Num encontro à margem do Fórum Económico Mundial em Davos, o Presidente dos EUA, Donald Trump, e o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, parecem ter dado um passo para aliviar as tensões na Gronelândia. Na rede social Truth Social, o norte-americano garantiu que se tinham alcançado os “princípios para um futuro acordo” para o território e para “toda a região do Ártico”. O secretário-geral da NATO garante que as questões da soberania gronelandesa não surgiram nessa conversa, que parece ter demovido Trump de impor tarifas a vários países europeus que tinham enviado tropas para fortalecer a defesa da ilha.
Mas em que consiste, afinal, este anteprojeto? Os detalhes ainda são escassos, no entanto, a partir das várias declarações do Presidente norte-americano, foi possível compreender alguns dos principais pontos do entendimento que, segundo Trump, deixou “todos felizes” e que será agora discutido com representantes da Gronelândia e Dinamarca.
Ainda esta quarta-feira, o Presidente dos EUA teve duas presenças públicas pós-encontro com Rutte: uma entrevista à televisão norte-americana CNBC e um encontro com os jornalistas, ambos em Davos. Nestas, o norte-americano falou em dois assuntos: os “direitos de minerais” e a “segurança”, nomeadamente o papel que o território autónomo dinamarquês pode ter na “Cúpula Dourada“, o projeto de defesa anti-mísseis ao estilo israelita apresentado por Trump em maio do ano passado.
A “Golden Dome”, o novo sistema de defesa ao estilo israelita anunciado por Donald Trump
A questão dos “minerais”, referida pelo líder norte-americano, não foi desenvolvida. A ilha ártica, como destacou a Reuters, é rica em recursos minerais que estão, na sua maioria, por explorar. Entre os recursos que se sabe existir estão as terras raras, o grafite, o cobre, o urânio e até ouro e diamantes. Um levantamento de 2023, citado pela agência, revelou que 25 dos 34 minerais considerados “matérias-primas críticas” pela Comissão Europeia podem ser encontrados na Gronelândia.
Porém, caso se trate de algum tipo de acordo de exploração, isso contraria as declarações do próprio Trump desta quarta-feira durante o encontro com Mark Rutte, onde disse que só queria “a Gronelândia por uma questão de segurança” e não “por mais nada”.
“Temos tanta terra rara que não sabemos o que fazer com ela. Não precisamos dela [da Gronelândia] para mais nada”, afirmou então o Presidente, citado pela Anadolu Agency, apontando ainda que é “preciso descer 8 metros através do gelo” para obter esses minerais. “Não é algo que muitas pessoas vão fazer ou queiram fazer. Não, estamos a falar de segurança“, insistiu então Donald Trump.
Ao New York Times, três oficiais militares próximos das discussões entre Washington e a NATO revelaram que houve outro encontro entre altos representantes militares dos membros da Aliança Atlântica. Nessa reunião, foi discutida uma solução de “compromisso” em que a Dinamarca cederia pequenos pedaços da Gronelândia onde os Estados Unidos poderiam construir bases militares.
Esta ideia, que terá vindo do próprio secretário-geral da NATO, foi comparada por duas das fontes ao estatuto das bases militares britânicas de Akrotiri e Dhekelia, que são um território da coroa britânica encravado na ilha do Chipre, com um estatuto semelhante ao de Gibraltar ou das Ilhas Malvinas. Porém, estes oficiais admitiram não saber se este ponto fez parte do entendimento atingido entre os líderes.
NATO só fala de Ártico e Dinamarca acaba o dia “melhor do que começou”
Apesar de Trump ter mencionado um eventual acordo com o secretário-geral da NATO, o próprio Mark Rutte contou que a questão da soberania da Gronelândia “não surgiu” nas conversações com o Presidente dos Estados Unidos.
“Nós concentramo-nos muito no que precisamos de fazer para garantir a proteção dessa enorme região do Ártico, onde estão a ocorrer mudanças neste momento e onde os chineses e os russos estão cada vez mais ativos”, acrescentou numa entrevista à televisão norte-americana Fox News.
Antes a porta-voz da NATO, Allison Hart, tinha apenas mencionado que “o enquadramento que o Presidente [dos EUA] referenciou” ia-se “focar em garantir na segurança do Ártico através dos esforços coletivos dos aliados, especialmente dos sete aliados” dessa região do extremo-norte do planeta.
“As negociações entre a Dinamarca, a Gronelândia e os Estados Unidos vão avançar com o objetivo de garantir que a Rússia e a China nunca ganhem espaço — economicamente ou militarmente — na Gronelândia”, acrescentou Hart.
Já o ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, que fora aos EUA negociar com Marco Rubio e JD Vance e saira desanimado, usou a rede social X para sublinhar a mudança.
“O dia está a terminar melhor do que começou“, escreveu Rasmussen, que disse acolher “com satisfação a decisão do Presidente dos EUA de descartar a tomada da Gronelândia pela força e de suspender a guerra comercial”. “Agora, vamos reunir-nos e descobrir como podemos abordar as preocupações de segurança americanas no Ártico, respeitando as linhas vermelhas do Reino da Dinamarca”, acrescentou.
The day is ending on a better note than it began. We welcome that POTUS has ruled out to take Greenland by force and paused the trade war. Now, let’s sit down and find out how we can address the American security concerns in the Arctic while respecting the red lines of the KoD. pic.twitter.com/XWv1Ffo4UN
— Lars Løkke Rasmussen (@larsloekke) January 21, 2026