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Friedrich Merz no comício em Vechta desta quarta-feira ao final da tarde
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▲Friedrich Merz no comício em Vechta desta quarta-feira ao final da tarde

▲Friedrich Merz no comício em Vechta desta quarta-feira ao final da tarde

Provocador, milionário e um rival de Merkel. Friedrich Merz, o enfant terrible da CDU prestes a tornar-se chanceler alemão

Num comício em Vechta, Friedrich Merz foi recebido em clima de festa e mostrou-se confiante na vitória das eleições. Após Merkel, CDU deve voltar ao poder na Alemanha, mas o partido está diferente.

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Confiante, assertivo e em clima de festa. O líder da União Democrata-Cristã (CDU, sigla em alemão), Friedrich Merz, foi recebido com euforia no salão multiusos Rasta Dome, em Vechta, onde joga a equipa de basquetebol da cidade da Baixa Saxónia. Antes mesmo de discursar perante cerca de 500 pessoas, as cheerleaders Marleys atraiam as atenções com danças e acrobacias. No palco azul montado num evento em que nada foi deixado ao acaso, o candidato a chanceler pelo maior partido do centro-direita na Alemanha não escondeu o seu tom mordaz, a sua tendência para a provocação e o seu ego que os críticos dizem ser bem inflado: “Tenho um pressentimento muito bom sobre o que vai acontecer daqui a três dias e 23 horas. A CDU vai ter um muito bom resultado.”

A contar as horas para a divulgação dos resultados das eleições federais alemãs de domingo, o ambicioso Friedrich Merz deverá chegar ao lugar com que sempre aspirou desde que tinha 17 anos, idade em que se inscreveu na Junge Union (a juventude da CDU e do partido irmão na Baviera, a CSU): tornar-se o próximo chanceler da Alemanha. Político experiente — foi eurodeputado, deputado no Parlamento alemão e um dos membros mais influentes dos democrata-cristãos —, os sonhos do advogado de 69 anos foram sendo permanentemente adiados, por conta da sua némesis entre os democrata-cristãos alemães: Angela Merkel. 

▲ Friedrich Merz foi recebido com euforia em Vechta

A relação entre os dois dentro da CDU nunca foi pacífica e houve sempre uma rivalidade assumida. Tanto assim foi que o homem de 69 anos esteve anos sem desempenhar nenhum cargo político. Só quando Merkel anunciou que ia abandonar a política é que Friedrich Merz reapareceu. O seu regresso não foi, no entanto, sinónimo de sucesso instantâneo: em 2021 perdeu a corrida para ser candidato a chanceler e quem assumiu as rédeas da CDU foi Armin Laschet, que acabou por levar o partido ao pior resultado de sempre nas últimas eleições federais.

Ultrapassada a longa era de Angela Merkel e do deslize para os democrata-cristãos da Alemanha, Friedrich Merz pressentiu que chegara a sua hora de brilhar. “Nós estamos nesta campanha eleitoral para tornarmo-nos o maior partido no Parlamento com uma grande distância”, declarou de forma confiante perante os apoiantes em Vechta. Durante os 50 minutos em que discursou ininterruptamente na Rasta Dome, o candidato a chanceler revelou de forma entusiasta o seu plano para os próximos quatro anos. Ficou claro que o advogado nem sequer cogita uma possível derrota.

Esta confiança do candidato a chanceler do centro-direita deve-se, em parte, aos bons resultados nas sondagens, que mostram que a CDU-CSU deverá vencer as eleições federais alemãs com cerca de 30% dos votos. O segundo lugar, com menos dez pontos percentuais, deverá ser ocupado pelo Alternativa para a Alemanha (AfD), seguido do Partido Social-Democrata (SPD) do chanceler Olaf Scholz. O regresso dos democrata-cristãos ao poder, após quatro anos na oposição, aparenta ser uma inevitabilidade, apesar de, muito provavelmente, terem de se coligar com outro partido.

