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Andressa Anholete

Andressa Anholete

A mensagem de Sofia, de quatro anos, no país onde Bolsonaro abriu uma crise e os traficantes das favelas dão (agora) o exemplo

Declaração de Bolsonaro ao país, a pedir reabertura de escolas, comércio e fim do isolamento, abriu crise política com governadores. Os exemplos, esses, vêm das favelas. Dos traficantes a uma criança.

O aumento do número de casos no país, as ações tomadas por alguns dos principais governadores que decretaram o estado de emergência no Rio de Janeiro ou São Paulo, os exemplos mais próximos (ainda que longínquos) como os Estados Unidos que já foram apontados como o próximo foco da pandemia, as recomendações da Organização Mundial de Saúde, o cenário internacional onde tudo o que são eventos com mais assistências acabam suspensos, cancelados ou adiados. A lista poderia continuar mas a ideia é a mesma e uma palavra chega para resumir tudo o que foi supracitado: contexto. Um contexto que foi mais uma vez contornado por Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, numa declaração ao país que acabou por surpreender tudo e todos. No timing, no conteúdo, na forma.

“Algumas poucas autoridades, estaduais e municipais, devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fecho do comércio e o confinamento em massa (…) O vírus chegou, está a ser enfrentado por nós e brevemente passará. A nossa vida tem que continuar, os empregos devem ser mantidos, o sustento das famílias deve ser preservado. Devemos sim voltar à normalidade (…) O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, porquê fechar escolas? No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não me precisaria preocupar, nada sentiria ou seria quanto muito acometido de uma gripezinha ou de um resfriadinho“, referiu num discurso onde voltou a apontar a mira à comunicação social, pela “histeria”, e aos governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro.

As reações ao discurso do presidente brasileiro não demoraram e vieram de vários quadrantes, de governadores a políticos e analistas, passando por empresários e até jornalistas (neste caso, a Associação Brasileira de Imprensa e a Federação Nacional dos Jornalistas). No entanto, Jair Bolsonaro voltou a mostrar que está apostado em dar a volta à realidade implementada a nível estadual, utilizando mesmo a mãe, Olinda Bonturi Bolsonaro, que fará no próximo sábado 93 anos, como exemplo para o contexto que se vive à luz da pandemia da Covid-19.

Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, em declarações à imprensa na manhã desta quarta feita (FOTO: Getty Images)

“Se os mais velhos não tivessem apanhado o vírus também estariam a morrer, é algo que se lamenta. Ninguém quer enterrar um ente querido. A minha mãe está quase a fazer 93 anos, está magrinha, tem problemas, também está numa situação complicada, qualquer coisinha que dê nela, uma gripe, pode ser fatal, lamento… No mundo todo acho que chegou às 20 mil [mortes], eu queria que fosse zero. Temos que tirar da cabeça das pessoas essa sensação de pânico, de terror, meu Deus do céu! Temos de enfrentar o vírus, não tem como fugir. Em cada país o vírus espalhou-se em tempos diferentes. A voz do povo está aqui, desemprego em massa, o caos está a vir… Em Búzios que vive praticamente do turismo estão proibidos de entrar carros com outra placa [matrícula]…”, disse esta quarta-feira aos jornalistas, antes de reforçar a vontade de ver a economia de novo em funcionamento.

"Espero que o Brasil volte à normalidade, que encare o vírus como se fosse uma guerra mas de pé. Se nós nos acobardarmos, se formos no discurso fácil, todo o mundo em casa, vai ser o caos... Vai acabar o que têm agora na geladeira, não vai pagar contas...", defendeu esta manhã Bolsonaro.

“Espero que o Brasil volte à normalidade, que encare o vírus como se fosse uma guerra mas de pé. Se nós nos acobardarmos, se formos no discurso fácil, todo o mundo em casa, vai ser o caos… Vai acabar o que têm agora na geladeira, não vai pagar contas… Fiquei a saber de um governador que estava a liberar de pagar a conta energética, onde nós chegámos…”, acrescentou, numa espécie de equilíbrio entre o melhor para a saúde e o melhor para a economia a pender claramente para a segunda balança. Um equilíbrio que deve ser ponderado e que já tinha sido trazido como imagem para comentar o momento em Portugal por Rui Rio, presidente do PSD, após a reunião desta terça-feira na Infarmed. Rui Rio que, hoje, mostrou a sua preocupação pelo que se passa no Brasil.

