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Avanços e recuos. Num dia, exigiu à Dinamarca o controlo total e a “soberania” da Gronelândia e não excluiu um ataque militar. O assunto converteu-se no seu foco e falou sobre o tópico várias vezes. Nessa senda, ameaçou aplicar tarifas aduaneiras a vários países europeus como consequência de terem enviado tropas e equipamento militar para a maior ilha do mundo. Dias depois, em Davos, anunciou um possível um acordo que resolve a polémica em redor da Gronelândia com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte. A postura assertiva e dura deu lugar à flexibilidade e ao compromisso.
Este parece ter sido o rumo que o Presidente dos Estados Unidos da América aplicou em relação à Gronelândia, se bem que nada garanta que não possa mudar entretanto. Isso não seria propriamente uma novidade: os ziguezagues e a inconstância são imagem de marca da carreira política de Donald Trump. O líder de uma das principais potências mundiais pode adotar um tom ameaçador e uma retórica combativa, enquanto horas depois altera radicalmente de postura.
Trump Always Chickens Out (Trump Acobarda-se Sempre — acrónimo em inglês TACO). Esta foi a expressão que muitos dos seus críticos e analistas usaram para descrever os comportamentos inconsistentes do Presidente norte-americano na gestão da política externa e na aplicação de tarifas. Não é descabido dizer que isso aconteceu novamente na Gronelândia: as tarifas aos países europeus deverão ser suspensas se se confirmar o acordo sobre a gestão da maior ilha do mundo.
TACO. https://t.co/tmZiDyN32u
— Gavin Newsom (@GavinNewsom) January 22, 2026
Aliás, um dos principais rivais políticos e potencial candidato às eleições presidenciais de 2028, o democrata Gavin Newsom, que também está presente no Fórum Económico Mundial em Davos, usou precisamente o acrónimo “TACO” para reagir à notícia de que Donald Trump teria recuado na Gronelândia e teria reduzido a tensão com a Europa.
Mas haverá alguma estratégia por parte desta mudança de posição? Em declarações ao Observador, três especialistas lembraram o passado enquanto empresário na área do imobiliário para tentar explicar os comportamentos de Donald Trump. E também assinalam uma atitude de “bully” que — quando percebe que pode haver repercussões negativas para os Estados Unidos — recua imediatamente, indiferente às possíveis contradições.
“O comportamento peculiar” que “surge de impulsos e vontades” de Donald Trump
Ao Observador, Mark Storella, professor na Pardee School of Global Studies na Universidade de Boston e antigo embaixador norte-americano na Zâmbia entre 2010 e 2013, não tem dúvidas: “A política externa adotada por Donald Trump não é baseada numa estratégia ou mesmo numa ideologia. Surge de impulsos e vontades“. “Se se tentar perceber se há alguma estratégia concreta na política externa de Trump, não se vai encontrar nenhuma. Ele personalizou a política externa norte-americana.”
Ao personalizá-la, a política externa dos Estados Unidos acaba por ser ditada por aquilo que Donald Trump pensa e como age, disse Mark Storella. “Ele faz bullying aos outros como uma demonstração de poder”, sublinhou o antigo embaixador. Conhecido por ridicularizar e enfrentar adversários e quem o ousa desafiar, o Presidente norte-americano emprega exatamente essa estratégia na política externa.
Para este especialista, Donald Trump não apresenta qualquer racionalidade na maneira como gere o assunto da Gronelândia, andando ao sabor do vento e das suas vontades. “Ele diz que quer a Gronelândia por razões de segurança e psicológicas e que apenas será constrangido pela sua ‘própria moralidade’. Ele é um tipo do imobiliário e quer um imóvel” que é a Gronelândia, prossegue Mark Storella, descrevendo que isso não se pode classificar como uma “política coerente”.
▲ Donald Trump não parece ter uma "política coerente" para lidar com a Gronelândia
LAURENT GILLIERON / POOL/EPA
Ao Observador, Garret Martin, professor na School of International Service da American University em Washington D.C., também apontou razões pessoais ligadas ao passado profissional do Presidente norte-americano. “Penso que o seu background como alguém com a sua experiência no mundo do imobiliário parece fazer com que encare [a Gronelândia] como um território a ser explorado e utilizado, como se estivesse a comprar um edifício”, constatou, acrescentando que Donald Trump “vê o mundo de uma forma transacional”.
