Salvador Sobral não conseguiu apenas pôr muitos portugueses a ver um Festival da Eurovisão 15 ou 20 anos depois; conseguiu pôr muitos portugueses a ver o Festival da Eurovisão dois anos consecutivos – porque a) bem ou mal, queremos ver quem lhe sucede; e b) trouxe o festival para cá e queremos ver que tal nos safamos a fazer aquilo. Ainda assim, não dá para acompanhar aquela excitação tão Expo 98 ou Euro 2004 que os envolvidos tentam pôr na coisa. Basta seguir uns minutos de espectáculo ou uma mera reportagem para perceber o óbvio: a Eurovisão provoca mais entusiasmo a quem a faz do que a quem a vê.

Antes de arrancar, recordemos alguns números importantes: é a 63ª edição do Festival e há 43 países a concurso, em 13 línguas e, diz a organização, mais de 20 géneros musicais. Seis estão já apuradas para a final: as chamadas “Big 5” (Espanha, Itália, Inglaterra, Alemanha e França) e o país organizador – Portugal. Nesta primeira semifinal, há 19 temas em prova; dez passam à final, votados, em partes iguais, pelo júri e pelo público. Temos quatro apresentadoras – em vez dos três apresentadores do ano passado. E dois comentadores em vez de zero, que também era uma ideia.

20h00: Grande vídeo de abertura a mostrar quão fotogénica é Lisboa. Se houver alguma música melhor do que este vídeo, já teremos dado o nosso tempo por bem empregue, mas temos sérias dúvidas. Só por causa deste vídeo, aliás, o metro quadrado em Lisboa já aumentou mais 500 mil euros.

20h02: Vamos para a sala e é preciso dizer que a Altice Arena, aka Meo Arena, sala-anteriormente-conhecida como Pavilhão Atlântico ou mesmo, Pavilhão da Utopia, está mais bonita do que nunca. As quatro apresentadoras – Daniela Ruah, Catarina Furtado, Sílvia Alberto e Filomena Cautela – também parecem mais bonitas do que nunca, mas é impossível dizer o quer que seja mais acerca do seu desempenho porque Hélder Reis e Nuno Galopim, os comentadores da transmissão da RTP, fazem o favor de não deixar ouvir uma palavra das suas próprias apresentadoras.

Azerbaijão

Aisel, “X My Heart”

Aisel apresenta-se descalça, em branco total. Nuno Galopim informa-nos de que o branco é, estatisticamente, mais usada pelos vencedores do Eurofestival, um dado muito relevante que, de repente, nos faz arrepender de nunca lá ter mandado o Roberto Leal. Aisel canta em inglês o seu temazinho pop. Tem um ar doce, que toda a sogra aprovaria, não fosse, porventura, a escassez de roupa. Vamos esquecer-nos desta canção dentro de, exactamente, 3… 2… 1…

Islândia

Ari Ólafsson, “Our Choice”

Ari tem 19 anos e ar de Ken. Também se apresenta de branco, embora com muita peça vermelha, em homenagem, dizemos nós, à subida do Santa Clara à Primeira Liga, numa óbvia manobra de solidariedade entre ilhas. Hélder Reis diz que vai dar que falar e quem somos nós para dizer que não? Canta em inglês uma balada sobre fraternidade. Termina com um agudo lancinante que poderá ter activado algum vulcão lá na terra-natal.

Albânia

Eugent Bushpepa, “Mall”

Eugent apresenta-se com duas vantagens que, na nossa estima, o qualificam imediatamente, independentemente da qualidade da canção: não vem de branco e canta na língua dele. Acresce uma almazinha rock, com uma guitarra eléctrica com um cabeludo atrás e tudo. Em voz rouca, mas capaz de uns agudos de meter respeito,  sobe até ao final épico que o classifica como o melhorzinho até agora.

Bélgica

Sennek, “A Matter of Time”

Sennek é uma belga de ar, bom, belga, e a terceira participante em quatro a cantar em Inglês. A voz banal e o penteado de quem acabou de sair do duche não ajudam, mas a canção, um popzinho aceitável, torna-se mais convincente a cada volta. Não tanto que chegue, porém, para grandes entusiasmos.

República Checa

Mikolas Josef, “Lie To Me”

Ao quinto tema, parece-nos da mais elementar justiça dizer que a realização de Paula Macedo está muitíssimo bem. À parte isso, Mikolas apresenta-se em palco com ar de Matt Damon checo a caminho da escola, de suspensórios, laço, oculinhos e mochila. O tema é todo muito Prince, muito anos 80, até (sobretudo) na coreografia dos bailarinos – é breakdance que se chama a isto? Se não for, desculpem o avô. É um hit vistoso e óbvio.