Citando uma notícia da Lusa que dava conta da vontade de Bolsonaro reabrir escolas e comércio e acabar com o período de isolamento, o líder dos sociais-democratas deixou um alerta através da sua conta oficial no Twitter. “Se isto vier a acontecer, nós vamos ter de nos proteger de forma redobrada e de imediato, relativamente aos voos vindos do Brasil. Desta vez não pode haver atrasos”, referiu a esse propósito.

E no Brasil, o que se passa? A reunião entre Bolsonaro e os governadores do Sudeste, que chegou a ser vista como uma primeira oportunidade para tentar inverter a ideia do presidente brasileiro, acabou por ser marcada pelo ataque do chefe do Executivo a João Doria. “Estamos aqui, os quatro governadores do Sudeste, em respeito ao Brasil e aos brasileiros, em respeito ao diálogo e ao entendimento. Mas o senhor que é o presidente da República tem que dar o exemplo e tem que ser o mandatário a dirigir, a comandar e liderar o país, não dividir”, disse o governador de São Paulo. “Subiu-lhe à cabeça a possibilidade de ser presidente do Brasil. Não tem responsabilidade. Não tem altura para criticar o governo federal. Se você não atrapalhar, o Brasil vai descolar e conseguir sair da crise. Saia do palanque”, atirou Bolsonaro, num momento mais quente da reunião.

Ainda esta quarta-feira, e pela primeira vez desde que a pandemia global da Covid-19 chegou ao Brasil, todos os 27 governadores do Brasil irão reunir-se ao final da tarde (hora local), também por videoconferência, na tentativa de discutirem as melhores medidas a tomar num cenário que já é descrito como de “crise política” no meio de uma possível propagação do novo coronavírus, sendo conhecida a ideia de Jair Bolsonaro a esse respeito. Uma ideia que faz com que antigos presidentes do país venham a público mostrar a sua preocupação.

"Em mais uma demonstração pública de sua descompostura e inépcia, o presidente atacou a imprensa e orientou o povo brasileiro a não seguir as recomendações das autoridades. Distinguindo-se dos principais líderes políticos do mundo, Bolsonaro agiu como genocida, ao deixar evidente o desprezo pela vida do povo brasileiro, em especial da população idosa", defendeu Federação Nacional de Jornalistas.

“Não ia voltar ao tema, mas o presidente repetiu opiniões desastradas sobre a pandemia. O momento é grave, não cabe politizar, mas opor-se aos infectologistas passa dos limites. Se não calar estará preparando o fim. E é melhor o dele que de todo o povo. Melhor é que se emende e cale”, escreveu nas redes sociais Fernando Henrique Cardoso, antigo presidente do Brasil. “Neste momento grave, o país precisa de uma liderança séria, responsável e comprometida com a vida e a saúde da sua população. É grave a posição extremada pelo presidente da República”, acrescentou o líder do Senado, Davi Alcolumbre. “A pandemia da Covid-19 exige solidariedade e co-responsabilidade. A experiência internacional e as orientações da OMS [Organização Mundial da Saúde] na luta contra o vírus devem ser rigorosamente seguidas por nós. As agruras da crise, por mais árduas que sejam, não sustentam o luxo da insensatez”, escreveu Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal.

Com uma ou outra ideia mais própria, as mensagens principais destas três figuras foram partilhadas por vários governadores, casos de Wilson Witzel (Rio de Janeiro), João Doria (São Paulo), Flávio Dino (Maranhão), Rui Costa (Baía) ou Carlos Moisés (Santa Catarina). Até um influenciador de Bolsonaro, citado pela Folha de São Paulo, têm dificuldades em defender o discurso feito ao país. “Existe um ponto entre combater a epidemia e não deixar a economia implodir para salvar o máximo de vidas. Ninguém sabe ao certo qual é esse ponto. O presidente Bolsonaro parece buscar tal ponto, mas não está a comunicar da forma correta”, disse Leandro Ruschel.

“Num momento em que se exige serenidade e liderança firme e responsável, com o comportamento irresponsável e criminoso, o presidente mostra não estar à altura do importante cargo que ocupa”, escreveu ainda a Associação Brasileira de Imprensa, secundada pela Federação Nacional dos Jornalistas. “Em mais uma demonstração pública de sua descompostura e inépcia, o presidente atacou a imprensa e orientou o povo brasileiro a não seguir as recomendações das autoridades. Distinguindo-se dos principais líderes políticos do mundo, Bolsonaro agiu como genocida, ao deixar evidente o desprezo pela vida do povo brasileiro, em especial da população idosa”.