▲ Rasta Dome antes de começar o evento

Uma futura coligação ainda não preocupa o partido, que já ligou o modo celebração. Na Rasta Dome era notória a euforia dos apoiantes e simpatizantes. O discurso galvanizador de Friedrich Merz contribuiu ainda mais para a onda de otimismo que invadiu esta quarta-feira o salão multiusos de Vechta, uma localidade que é um bastião da CDU — o partido venceu todas as eleições na localidade de forma consecutiva desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Em terreno amigável, o líder da CDU deixou a modéstia de lado, não usando a máscara mais séria que costuma usar em debates e entrevistas. Se a autoconfiança exacerbada em Vechta passou despercebida e até foi aplaudida, no restante país não é isso que acontece. Uma grande fatia do eleitorado alemão vê Friedrich Merz como um político arrogante, impulsivo e polémico, sendo bastante diferente do estilo pacato, modesto e reservado de Angela Merkel. O homem de 69 anos não mede as palavras — e isso gera anticorpos. 

Talvez tenha sido por isso que, à porta do Rasta Dome, cerca de cem pessoas estivessem numa manifestação contra o evento da CDU. “Friedrich Merz quis vir a Vechta e agora vai ver a verdade”, gritava uma jovem no pequeno palco montado perto do salão multiusos. Adorado por muitos e odiado por outros tantos, o candidato a chanceler prepara-se para receber um voto de confiança nos alemães. Apesar de já ter desvendado o que fará inicialmente no cargo, o estilo do provável novo líder alemão e a forma como vai gerir um governo ainda são um ponto de interrogação.

▲ Manifestação contra o evento da CDU em Vechta

Vechta: o bastião católico em que a Igreja apela ao voto

“Domingo são as eleições — a tua voz conta.” O cartaz é apolítico, não demonstra simpatia por nenhum partido, mas foi colocado na fachada da principal Igreja Católica de Vechta, uma localidade em que o catolicismo é preponderante na Baixa Saxónia, uma região alemã em que domina o protestantismo. A mensagem até pode ser inocente, mas é difícil não induzir que se trata de uma chamada às urnas ao eleitorado católico, que vota em grande medida na União Democrata-Cristã. E estes eleitores ainda terão outro incentivo: Friedrich Merz é católico assumido.

A religião do líder da CDU não passa despercebida aos eleitores de Vechta. “Eu sei que ele é católico e confesso que isso influencia o meu voto. Gosto de votar em alguém que tem os mesmos valores do que eu e o senhor Merz parece ser um bom cristão”, diz ao Observador Gertrud Günther, de 63 anos, que, juntamente com o marido, passeava perto da Igreja esta quarta-feira à tarde, num dia com o céu limpo, mas em que o vento soprava com alguma intensidade, criando uma sensação térmica desconfortável.

▲ Igreja católica de Vechta com a mensagem: "Domingo são as eleições — a tua voz conta"

Natural de Vechta, o casal nunca falhou à CDU: votou sempre no partido. “Eu sou conservador e sempre me identifiquei com o partido”, sublinha Arnold Günther, o marido, de 64 anos. “É de longe o partido mais bem preparado e que sabe governar o país”, confirma Gertrud, ao mesmo tempo que o marido acenava com a cabeça em jeito de confirmação. O homem de 64 anos está “confiante de que Friedrich Merz será um excelente chanceler”. “Parece-me competente, focado e será certamente uma boa diferença em relação ao senhor Scholz, que desgraçou este país”, complementa a mulher.

[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Críticas a Friedrich Merz? O casal para já não as tem, mas realça que “vai esperar para ver”. A mesma opinião favorável do líder da CDU tem Louisa Brandt, de 34 anos, que passeava com um carrinho de bebé na principal rua de Vechta, a Große Straße [Rua Grande, em português], ladeada de lojas. “É um político experiente”, refere com um sorriso. “As pessoas estão daqui habituadas à CDU, sabe? Sempre trouxe riqueza e bem-estar à Alemanha”, enfatiza. “Sei que o senhor Merz vem cá [esta quarta-feira]. Até estive para ir, mas não tinha com quem deixar o bebé. Mas gosto dele, acho que é a mudança que a Alemanha precisa.”

Não era só Louisa Brandt quem passeava com o seu carrinho de bebé nas principais ruas de Vechta. Na tarde desta quarta-feira, havia várias crianças nas ruas acompanhadas dos pais, na localidade que já foi considerada “a mais jovem” da Alemanha. Num país em que a taxa de natalidade diminui ano após ano, a cidade da Baixa Saxónia, com cerca de 35 mil habitantes, é uma clara exceção. O conservadorismo pode ajudar a explicar, mas também há a vertente económica: a região é uma das mais dinâmicas no país.