Esse passado pesa na forma como tem lidado com o assunto da Gronelândia. No entanto, mesmo para quem vê o mundo como um palco para fazer transações e negócios, Rubrick Biegon, professor de Relações Internacionais na Universidade de Kent, considerou que a abordagem usada “é altamente peculiar”. Donald Trump “parece ter desenvolvido um tipo de obsessão em comprar a Gronelândia — e adicioná-la ao mapa do território dos EUA”.
“Nem todas as posições da política externa de Trump podem ser atribuídas às suas peculiaridades como político pouco ortodoxo ou como alguém que desfruta de polémicas, mas a sua abordagem oscilante neste assunto realmente encaixa nesta narrativa”, continuou Rubrick Biegon, em declarações ao Observador. Dito doutro modo, o Presidente norte-americano interiorizou a vontade de comprar a Gronelândia.
Gronelândia. O que se sabe dos “princípios para acordo” com a NATO anunciados por Trump
As sondagens e a pressão “contra o bully”: o que fez Donald Trump recuar?
Donald Trump parece cada vez mais disposto em levar avante os seus planos. Contudo, parece ter recuado recentemente: já admite um princípio de um acordo (em que não ficará com a soberania total da Gronelândia e deverá apenas manter o controlo de alguns pontos estratégicos na ilha) e reduziu o tom confrontacional com os países europeus e as autoridades dinamarquesas.
Esta mudança, segundo Rubrick Biegon, pode ser explicada pela impopularidade do assunto nos Estados Unidos. “É talvez importante notar que a sua tentativa de controlar a Gronelândia foi bastante impopular entre o público norte-americano, segundo as sondagens”, notou. Um estudo de opinião recente elaborado pela Reuters refere que apenas 17% dos norte-americanos concordam com a compra da ilha à Dinamarca. Mais: o uso da força militar era apenas visto como uma boa solução para 4% dos inquiridos — e até os eleitores republicanos viam essa possibilidade de forma negativa (60%).
“Trump não é imune à opinião pública e, na verdade, é provavelmente tão sensível às sondagens como outros presidentes e políticos”, acredita Rubrick Biegon. Com uma diferença, ainda assim: o Presidente norte-americano até nem se importa de levar a cabo ações controversas, isto se a sua base eleitoral permitir ou tolerar. Por exemplo, segundo a sondagem da Reuters, 40% dos eleitores republicanos veem com bons olhos a compra da Gronelândia, embora não concordem com a ação militar.
Para Mark Storella, a pressão dos países europeus e também dos mercados financeiros levou a que Donald Trump voltasse atrás. “Como a maioria dos bullies, quando leva um murro no nariz, recua. Fez o mesmo quando os aliados [dos EUA] e os mercados financeiros o estavam a pressionar em relação a Gronelândia”, observou, expondo que os “ziguezagues são simplesmente prova de que não pensou nas consequências do que fez, pensando apenas a curto prazo”.
Os países europeus ainda estão a ponderar de que forma é que iria retaliar contra os Estados Unidos, caso as tarifas avancem mesmo. Em todo o caso, o Parlamento Europeu já tinha suspendido o acordo comercial (antes de Donald Trump voltar atrás) que tinha assinado com Washington. Uma guerra comercial contra os países da Europa também teria impactos significativos na economia norte-americana — e poderia aumentar o custo de vida nos Estados Unidos.
Os mercados financeiros também são afetados pela forma como Donald Trump gere a política externa e tenta alcançar os seus objetivos pessoais. Odiando caos e imprevisibilidade, muitos investidores retraem-se com prenúncios de conflitos ou em situações geopolíticas instáveis. Como indicou Mark Storella, isso muitas vezes motivou o Presidente norte-americano a recuar — e os efeitos foram praticamente imediatos.