Os números continuam a aumentar: de acordo com o Ministério da Saúde, numa informação conhecida esta noite em Portugal, o país regista já 2.433 casos infetados (com principal incidência em São Paulo, 862, e Rio de Janeiro, 370) e 57 mortos (48 em São Paulo). “A evolução é aproximadamente igual aos últimos dias”, disse em conferência o ministro Luiz Henrique Mandetta. É provável que algumas pessoas continuem a ir à janela a bater panelas, uma das imagens de marca como protesto contra as medidas de Bolsonaro (o “panelaço”). No meio deste contexto de crise sanitária que entretanto levantou uma crise política e que corre o risco de pelo meio potenciar uma crise social, alguns bons exemplos têm surgido das próprias favelas, nomeadamente a Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, que tem mostrado ser bem mais do que o local que ficou “conhecido” por um filme.

"Venho aqui a pedido da diretoria das áreas 15, 13, AP e Karatê. Iremos fazer toque de recolher porque ninguém está levando a sério. Quem estiver na rua de sacanagem ou batendo perna vai receber um corretivo e vai ficar de exemplo. É melhor ficar em casa de molho. O recado já foi dado", referia mensagem lida na favela da Cidade de Deus.

O primeiro teste positivo na favela, situada na zona oeste do Rio, registou-se no sábado, sendo acompanhado de mais 19 casos suspeitos. Pela falta de saneamento básico, pela aglomeração de agregados populares e pela pouca capacidade de acompanhar a evolução da pandemia através dos meios de comunicação, a Cidade de Deus, como todas as outras favelas, têm um potencial perigoso de propagação. Como dizia à G1 Paulo Buss, diretor do Centro de Relações Internacionais da Fundação Oswaldo Cruz, “a ironia é que os ricos trouxeram a doença para o Brasil e ela vai explodir entre os pobres”. Mas as medidas tomadas pela comunidade foram imediatas.

Um grupo formado por “traficantes e milicianos”, como explicava a imprensa brasileira, apressou-se a anunciar uma série de regras dentro da favela, nomeadamente o recolher obrigatório às 20h ou o fecho de alguns bares e demais estabelecimentos que pudessem trazer uma maior aglomeração de pessoas. E esse alerta foi feito pelo próprio grupo, passando com um altifalante pelas ruas. A partir dessa hora, são feitas “vistorias” para assegurar que todos ficaram nas respetivas casas. “Venho aqui a pedido da diretoria das áreas 15, 13, AP e Karatê. Iremos fazer toque de recolher porque ninguém está levando a sério. Quem estiver na rua de sacanagem ou batendo perna vai receber um corretivo e vai ficar de exemplo. É melhor ficar em casa de molho. O recado já foi dado”, referia um desses recados gravados, como avançou O Globo.

Estudo da Central Única das Favelas refere que morarão nas favelas do Rio de Janeiro cerca de dois milhões de pessoas (Foto: Getty Images)

O exemplo acabou por ser seguido por outras favelas no Rio de Janeiro, onde existem já alguns casos a aguardar a avaliação ou suspeitos. “Quem for pego na rua vai aprender a respeitar o próximo”, dizia uma mensagem que circulou pela Rocinha nos últimos dias. “Atenção todos os moradores! Toque de recolher a partir de hoje 20:00. Quem for visto na rua após este horário vai aprender a respeitar o próximo!”, defendia outra, neste caso de Rio das Pedras, Muzema e Tijuquinha, acrescentando ainda outra ideia sobre as medidas a tomar. “Queremos o melhor para a população. Se o Governo não tem capacidade de dar um jeito, o crime organizado resolve”.

Com o isolamento de 13 favelas no Rio de Janeiro, entre as quais Alemão, Jacarezinho, Rocinha, Manguinhos, Turano, Cidade de Deus ou Vidigal, os moradores juntaram-se num movimento fora do comum e entregaram ao Secretário Estadual da Saúde, Edmar Santos, uma carta com 17 pedidos entre os quais a presença de pessoas do corpo médico, kits básicos, distribuição de sabão e álcool em gel ou acesso a água canalizada, de acordo com o G1, que recorda o estudo da Central Única das Favelas que fazia um levantamento de dois milhões de pessoas nestes locais. Mas o principal destaque acabou mesmo por ser um vídeo gravado por uma criança, Sofia, de quatro anos, onde deixa um apelo não só para a Vila Kennedy, onde reside, mas para todas as favelas.

“Estou chegando aqui para dar um recado importante: para de sair para a rua!
É para ficar dentro de casa, entendeu?
Sabe aquele quartinho que você tá doido para dar uma geral? Arruma o quartinho.
Sabe aquele guarda-roupa, arruma o seu guarda-roupa.
Faz uma pipoquinha, vê um filme, mas dentro de casa.
Para de sair para a rua”.

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