▲ Große Straße, a principal rua de Vechta

Nem todos em Vechta adoram a CDU, ainda assim. Klara Fassbinder, de 23 anos, confirma que não vai votar na CDU. Reconhece, ainda assim, que na cidade de 35 mil habitantes “as pessoas são conservadoras”: “É uma cidade pequena, as pessoas têm um emprego para a vida toda e estão confortáveis. Os meus pais adoram o partido, por exemplo, mas eu não”. “Sou de esquerda”, indica ainda a estudante que se deslocava esta quinta-feira para a universidade. Em quem vai votar “ainda não sabe”, mas tem duas certezas: “Não vai ser na CDU, nem no SPD. Estou indecisa sobre em quem votar”.

No desenho da sua campanha eleitoral, Friedrich Merz decidiu incluir no roteiro uma cidade que está ganha quase à partida. Porém, os cerca de cem manifestantes contra o evento da CDU que estavam à porta do Rasta Dome revelam que o líder da CDU tem vozes críticas, mesmo em bastiões. Perto do pequeno palco montado à porta do salão multiusos, estava um grande cartaz azul com a seguinte inscrição: “AfDCDU. Qual é a diferença?” Havia outro em inglês que dizia “Shame on CDU”. Uma jovem com um microfone insurgiu-se contra a “normalização” que o candidato a chanceler tentava dar à extrema-direita. E recordava as polémicas de um político provocador.

Confiante, carismático, mas polémico. O “brilhante orador” Merz com tendência para polémicas — que o aproximam da AfD

O salão multiusos de Vechta estava praticamente cheio, havendo poucas cadeiras vazias. Perto das bancadas onde costumam estar sentados adeptos da equipa de basquetebol da localidade, os placards azul-turquesa continham o logotipo da CDU. Nas centenas de cadeiras em frente ao palco, estavam cartazes de apoio ao partido — uns com a inscrição “Team Merz”, outros com a frase “vamos avançar novamente”. Os assentos perto da mesa onde estavam os jornalistas ficaram reservados para a Junge Union, a jota da CDU/CSU que animava o espaço e que aplaudia com particular intensidade.

▲ Junge Union, a juventude da CDU/CSU, marcou presença no evento

Antes de Friedrich Merz entrar no salão multiusos, ainda houve tempo para duas mesas redondas sobre o futuro da Baixa Saxónia, dois vídeos sobre a campanha da CDU e para as cheerleaders. O evento começou às 19h00 exatas — tal como estava programado —, mas o candidato a chanceler apenas apareceu cerca de 30 minutos depois. E foi recebido de forma apoteótica. Percorrendo o campo de basquetebol rodeado da sua equipa de segurança, mas tentando sempre furar a bolha apertando a mão aos apoiantes, o líder da CDU mostrava estar no seu habitat natural.

O candidato a chanceler aparentava adorar toda a atenção que estava a receber. Quando chegou ao palco, recebeu um forte aplauso da plateia, ouvindo-se gritos de “Merz” e “chanceler”. O líder da CDU agradecia. Quando começou o discurso, Friedrich Merz dominava os tempos, sabia como entusiasmar a audiência e como a galvanizar. Falando de temas como a burocracia, a União Europeia, a digitalização, o responsável partidário, soube manter a atenção da plateia.

▲ As cheerleaders que animaram o evento em Vechta

O carisma e o àvontade de Friedrich Merz são inegáveis. “É um brilhante orador”, corrobora o canal de televisão ZDF. Contudo, há momentos em que o candidato pela CDU, seja por se entusiasmar, seja por uma estratégia deliberada, pisa o risco, ganhando a fama de ser um enfant terrible dentro do partido. Por exemplo, chegou a dizer que os refugiados ucranianos fugidos da guerra iam fazer “turismo social” à Alemanha. Ou que as crianças árabes se portam como “pequenos paxás” nas salas de aulas. Ou mesmo que os requerentes de asilo “vão ao dentista consertar os dentes e os cidadãos alemães não conseguem marcar uma consulta”.

