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Friedrich Merz ganhou as eleições deste domingo — agora, precisa de formar governo
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▲Friedrich Merz ganhou as eleições deste domingo — agora, precisa de formar governo

AFP via Getty Images

▲Friedrich Merz ganhou as eleições deste domingo — agora, precisa de formar governo

AFP via Getty Images

Friedrich Merz, o novo chanceler alemão, em sete pontos: a relação com Merkel, Trump e a extrema-direita

Cortou o tabu anti-extrema-direita, foi posto de lado por Merkel e fez fortuna como homem de negócios, o que pode ajudar a melhorar a relação com Trump. O que tem mesmo de saber sobre o novo chanceler

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“A festa já começou.” A descrição mais comum de Friedrich Merz é a de um homem de negócios sério, calmo e reservado. Mas a sua confirmação como chanceler alemão parece ter trazido ao de cima a sua versão mais animada: a palavra “festa” foi usada pelo líder da União Cristã Democrática (CDU) no discurso de vitória depois de as primeiras projeções das eleições federais da Alemanha deste domingo terem dado a vitória à coligação CDU/CSU.

A vitória já era esperada, de acordo com as sondagens. A CDU ganhou, mas agora precisa de uma coligação para assegurar uma maioria no parlamento para poder formar governo. No seu discurso, Merz garantiu que o diálogo com todos os partidos ia acontecer o mais rapidamente possível. Momentos depois, em debate com os restantes líderes partidários, manteve uma linha vermelha: não vai formar governo com a AfD, de extrema-direita. “Os eleitores da AfD sabiam disso antes das eleições”, garantiu.

Apesar das garantias, a verdade é que as maiores críticas a Merz estão relacionadas com o facto de já ter votado ao lado da AfD no parlamento. Isto porque Merz faz parte de uma fação mais à direita da CDU. Esse posicionamento manteve-o fora dos executivos de Angela Merkel, mais moderada, e levou-o mesmo a abandonar a política durante quase uma década, período durante o qual fez fortuna como homem de negócios.

Provocador, milionário e um rival de Merkel. Friedrich Merz, o enfant terrible da CDU prestes a tornar-se chanceler alemão

Quebrou um tabu e votou ao lado da extrema-direita

No final de janeiro deste ano, a CDU quebrou um tabu da política alemã: a cooperação com um partido de extrema-direita. A herança da extrema-direita na Alemanha durante a II Guerra Mundial levou os restantes partidos — à direita, ao centro e à esquerda — a criar um sólido cordão sanitário à volta de forças desse espectro.

A cooperação em causa estava relacionada com o tema que levou à ascensão do partido de extrema-direita, a AfD: a imigração. CDU e AfD votaram do mesmo lado, aprovando uma moção a favor de medidas de segurança mais apertadas e do encerramento das fronteiras terrestres. A política de Merz quanto às imigrações é bastante dura — e oposta à abertura de fronteiras que Angela Merkel protagonizou em 2015. O líder conservador defende mais controlos nas fronteiras e critica as atuais políticas de asilo e entrada no país.

"Eu quero fazer política para que um partido como a AfD já não seja preciso na Alemanha."

Ainda assim e apesar de ter conduzido a CDU mais para a direita, Merz recusa colaborar diretamente com a AfD. “Eu quero fazer política para que um partido como a AfD já não seja preciso na Alemanha”, disse num congresso em janeiro, em que acusou os partidos de esquerda de criarem um terreno fértil à ascensão da extrema-direita.

[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

É um forte apoiante da Ucrânia (ainda mais que Scholz)

Durante os últimos três anos, a Alemanha foi um dos maiores apoiantes da Ucrânia na Europa. Mas Friedrich Merz é ainda mais vincado no seu apoio do que Olaf Scholz. O líder da CDU defende o envio de mais equipamento militar para Kiev, incluindo mísseis de longa distância Taurus, que Scholz recusou entregar a Volodymyr Zelensky.

Além disso, também apoia a rápida adesão da Ucrânia à NATO. Apesar de Berlim sempre ter defendido isso, Scholz tem sido mais tímido na possibilidade de acelerar o processo. Na Conferência de Segurança de Munique, há pouco mais de uma semana, Merz defendeu que a Alemanha tem de assumir uma liderança mais destacada das questões de segurança na Europa. Além disso, alertou os líderes europeus que devem estar preparados para assegurar a defesa do continente sem a ajuda dos Estados Unidos.

Quer ter uma boa relação com Donald Trump

Apesar dos alertas ao resto da Europa para apostar na Defesa, Merz mostrou-se relutante em dar resposta às exigências do novo Presidente norte-americano, Donald Trump, para que os países europeus aumentem os gastos de 2% para 5% do PIB. Mais: reconheceu que Trump poderá virar costas aos aliados europeus. Apesar de não estar alinhado com o Presidente americano, apoiantes e críticos reconhecem que é um político bem preparado para lidar com a administração Trump.

“Alguns críticos internos admitem a contragosto que o seu atlanticismo, excelente controlo do inglês e capacidades negociais aperfeiçoadas em salas de reuniões onde esteve durante o hiato político o tornam num bom candidato para a era Trump”, escreve a Reuters. Ou seja, Merz tem uma veia de homem de negócios que facilitará o diálogo com Trump, cujos negócios são a parte mais relevante do seu currículo. Isto seria uma grande evolução da relação tensa que Donald Trump manteve com Angela Merkel na sua primeira administração.