Lituânia

Ieva Zasimauskaité, “When We’re Old”

Uma cançãozinha bonita sobre envelhecer ao lado de alguém. Ieva começa, por seu turno, como uma Joanna Newsom lituana, que depois solta um vozeirão de se pôr em sentido, enquanto são projectadas imagens de casais de velhotes dançando. Ieva termina nervosa, segurando a mão de um rapaz e tremendo-lhe a voz. Impossível não simpatizar. Aliás, impossível não simpatizar com qualquer música que tenha a coragem de vir à Eurovisão sem parecer feita para passar no ginásio.

20h32: Regressamos de intervalo e, mais uma vez, Hélder Reis e Nuno Galopim garantem que ninguém ouve uma palavra do que dizem Sílvia Alberto e Catarina Furtado.

Israel

Netta, “Toy”

Não é uma canção acerca do grande artista de Setúbal (ele próprio, em tempos idos, um esperançoso concorrente ao Festival da Canção), mas a enésima variação pop da ideia de “Material Girl” – mas uma boa variação, há que dizer. Apontada às mulheres e à ideia de não se deverem deixar usar, “Toy” é suficientemente irónica e icónica para ficar como um dos momentos obrigatórios em qualquer resumo desta edição.

Bielorússia

Alekseev, “Forever”

Pelo título, antecipa-se a originalidade. A Bielorrússia faz-se representar por um ucraniano que canta um baladão banal em inglês, enquanto a Eurovisão repete a mentira da multiculturalidade.

Palpite: Não passa. E só pela sequência kitsch em que Alekseev passa uma rosa ao câmara que a entrega, depois, à bailarina, deviam ficar um ano de castigo.

Estónia

Elina Nechayeva, “La Forza”

Finalmente, mais alguém que não canta em inglês! Tratando-se da Estónia, Elina canta em… italiano, claro. Elina é cantora lírica e traz um vestido que é uma rotunda. O Marquês misturado com o AquaMatrix, para quem se lembra do espectáculo que encerrava as noites da Expo 98. Acontece tudo ali: o vestido mudar de cor, de luz, de desenho. É um vestido para a vida toda – um sonho para mulheres e homens, que assim ganham direito a algum espaço no roupeiro. O problema é o diâmetro, quando está vestido. Para usar um vestido que ocupe aquela quantidade de metros quadrados, em Lisboa, só sendo muito abastado. Ou então vai vesti-lo para a Rinchoa. E nisto, percebemos que o vestido nos está a distrair da canção, que, na verdade, é óptima, a melhor até aqui. Elina canta para xuxu – desculpem o termo técnico – e a canção podia, na verdade, acompanhar o AquaMatrix, ou abrir um Europeu.

Bulgária

Equinox, “Bones”

É a primeira banda da noite, mas uma banda criada de propósito para o festival e que, em cinco elementos, conta com dois cantores norte-americanos. Hélder Reis diz que é uma canção sobre um amor mais profundo e, daqui a bocado, Nuno Galopim há-de elogiar outra vez a diversidade cultural que para aqui vai. Nós já não sabemos se a canção é da Bulgária ou do Canadá.

Macedónia

Eye Cue, “Lost and Found”

Mais um grupo, mas este, supostamente, existe mesmo. A cantora é uma rapariga gira, que veste de rosa e, às vezes, desafina. A câmara roda ao redor dela para nos recordar de como está incrível a Altice Arena. Mais uma vez, damos por nós a meio da canção a ir reler as notas para nos lembrarmos de que país isto vem. Isto não é multicultural; isto não vem de toda a parte; podia vir de qualquer parte, que é diferente. É indistinto, acultural, aculturado.

Croácia

Franka, “Crazy”

Mais um título de arrepiante originalidade. Ajude-nos, caro leitor, a cantar o refrão: “I go” o quê? “Crazy”, isso. Porquê? Digam todos! “For your love”, Ora, muito bem.

20h59: Voltamos para a terceira parte. Hélder Reis gagueja e temos quase a certeza de ter conseguido ouvir Daniela Ruah dizer uma palavra: “Áustria”.

Áustria

Cesár Sampson, “Nobody but You”

Cesár é o John Legend austríaco. É uma canção pop, com influências R&B e soul, com tanto a ver com a Áustria como um bacalhauzinho à Gomes de Sá, mas uma boa canção.

Grécia

Yanna Terzi, “Oniro Mou”

Yanna traz de volta o branco, mas ao menos canta em grego. O décor escolhe iluminá-la pelo que parece ser a maior concentração do mundo daqueles luzes dos blocos operatórios. A voz de Yanna destaca-se tanto como a minha, entre 50 mil pessoas, a cantar o “Eu amo o Benfica” no Estádio da Luz. (Sim, André Almeida. Sou eu)

Finlândia

Saara Aalto, “Monsters”

Saara é mais uma daquelas pessoas que vem da Finlândia com aquela pinta sadomaso metaleira que nos faz perguntar sobre se o sistema de ensino deles será mesmo assim tão bom. Canta uma canção exactamente igual a um milhão de outras canções, boas para fazer passadeira e continuar a ouvir em repeat na discoteca. O corpo de bailarinos parece formado entre a malta que falhou os exames para a Gestapo por falta de tónus muscular. Além de dançarem como quem está a sofrer uma intoxicação alimentar.