O candidato a chanceler pela CDU não esconde uma certa tendência para o populismo e para o aplauso fácil, principalmente no tópico das migrações. Depois, acaba por recuar e pedir desculpa, como aconteceu com a questão do “turismo social” dos refugiados ucranianos. “Se as minhas palavras foram ofensivas, então peço sinceramente desculpa”, retratou-se Friedrich Merz no X após esta polémica. Parte do partido fica irritado com estas atitudes e os críticos não esquecem estes episódios, gerando uma desconfiança.

Na manifestação à porta do Rasta Dome contra o comício da CDU, outro grande cartaz lembrava as polémicas que ensombram Friedrich Merz: “O que veio fazer ‘o pequeno paxá’ Merz a Vechta? Veio como turista social, ou precisa de uma consulta no dentista?” Dentro do salão multiusos, um dos momentos mais aplaudidos aconteceu quando o candidato a chanceler mostrou o seu tom mais populista e se indignou contra aqueles que recebem subsídio de desemprego durante vários anos: “Há pessoas que dizem que não lhe apetece trabalhar. Temos de lhe dizer: ‘Okay, não vais trabalhar, mas não podes esperar que a população alemã te vá sustentar'”. 

▲ Cartaz com crítica a Merz por conta das suas polémicas

Alguns politólogos desconfiam que este estilo mais controverso serve para mimetizar o discurso da Alternativa para a Alemanha — e roubar-lhe votos. Se isso até pode cativar alguns eleitores, a imagem geral que fica é que o centro-direita alemão se distancia dos seus valores e de uma postura moderada. Em Vechta, no entanto, Friedrich Merz garantiu que “não quer nada com aquelas pessoas” — dito de forma quase pejorativa e com alguma superioridade — da AfD.

“Eles querem a Alemanha fora da União Europeia, fora da NATO, fora do euro. Querem correr para os braços de Putin, ao mesmo tempo que organizam marchas pela paz e pela liberdade. Não, senhores e senhoras, isso é o oposto do que temos feito nos últimos 75 anos. É contrário à história do meu partido com 80 anos de história”, declarou Friedrich Merz em Vechta. “Quero que este partido tenha um futuro. Que se mantenha no centro da nossa sociedade, do nosso país e que adote políticas com sucesso, como temos feito nos últimos 75 anos.”

A CDU de Merkel ficou no passado. Agora é a CDU de Merz

Se Friedrich Merz está preocupado com o futuro do partido, parece ignorar o passado mais recente, em particular o relacionado com o da antiga chanceler que, desde que saiu do cargo, se tem remetido a um voto de silêncio, sendo que muito raramente comenta sobre política alemã ou sobre o partido que liderou durante anos. Porém, Angela Merkel fez questão de criticar publicamente — por duas vezes — o seu sucessor. A ex-líder germânica condenou a aproximação da CDU à AfD na questão migratória, depois de Friedrich Merz ter aberto a porta a uma aliança com a extrema-direita numa proposta no Parlamento que previa o endurecimento da política migratória.

epaselect epa10000934 Former German Chancellor Angela Merkel during 'So what is my country?' conversation with Alexander Osang at the Berliner Ensemble in Berlin, Germany, 07 June 2022.  EPA/FILIP SINGER

▲ Merkel criticou durante a campanha eleitoral Merz

FILIP SINGER/EPA

“Acho errado vincularmo-nos a uma proposta com os votos da AfD”, criticou Angela Merkel numa nota no seu site oficial no final de janeiro. Dias mais tarde, a ex-chanceler explicou aos jornalistas que não se sentia bem em “ficar calada” diante de uma “situação tão crucial” na política alemã, voltando a defender que a política migratória de braços abertos adotada desde 2015 “não foi um erro”.  Se estas declarações a poucas semanas das eleições federais irritaram o impulsivo Friedrich Merz? É quase certo. Porém, o líder da CDU decidiu não ripostar.

Cumprindo quase sempre o voto de silêncio a que se propôs, Angela Merkel raramente teceu um elogio ao seu sucessor. Apenas concedeu que tem uma “fome incondicional por poder” — o que é útil para quem quer ser chanceler. Sob a batuta de Friedrich Merz, as feições da CDU alteraram-se inevitavelmente. E não é só o estilo provocador e mordaz do atual líder que é distinto. Ideologicamente, o partido deixou o centro político e deslocou-se mais para a direita. 

