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“A festa já começou.” A descrição mais comum de Friedrich Merz é a de um homem de negócios sério, calmo e reservado. Mas a sua confirmação como chanceler alemão parece ter trazido ao de cima a sua versão mais animada: a palavra “festa” foi usada pelo líder da União Cristã Democrática (CDU) no discurso de vitória depois de as primeiras projeções das eleições federais da Alemanha deste domingo terem dado a vitória à coligação CDU/CSU.
A vitória já era esperada, de acordo com as sondagens. A CDU ganhou, mas agora precisa de uma coligação para assegurar uma maioria no parlamento para poder formar governo. No seu discurso, Merz garantiu que o diálogo com todos os partidos ia acontecer o mais rapidamente possível. Momentos depois, em debate com os restantes líderes partidários, manteve uma linha vermelha: não vai formar governo com a AfD, de extrema-direita. “Os eleitores da AfD sabiam disso antes das eleições”, garantiu.
Apesar das garantias, a verdade é que as maiores críticas a Merz estão relacionadas com o facto de já ter votado ao lado da AfD no parlamento. Isto porque Merz faz parte de uma fação mais à direita da CDU. Esse posicionamento manteve-o fora dos executivos de Angela Merkel, mais moderada, e levou-o mesmo a abandonar a política durante quase uma década, período durante o qual fez fortuna como homem de negócios.
Quebrou um tabu e votou ao lado da extrema-direita
No final de janeiro deste ano, a CDU quebrou um tabu da política alemã: a cooperação com um partido de extrema-direita. A herança da extrema-direita na Alemanha durante a II Guerra Mundial levou os restantes partidos — à direita, ao centro e à esquerda — a criar um sólido cordão sanitário à volta de forças desse espectro.
A cooperação em causa estava relacionada com o tema que levou à ascensão do partido de extrema-direita, a AfD: a imigração. CDU e AfD votaram do mesmo lado, aprovando uma moção a favor de medidas de segurança mais apertadas e do encerramento das fronteiras terrestres. A política de Merz quanto às imigrações é bastante dura — e oposta à abertura de fronteiras que Angela Merkel protagonizou em 2015. O líder conservador defende mais controlos nas fronteiras e critica as atuais políticas de asilo e entrada no país.
Ainda assim e apesar de ter conduzido a CDU mais para a direita, Merz recusa colaborar diretamente com a AfD. “Eu quero fazer política para que um partido como a AfD já não seja preciso na Alemanha”, disse num congresso em janeiro, em que acusou os partidos de esquerda de criarem um terreno fértil à ascensão da extrema-direita.
[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
É um forte apoiante da Ucrânia (ainda mais que Scholz)
Durante os últimos três anos, a Alemanha foi um dos maiores apoiantes da Ucrânia na Europa. Mas Friedrich Merz é ainda mais vincado no seu apoio do que Olaf Scholz. O líder da CDU defende o envio de mais equipamento militar para Kiev, incluindo mísseis de longa distância Taurus, que Scholz recusou entregar a Volodymyr Zelensky.
Além disso, também apoia a rápida adesão da Ucrânia à NATO. Apesar de Berlim sempre ter defendido isso, Scholz tem sido mais tímido na possibilidade de acelerar o processo. Na Conferência de Segurança de Munique, há pouco mais de uma semana, Merz defendeu que a Alemanha tem de assumir uma liderança mais destacada das questões de segurança na Europa. Além disso, alertou os líderes europeus que devem estar preparados para assegurar a defesa do continente sem a ajuda dos Estados Unidos.
Quer ter uma boa relação com Donald Trump
Apesar dos alertas ao resto da Europa para apostar na Defesa, Merz mostrou-se relutante em dar resposta às exigências do novo Presidente norte-americano, Donald Trump, para que os países europeus aumentem os gastos de 2% para 5% do PIB. Mais: reconheceu que Trump poderá virar costas aos aliados europeus. Apesar de não estar alinhado com o Presidente americano, apoiantes e críticos reconhecem que é um político bem preparado para lidar com a administração Trump.
“Alguns críticos internos admitem a contragosto que o seu atlanticismo, excelente controlo do inglês e capacidades negociais aperfeiçoadas em salas de reuniões onde esteve durante o hiato político o tornam num bom candidato para a era Trump”, escreve a Reuters. Ou seja, Merz tem uma veia de homem de negócios que facilitará o diálogo com Trump, cujos negócios são a parte mais relevante do seu currículo. Isto seria uma grande evolução da relação tensa que Donald Trump manteve com Angela Merkel na sua primeira administração.