▲ Apoiantes e críticos preveem uma melhoria nas relações diplomáticas, depois da tensão entre Merkel e Trump

GUIDO BERGMANN / BUNDESREGIERUNG / HANDOUT/EPA

Retirou-se da política durante a liderança de Angela Merkel

A distância entre Merz e Merkel não se mede só na relação com Donald Trump. Na verdade, a chegada de Merz ao topo da política alemã é uma história que foi bloqueada por várias vezes pela antiga chanceler. O novo chanceler juntou-se à CDU quando ainda era estudante e foi ocupando cargos políticos até chegar à liderança da CDU no parlamento.

Cronologicamente, a sua ascensão dentro da CDU foi paralela à de Merkel. Mas enquanto Merkel representava uma fação mais moderada, Merz aproximou o partido à direita e retomou uma política mais conservadora. A relação tensa entre os dois levou Merz a abdicar do cargo em 2004 e a sair da política em 2009.

Depois de um período “de reflexão” passado fora da política, candidatou-se à liderança da CDU depois da saída de Merkel. A popularidade da antiga chanceler bloqueou a sua vitória nas eleições intrapartidárias por duas vezes, em 2018 e 2021. Conseguiu chegar a líder do partido apenas em 2022, o que leva os seus apoiantes a elogiar a sua perseverança. Mas isso não o livra de críticas de Merkel, que considerou que o seu voto ao lado da AfD “é errado”.

Criticou as políticas de proteção climática do anterior executivo

Para além das questões da imigração e da política externa, a política de Merz prima pelo estímulo da economia alemã — que se encontra fragilizada desde que começou a guerra na Ucrânia. Para isso, o novo chanceler promete cortar burocracias, baixar impostos para empresas e criar condições que favoreçam a iniciativa privada. Uma das áreas que merece mais a sua atenção são as empresas tecnológicas — Merz quer tornar a Alemanha mais atrativa e prometeu criar cargos ministeriais para lidar com a digitalização e Inteligência Artificial.

Por outro lado, critica o investimento em energias renováveis, como a eólica. O líder dos democratas cristãos reconhece que as alterações climáticas são um problema real do futuro, mas considera que a economia tem de ter prioridade sobre o ambiente. No início deste ano, criticou as políticas de Scholz por serem “quase exclusivamente orientadas para a proteção climática” — e prometeu mudar isso.

epa11756283 German Chancellor Olaf Scholz (R) and Chairman of the Christian Democratic Union (CDU) party and faction Friedrich Merz (L) shake hands next to former Christian Democratic Union (CDU) party chairman Armin Laschet (2-L) during a session of the German parliament 'Bundestag' in Berlin, Germany, 04 December 2024. German Chancellor Olaf Scholz answered questions from members of parliament during a government question time.  EPA/CLEMENS BILAN

▲ Merz foi líder parlamentar em 2000 e é líder do partido desde 2022, mas nunca fez parte de um governo

CLEMENS BILAN/EPA

Nunca ocupou um cargo político no governo

Independentemente do braço de ferro com Merkel, o currículo de Merz na CDU é extenso. O primeiro cargo foi como deputado europeu, eleito em 1989. Dagmar Roth-Behrendt, eleita no mesmo ano, mas pelo SPD, lembra um jovem “sério, confiável, honesto e educado”.

Depois de um mandato em Bruxelas, Merz regressou a Berlim e tornou-se o protegido de Wolfgang Schaeuble, que viria a tornar-se ministro das Finanças e cara do conservadorismo fiscal alemão durante o período da recessão, pós-2009. Merz herdou de Schaeuble a liderança dos democratas cristãos no parlamento, em 2000.

Desistiu da política menos de uma década depois e regressou em 2022, como líder da oposição (depois de duas tentativas falhadas, em 2018 e 2021). O seu currículo político tem uma linha por preencher — nunca ocupou um cargo num executivo.

É o primeiro chanceler desde Helmut Kohl que tem filhos. E tem dois jatos privados

Merz nasceu na Alemanha Ocidental, na região de Sauerland, conhecida pela preponderância católica e conservadora, que orientam agora os seus valores. Antes de chegar a Bruxelas, Merz trabalhou como juiz — a mesma profissão do pai e da mulher — e como advogado.

Depois de abandonar o parlamento, trabalhou na multinacional de investimento BlackRock e ocupou cargos na administração da EY Alemanha, do Borussia de Dortmund e da Deutsche Börse. Para além das capacidades de negociação, este período profissional trouxe-lhe muito dinheiro, que investiu no seu hobby — a aviação. Merz tem licença de piloto e dois jatos privados.

Casado há 40 anos com uma juíza, coloca grande valor na sua família. Uma vez, questionado sobre se consideraria sair da política se afetasse o seu casamento, respondeu que esse preço seria “demasiado alto”. O casal tem três filhos, o que faz de Merz, o primeiro chanceler desde Helmut Khol (que saiu do cargo em 1998) com filhos e que nunca foi divorciado.

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