Ouvidos pelo Observador, vários especialistas em política alemã concordam que a CDU alterou o seu posicionalmento ideológico. “O objetivo de Merz ao tomar o controlo da CDU após a derrota dos democrata-cristãos nas eleições em 2021 consistiu em preparar o partido para as próximas eleições e dar-lhe novas feições após Merkel”, diz ao Observador Lidia Gibadło, membro do think tank Center for Eastern Studies, aclarando: “Ao contrário de Merkel, Merz representa a ala mais conservadora do partido e esta viragem é evidente”.

▲ Apoiantes em Vechta com cartazes

Católico, advogado, cosmopolita, pai de três filhos e nascido numa família respeitada da Renânia Norte-Vestefália. O perfil não podia ser mais distinto de uma Ossi, sem filhos, evangélica e doutorada em química quântica. Ao longo dos 19 anos que esteve à frente dos desígnios alemães, Angela Merkel moderou a CDU e silenciou as vozes mais conservadoras. Segundo Philipp Adorf, professor de Sociologia Política na Universidade de Bonn, Friedrich Merz continua a querer que a União Democrata-Cristã “seja uma opção” para o eleitorado centrista.

Não obstante, “ao mesmo tempo, reforça um perfil claramente conservador em política migratória e económica. Isso é certamente uma rutura com as políticas de Angela Merkel, que teve muito cuidado em manter o partido o mais moderado possível”, prossegue Philipp Adorf, em declarações ao Observador. No discurso em Vechta, Friedrich Merz demonstrou por várias vezes orgulho no passado “nos 75 anos no partido”, mas nunca mencionou o contributo da ex-chanceler.

Não é só Friedrich Merz que dentro da CDU parece quer eliminar o legado de Angela Merkel. Ao Observador, Marco Bitschnau, professor de Sociologia Política na Universidade de Konstanz, refere que a antiga chanceler está a ser bastante criticada, mesmo entre a base eleitoral democrata-cristã. “A guerra na Ucrânia revelou equívocos na política externa de Merkel”, exemplifica o docente universitário, aludindo à dependência do gás russo. Adicionalmente, o “facto de a antiga líder se ter distanciado do partido desde o fim do mandato (e ter criticado Merz) causa descontentamento”.

▲ Sede da CDU em Vechta

E este descontentamento vai mais além do que as fileiras democrata-cristãos. Mesmo entre os restantes eleitores alemães, o legado que Angela Merkel deixou após 19 anos enquanto chanceler está a ser cada vez mais questionado. Lidia Gibadło refere que as “consequências negativas das suas políticas em relação à China e à Rússia, à política energética e às políticas migratórias” podiam ser uma desvantagem para a CDU nestas eleições federais. Daí a necessidade de Friedrich Merz querer também desejar “distanciar-se” da antecessora.

A questão migratória é, para Philipp Adorf, a que mais prejudica a imagem coletiva dos alemães sobre os mandatos de Angela Merkel. “O eleitorado alemão está agora muito mais crítico sobre a questão migratória do que há uma década e é cada vez mais a favor de limitar o número de pessoas que entram na Alemanha. O feito mais marcante do legado de Merkel foi aceitar a entrada de refugiados no verão de 2015. Foi compreensível do ponto de vista humanitário, mas representou desafios consideráveis para o país e, ao mesmo tempo, deu força à AfD.”

Tendo já sido confrontada por ter criado um terreno fértil que sustentou o crescimento da Alternativa para a Alemanha, Angela Merkel rejeitou essa possibilidade. “Quando saí do cargo, a AfD tinha 11% dos votos. Não é mais a minha responsabilidade o facto de que agora está nos 20% [nas sondagens]”, defendeu-se.