▲ Apoiantes e críticos preveem uma melhoria nas relações diplomáticas, depois da tensão entre Merkel e Trump
GUIDO BERGMANN / BUNDESREGIERUNG / HANDOUT/EPA
Retirou-se da política durante a liderança de Angela Merkel
A distância entre Merz e Merkel não se mede só na relação com Donald Trump. Na verdade, a chegada de Merz ao topo da política alemã é uma história que foi bloqueada por várias vezes pela antiga chanceler. O novo chanceler juntou-se à CDU quando ainda era estudante e foi ocupando cargos políticos até chegar à liderança da CDU no parlamento.
Cronologicamente, a sua ascensão dentro da CDU foi paralela à de Merkel. Mas enquanto Merkel representava uma fação mais moderada, Merz aproximou o partido à direita e retomou uma política mais conservadora. A relação tensa entre os dois levou Merz a abdicar do cargo em 2004 e a sair da política em 2009.
Depois de um período “de reflexão” passado fora da política, candidatou-se à liderança da CDU depois da saída de Merkel. A popularidade da antiga chanceler bloqueou a sua vitória nas eleições intrapartidárias por duas vezes, em 2018 e 2021. Conseguiu chegar a líder do partido apenas em 2022, o que leva os seus apoiantes a elogiar a sua perseverança. Mas isso não o livra de críticas de Merkel, que considerou que o seu voto ao lado da AfD “é errado”.
Criticou as políticas de proteção climática do anterior executivo
Para além das questões da imigração e da política externa, a política de Merz prima pelo estímulo da economia alemã — que se encontra fragilizada desde que começou a guerra na Ucrânia. Para isso, o novo chanceler promete cortar burocracias, baixar impostos para empresas e criar condições que favoreçam a iniciativa privada. Uma das áreas que merece mais a sua atenção são as empresas tecnológicas — Merz quer tornar a Alemanha mais atrativa e prometeu criar cargos ministeriais para lidar com a digitalização e Inteligência Artificial.
Por outro lado, critica o investimento em energias renováveis, como a eólica. O líder dos democratas cristãos reconhece que as alterações climáticas são um problema real do futuro, mas considera que a economia tem de ter prioridade sobre o ambiente. No início deste ano, criticou as políticas de Scholz por serem “quase exclusivamente orientadas para a proteção climática” — e prometeu mudar isso.
▲ Merz foi líder parlamentar em 2000 e é líder do partido desde 2022, mas nunca fez parte de um governo
CLEMENS BILAN/EPA
Nunca ocupou um cargo político no governo
Independentemente do braço de ferro com Merkel, o currículo de Merz na CDU é extenso. O primeiro cargo foi como deputado europeu, eleito em 1989. Dagmar Roth-Behrendt, eleita no mesmo ano, mas pelo SPD, lembra um jovem “sério, confiável, honesto e educado”.
Depois de um mandato em Bruxelas, Merz regressou a Berlim e tornou-se o protegido de Wolfgang Schaeuble, que viria a tornar-se ministro das Finanças e cara do conservadorismo fiscal alemão durante o período da recessão, pós-2009. Merz herdou de Schaeuble a liderança dos democratas cristãos no parlamento, em 2000.
Desistiu da política menos de uma década depois e regressou em 2022, como líder da oposição (depois de duas tentativas falhadas, em 2018 e 2021). O seu currículo político tem uma linha por preencher — nunca ocupou um cargo num executivo.
É o primeiro chanceler desde Helmut Kohl que tem filhos. E tem dois jatos privados
Merz nasceu na Alemanha Ocidental, na região de Sauerland, conhecida pela preponderância católica e conservadora, que orientam agora os seus valores. Antes de chegar a Bruxelas, Merz trabalhou como juiz — a mesma profissão do pai e da mulher — e como advogado.
Depois de abandonar o parlamento, trabalhou na multinacional de investimento BlackRock e ocupou cargos na administração da EY Alemanha, do Borussia de Dortmund e da Deutsche Börse. Para além das capacidades de negociação, este período profissional trouxe-lhe muito dinheiro, que investiu no seu hobby — a aviação. Merz tem licença de piloto e dois jatos privados.
Casado há 40 anos com uma juíza, coloca grande valor na sua família. Uma vez, questionado sobre se consideraria sair da política se afetasse o seu casamento, respondeu que esse preço seria “demasiado alto”. O casal tem três filhos, o que faz de Merz, o primeiro chanceler desde Helmut Khol (que saiu do cargo em 1998) com filhos e que nunca foi divorciado.