente quando comparada aos colegas da sua idade. Madison não tem redes sociais e pouco está na internet. Autodescreve-se como “cinéfila” inveterada, tímida e pouco habituada a falar sobre si. “Gosto de estar no meu mundinho”, dizia num perfil para a GQ, ainda antes das nomeações.

▲ Mikey Madison e Yura Borisov, os polos opostos da narrativa de "Anora", cujos mistérios existenciais vamos desfiando e que acabam por ser o motor do filme

O trabalho de preparação com Baker durou um ano, durante o qual Madison ajudou a moldar a personagem. Aprendeu a falar russo, teve aulas de dança no varão, conversou com strippers e dançarinas exóticas da área de Los Angeles. “Queria tentar entender aquela comunidade da forma mais específica, para que pudesse dar vida à Ani o mais realisticamente que conseguia. Não queria que fosse sensacionalista ou dramatizado de forma negativa. Queria apenas que fosse aquilo que fosse”.

Ao longo do percurso, foi criando uma relação de grande proximidade com Baker, que elogiou a sua destreza e a forma como abordou o material mais exigente do filme, como as cenas de sexo e nudez (uma estreia para Madison). Em Cannes, a atriz explicava inclusive que tinha recusado um coordenador de intimidade, por se sentir mais confortável com o realizador e com a sua mulher e co-produtora Samantha Quan. “Já tinha uma relação muito confortável com os dois, e o resultado acabou por ser perfeito”.

A apoteose em Cannes e uma corrida dividida

Que o dissesse a crítica aquando da estreia no festival de cinema francês. Anora foi aclamado, Madison e Baker receberam elogios de todos os quadrantes e o filme acabou mesmo por ser reconhecido com a Palma de Ouro do festival. “Este era o meu único e maior objetivo enquanto cineasta ao longo dos últimos trinta anos”, confessou o realizador no discurso de vitória, assumindo a veia de cineasta europeu nascido do outro lado do Atlântico.

No meio de todos os debates, Anora foi passando incólume. A vitória no Sindicato dos Produtores e dos Realizadores confirmou o seu favoritismo. A mensagem do realizador em favor dos artistas e do valor da arte sobre o comércio ajudou. Mensagem que repetiu no palco do Dolby Theater no momento climático da noite.

Imediatamente, a imprensa especializada começou a vaticinar Anora como forte candidato à estatueta dourada. À medida que os meses iam passando, o favoritismo foi-se cimentando. Em parte devido à ausência de candidatos fortes, num ano de produção ainda muito marcado pelas greves, mas sobretudo porque o filme parecia ser altamente consensual entre os mais de 9000 eleitores da Academia. E porque Baker, cineasta há muito respeitado  — mas pouco celebrado pela indústria — poderia não voltar a ter tão boa oportunidade.

Contudo, de maio a março vão 10 meses. É muito tempo para gerir o favoritismo, numa campanha que começa cada vez mais cedo e num contexto mediático em que é difícil centrar as atenções por um período prolongado. Gradualmente, outros candidatos foram emergindo. O Brutalista tomou de assalto o Festival de Veneza, assumindo-se também como avatar de um tipo de cinema já raro nos dias que correm; Emilia Pérez, que também foi premiado em Cannes, cavalgou a onda das suas políticas progressistas para colher o favor da Academia (mesmo perante as críticas do público); no final do ano, até o fenómeno de popularidade do musical Wicked surgiu como aspirante à glória.

▲ Sean Baker, o realizador mais-do-que-independente, aqui a distribuir indicações no set de "Anora"

Anora foi, ainda assim, mantendo-se na discussão. Na manhã das nomeações foi indicado seis vezes — menos do que outros filmes, mas todas elas nas categorias-chave. No entanto, é inegável que começava a perder gás, especialmente quando os principais percussores começaram a ser entregues, premiando sobretudo O Brutalista e Emilia Pérez (caso dos Globos de Ouro, por exemplo).

No entanto, numa corrida sem favoritos, a frente do pelotão é sempre vulnerável. E foi-o, numa das campanhas mais polémicas e abertamente competitivas de que há memória. Houve de tudo: desde polémicas com a equipa do filme brasileiro Ainda Estou Aqui, acusada de plantar histórias sobre outros candidatos, ao escândalo das declarações de Karla Sofía Gascón, atriz principal de Emilia Pérez, que se tornou persona non-grata para a Netflix, passando também por O Brutalista, criticado por usar inteligência artificial para dotar certos aspetos do filme, numa altura em que a tecnologia continua a ser um tema quente em Hollywood.

“Anora”: sexo, comédia e amargura em Brooklyn

No meio de todos os debates, Anora foi passando incólume. A vitória no Sindicato dos Produtores e dos Realizadores confirmou o seu favoritismo. A mensagem do realizador em favor dos artistas e do valor da arte sobre o comércio ajudou. Mensagem que repetiu no palco do Dolby Theatre, ao qual subiu por quatro vezes.

Quando recebeu o Óscar de Melhor Realização, Sean Baker dedicou o discurso ao cinema enquanto instituição, deixando uma crítica mais ou menos velada ao rumo de uma indústria cada vez mais centrada no streaming. “Estamos aqui porque amamos o cinema. E onde é que nos apaixonamos pelos filmes? Num cinema”, atirou. Lembrando que, desde a pandemia, houve cada vez mais salas de cinema — em particular as independentes — a fechar, Baker deixou um apelo para que preserve esta instituição.

“Numa altura em que o mundo parece mais divido que nunca, é uma experiência de comunidade”, defendeu. “Cineastas, continuem a fazer filmes para os grandes ecrãs. Eu sei que o farei”, afirmou, pedindo também que os distribuidores os coloquei nas salas e não no streaming e que os pais levem os filhos ao cinema. Numa nota final, recordou que foi ao cinema com a sua mãe pela primeira vez com cinco anos — afirmando-o no mesmo dia em que a sua progenitora faz anos.

Conforme se ouve na música que abre o filme, Anora viveu o seu “greatest day”. E o cinema independente de Sean Baker continua vivo, por enquanto.

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