"O eleitorado alemão está agora muito mais crítico sobre a questão migratória do que há uma década e é cada vez mais a favor de limitar o número de pessoas que entram na Alemanha. O feito mais marcante do legado de Merkel foi aceitar a entrada de refugiados no verão de 2015. Foi compreensível do ponto de vista humanitário, mas representou desafios consideráveis para o país e, ao mesmo tempo, deu força à AfD"
Philipp Adorf, professor de Sociologia Política na Universidade de Bonn

Em Vechta, o bastião da CDU, o legado de Angela Merkel é visto de forma mista. “Fez muito pelo país”, defende Gertrud Günther, que diz mesmo “admirar” a política: “Com Merkel, estávamos melhor. Nunca estivemos tão bem. A Alemanha era um país forte e havia ordem. Com Scholz, tudo mudou para pior”. O marido concorda que foi uma “boa líder”, mas lamenta “alguns erros que cometeu no final do mandato”, como, por exemplo, “ter incentivado uma forte dependência energética da Rússia”.

Foco na imigração, economia e defesa. O futuro de Friedrich Merz como chanceler

O percurso de Friedrich Merz na CDU foi igual ao de muitos membros. Pertenceu à juventude, foi para o Parlamento Europeu, foi eleito para o Parlamento alemão, onde chegou a ser líder parlamentar dos democrata-cristãos. Porém, os críticos apontam que, apesar de ser um veterano, o líder partidário nunca assumiu nenhuma tutela em nenhum governo. Os cargos políticos que assumiu foram sempre a solo — e existe uma incógnita sobre como articulará um executivo.

Se existem dúvidas sobre a maneira como liderará um governo e o articulará, as prioridades estão bem definidas. Friedrich Merz vai apostar na política migratória e na economia, realçando que são assuntos urgentes para serem resolvidos. “Senhoras e senhoras, se não formos capazes de resolver esses dois problemas, os problemas económicos e migratórios, então nas próximas eleições federais em 2029 não haverá mais Estado de direito na Alemanha”, alertou o líder da CDU no seu discurso em Vechta. “Os populistas de direita vão finalmente celebrar a sua vitória e tornar-se-ão tão fortes que não seremos capazes de fazer nada.”

▲ Merz no palco em que discursou em Vechta

Os dois principais focos internos passarão por endurecer a política migratória, ao mesmo tempo que se fará tudo para melhorar os indícios económicos na Alemanha, país que está em recessão há dois anos. Mas, por força das circunstâncias, haverá outro tópico que entrará inevitavelmente na agenda de Friedrich Merz: a defesa e a guerra na Ucrânia. “Merz defende o vínculo transatlântico, é um europeísta convicto e um forte apoiante da Ucrânia”, descreve Marco Bitschnau, que acredita que o chanceler vai fazer tudo para que exista uma forte coordenação entre os aliados europeus no apoio à Ucrânia.

Contudo, antes de Friedrich Merz pôr em marcha os seus planos para o futuro da Alemanha, há uma questão que vai ter de resolver: com quem vai governar. As sondagens apontam que a CDU vai ganhar as eleições com uma vantagem de dez pontos percentuais face ao segundo classificado, mas não será suficiente para alcançar uma maioria absoluta. Aritmeticamente, e excluindo à partida a AfD, existem duas opções: ou um bloco central com o SPD (o cenário mais provável), ou uma coligação improvável com Os Verdes.

“Até onde Merz vai ser capaz de implementar o programa eleitoral dos democrata-cristãos vai depender em larga medida do desfecho das eleições e do parceiro de coligação com quem vai formar governo”, nota Lidia Gibadło. A mesma opinião tem Philipp Adorf, que considera que, em termos económicos, será mais possível chegar a um acordo do que propriamente na questão migratória. “Um acordo sobre política migratória pode tornar-se significativamente mais difícil, já que o SPD e os Verdes não estão dispostos a apoiar medidas restritivas.”

"Até onde Merz vai ser capaz de implementar o programa eleitoral dos democrata-cristãos vai depender em larga medida do desfecho das eleições e do parceiro de coligação com quem vai formar governo"
Lidia Gibadło, membro do think tank Center for Eastern Studies

Na Ucrânia, ainda que os três partidos sejam a favor de uma “paz justa” para Kiev, também podem surgir discordâncias, em particular com o SPD de Olaf Scholz. “A CDU é uma forte apoiante da Ucrânia e quer fornecer mais ajuda militar — uma questão na qual o SPD tem sido um travão nos últimos anos”, refere Philipp Adorf. Apesar de serem um partido que se assume pacifista, Os Verdes podem surgir como um aliado natural de Friedrich Merz nesta questão, já que pretendem um reforço do apoio militar à Ucrânia.

Merz. “Arrogante” e polémico, mas melhor do que Scholz

Independentemente da coligação que possa surgir, o início de Friedrich Merz enquanto chanceler não será fácil. Os barómetros que têm saído recentemente mostram que não é um político propriamente popular. Mesmo que até seja considerado o mais competente para desempenhar o cargo de chanceler, os alemães não têm uma boa opinião sobre o líder da CDU, o que leva a uma questão: será o candidato a chanceler do centro-direita apenas a opção menos má entre todas as outras no boletim de voto?

Em Vechta, o Observador ouviu dois desses exemplos. Friedrich Franzke tinha saído do trabalho como engenheiro agrónomo e ainda tinha o colete amarelo vestido, quando destacou que é um “liberal”. “Sou menos conservador do que a maioria da CDU”, assume junto a um colega de trabalho que preferiu não falar com o Observador no centro da cidade, acrescentando que votou em 2021 no Partido Liberal Democrático (FDP, sigla em alemão). “Mas não vou fazer isso agora. Não voto em partidos que se aliaram aos Verdes, que não servem para nada e apenas defendem políticas ecologistas sem sentido.”

▲ Merz no final do evento em Vechta

Vai votar então na CDU? “É muito provável que sim”, refere o homem de 36 anos, que reitera que não lhe agrada em particular a agenda mais “conservadora” de Friedrich Merz. “Parece-me ser uma pessoa preparada para assumir o cargo, mas o facto de ser tão conservador deixa-me um pouco desconfiado. Espero que se foque na economia e não tanto em assuntos sociais.”

Por sua vez, Viviane Emil, que foi na tarde desta quarta-feira buscar a filha à escola em Vechta, afirma que não “adora nenhum partido”. “Votei algumas vezes na CDU, mas, nas últimas eleições federais, votei em Olaf Scholz. Sentia que o país precisava de uma mudança. Mas sinto-me desiludida com a mudança. Vou confiar novamente na União”, conta a mulher de 32 anos ao Observador. Em Vechta, os sinais de desagrado com a governação do chanceler são bem visíveis; por exemplo, um cartaz com a cara do líder germânico foi vandalizado.

Questionada sobre a sua opinião sobre Friedrich Merz, a mulher conta que não “a convence” totalmente. “É experiente e toda a gente sabe como ele é”, elogia por um lado. Por outro, assume que tem a ideia de que é um “político arrogante e demasiado autoconfiante”. “É a perceção que tenho dele. Não é muito próximo das pessoas, é um pouco fechado na sua bolha”, sinaliza.

▲ Cartaz de Olaf Scholz vandalizado em Vechta

Essa sensação de distância e de arrogância em relação à grande maioria dos eleitores alemães deve-se ao facto de ser milionário e até de ostentar — um dos seus hobbies consiste em pilotar aeronaves e tem um jato particular. Porém, Friedrich Merz rebate essas acusações, apesar de ter admitido que ganha um milhão de euros brutos por mês. O líder da CDU recusa pertencer à “classe alta”, mas sim à “classe média alta”, argumentando: “Para mim, o meio social não é um fator puramente económico. Aprendi com os meus pais os valores que caracterizam a classe média: trabalho duro, disciplina, decência e respeito”.

Para essa sua fortuna, contribuiu o facto de, além da atividade parlamentar, Friedrich Merz ter tido dezenas de trabalhos paralelos enquanto consultor e advogado. O líder da CDU garantiu que nunca misturou os dois ramos da sua vida profissional e que nunca beneficiou nenhuma empresa privada para a qual trabalhou, mas a generalidade dos alemães mantém uma certa desconfiança sobre a origem da sua fortuna.

Controverso e não muito querido pelos alemães, Friedrich Merz deverá alcançar o sonho eclipsado durante anos por Angela Merkel. A sua determinação e confiança em si mesmo levá-lo-á muito provavelmente ao cargo de chanceler, no qual deseja recuperar a “grandeza” da Alemanha. Em Vechta, no final do discurso, o líder da CDU deixou essa promessa, bem ao seu estilo expansivo: “Aqueles que constantemente dizem que não é possível ser otimista no nosso país… Tenho uma mensagem para eles: o copo não está meio vazio, está meio cheio”. 

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