▲ Mark Rutte e Donald Trump debatem estratégia para a Gronelândia em Davos
AFP via Getty Images
Por exemplo, depois de ter descartado um ataque militar à Gronelândia, as bolsas mundiais reagiram em alta e o dólar estabilizou. E esta não é a primeira vez que Donald Trump faz isso, de acordo com Mark Storella. “Cedeu à China no comércio”, recordou, aludindo à guerra comercial entre Washington e Pequim em abril de 2025, que culminou num acordo.
Hemisfério ocidental como parte dos EUA e o “legado”. Que estratégia pode haver por trás das ações de Trump?
Rubrick Biegon assinalou que “as ações de Donald Trump nas últimas semanas parecem ter sido em larga medida improvisadas” em relação à Gronelândia. Foram baseadas, segundo concluíram os especialistas ouvidos pelo Observador, em reações impulsivas e na típica atitude de força que gosta de demonstrar em conflitos contra rivais.
No entanto, questionado sobre se existe alguma racionalidade, Rubrick Biegon ressalvou que a compra da Gronelândia é “geralmente consistente com a abordagem da administração norte-americana no que toca à segurança nacional e a política externa”. Lembrando o documento que detalha a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA divulgado em novembro de 2025, o professor universitário explicou que “colocava surpreendentemente grande ênfase no hemisfério ocidental”, de que a Gronelândia faz parte.
▲ Gronelândia faz parte do Hemisfério Ocidental — em que os EUA querem aumentar a influência
MADS CLAUS RASMUSSEN/EPA
“Trump e a sua equipa claramente acreditam que os EUA deviam aprofundar o domínio geopolítico e geoeconómico do hemisfério ocidental. Esta jogada na Gronelândia é consistente com a sua visão”, enfatizou Rubrick Biegon. Porém, ainda continua a haver uma dose de irracionalidade em todo o processo: “Os EUA podem alcançar os seus objetivos geoestratégicos e económicos na Gronelândia sem possuir o território, o que cria uma certa estranheza no que concerne à abordagem altamente agressiva de Trump”.
No entender de Garret Martin, pode haver talvez uma questão de legado e de engrandecimento dos EUA. “Eu penso que ele está muito convicto na ideia de expandir o território norte-americano e a Gronelândia é muito grande. Há uma visão imperialista em que Donald Trump acredita: se outros países não são capazes de manter a sua segurança, a seu ver, então é perfeitamente aceitável que grandes potências assumam essa responsabilidade e façam isso por eles”, referiu.
“Ele tem uma visão muito pessimista e negra do mundo. É um mundo perigoso. Ele acha perfeitamente apropriado que grandes potências façam isso. É uma lógica colonial“, prosseguiu Garret Martin. Sobre o legado, o professor universitário acedita ser “normal” que os Presidentes norte-americanos pensem sobre o futuro e sobre como serão vistos depois de saírem do cargo.
“Mas penso que, no caso de Donald Trump, a distinção entre ele e os Estados Unidos é cada vez mais confusa”, denunciou Garret Martin, questionando: “Será realmente do interesse dos norte-americanos comuns controlar a Gronelândia?” “Mesmo que hipoteticamente aconteça, será incrivelmente caro gerir a Gronelândia. Não me parece claro como exatamente daria lucro e seria do interesse dos norte-americanos comuns.”
Já Mark Storella, não vê nada de racional nas ações de Donald Trump — e considera que essa falta de razoabilidade até está a ajudar os rivais dos Estados Unidos. “A estratégia de segurança nacional que coloca o hemisfério ocidental em primeiro entre as prioridades norte-americanos não menciona a Gronelândia”, salienta, lamentando que o Presidente norte-americano “tenha pouca perceção de como esta ação na Gronelândia está a prejudicar os interesses norte-americanos e a ajudar a Rússia e a China“.
▲ Aeronave de Donald Trump na Gronelândia
Ritzau Scanpix/AFP via Getty Ima
A política de Donald Trump na política externa caracteriza-se, como apontam os especialistas ouvidos pelo Observador, pela imprevisibilidade e por um grande pendor pessoal. É o Presidente norte-americano que define a agenda e a Gronelândia por agora está no topo, mesmo que isso colida contra interesses dos aliados europeus e nem seja propriamente popular entre a base eleitoral que o elegeu. O líder dos EUA parece agora ter refreado as ameaças — mas será de vez?