Arménia

Sevak Khanagyan, “Qami”

Sevak canta em arménio. É o quarto concorrente, em 16, que não canta em Inglês. Mas, aparentemente, é deixa suficiente para Nuno Galopim elogiar a diversidade que tem dominado a noite. Ainda demos uma gargalhada, mas a canção de Sevak era tão tristonha que nos fez sentir culpados.

Suíça

Zibbs, “Stones”

Os Zibbs são, explicam-nos os comentadores, uma banda com muitos anos de estrada. Basicamente, são um casal, ele na percussão, e ela na voz e como frontgirl em absoluto domínio do palco. A canção, um protesto contra o bullying, tem power, tal como eles dois. Termina pedindo que levante o braço quem já foi magoado por alguém e a sala inteira fica de braço no ar. Fácil e eficaz.

Irlanda

Ryan O’Shaughnessy, “Together”

Depois de “Crazy”, “Forever”, “Stones”, “Bones, “Toy”, “Lie To Me”, “Our Choice” e outras, eis mais um título de espantosa criatividade. Os irlandeses são um povo encantador que não deve ser martirizado por ter ganho tantas vezes o Festival da Eurovisão – sete, para ser mais preciso – mas digamos que o melhor deste falsete baladeiro foi o candeeiro à “Pátio das Cantigas” que o cenógrafo conseguiu meter em cena.

Chipre

Eleni Foureira, “Fuego”

A canção representa o Chipre e é interpretada por uma albanesa, que canta em inglês, com um refrão de uma só palavra em espanhol, num estilo visual e musical entre Beyonce e Shakira, trazendo vestido o que parece ser o fato da criatura de “A Forma da Água”, depois de ter ido ao programa errado na máquina. Supomos que seja a esta salganhada de pacote que a Eurovisão, e Nuno Galopim por ela, insiste em chamar de diversidade.

21h26: Alguém deve ter avisado os nossos comentadores. Galopim já quase nunca mais vai pisar as apresentadoras; Hélder Reis ainda vais, mas quase sempre para dizer coisas como “a nossa Sílvia” ou “a nossa Filomena”.

21h27: Filomena Cautela pergunta a um tipo com a bandeira de Israel de que país é.

21h28: As apresentadoras gritam “3, 2, 1… Europe, start voting now!” Hélder Reis fica, aparentemente, muito emocionado por estar a ouvir aquilo em Portugal.

21h35: Sílvia Alberto e Filomena Cautela lembram a frase “A música não é fogo de artifício”, dita por Salvador Sobral no ano anterior e que tanto incómodo causou. Curiosamente e a julgar pela primeira semifinal, sendo esta ediçãoo bem superior à do ano passado, não se pode dizer que se note particularmente a influência de um vencedor como Salvador Sobral, cantando na própria língua e sem grandes artifícios. De seguida, uma boa surpresa: um vídeo com alguns dos concorrentes dos diferentes países do ano passado cantando “Amar pelos Dois”. Resulta por vezes em versos como “ouve as minhas brechas”, mas ressalta como a canção era realmente bonita, irra.

21h39: Digamos que o inglês de Catarina Furtado faz o de Daniela Ruah parecer ainda mais incrível. E é bonito isso. Trabalho de equipa.

21h47: Termina a votação e Hélder Reis acha mais uma vez incrível ter acabado de ouvir outra frase que reputa de “mais um clássico a ser dito aqui em Portugal”. A frase foi “Stop voting now”. Stop. Voting. Now. Clássico. Ó júbilo. Ó glória.

21h55 em diante: ouvimos excertos de três dos temas directamente apurados para a final: o português, o espanhol e o inglês. Respectivamente: “O Jardim”, Cláudia Pascoal; “Tu Canción”, Amaia y Alfred” (prémio para o pior cabelo e o ar mais verdadeiro disto tudo) e “Storm”, de Surie. Comparadas com a canção de Surie, as piadas que Filomena Cautela faz com o nome dela são excelentes.

22h03: Estamos a olhar para Sílvia Alberto e Daniela Ruah e, de repente, lembramo-nos de Ana Zanatti e Eládio Clímaco. E de Darwin.

22h05: Sílvia e Daniela anunciam agora as dez canções, das 19 a concurso esta noite, que passam à final: estão lá a Áustria, Israel e a República Checa, como seria de prever, as fórmulas instantâneas de Chipre, Bulgária e Finlândia, a banalidade irlandesa, e as nossas três preferidas (sim, temos preferidas): o rocker albanês, a Joanna Newsom lituana e a cantora lírica com o vestido Aquamatrix da Estónia.

22h11: A noite acaba com um “Até já”. Uma parte de nós gostava de ter visto o Fernando Mendes a apresentar isto.

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal)