É dos prédios mais vistosos e instagramáveis da Praça do Príncipe Real. Bem no meio da agitação da cidade, onde turistas e residentes se misturam e é possível ouvir todos os idiomas e sotaques, Maria Álvarez Garcia, a filha mais velha da designer espanhola Purificación Garcia, fez o seu lar. O T3 com terraço tem janelas grandes que deixam entrar a “luz tão bonita” de Lisboa, num espaço que Maria chama de casa há cinco anos, quando se mudou de Londres para viver na capital portuguesa, e numa cidade que já a atrai desde 2005, quando a irmã mais nova, Soledad, fez Erasmus na Universidade Católica por quatro meses.
O espaço é minimalista, mas acolhedor. Na parede de frente para o sofá, em destaque, está um quadro do artista e escultor catalão Jaume Plensa, um presente da mãe e da irmã para o aniversário de 40 anos de Maria. Mas também apoiada na parede está uma guitarra, que sai do lugar durante as visitas de um dos irmãos por parte de pai, vindo do Uruguai. Atrás do sofá eleva-se uma grande estante que mistura livros — em que moda é o tema dominante — com as fotografias ao lado dos irmãos e pais. O convívio em família, assumem as irmãs, é parte central na suas vidas — seja em casa ou nas muitas viagens em redor do mundo, inspiradas por aquilo que Purificación Garcia lhes ensinou. Em Lisboa as rotinas também passam pela praia — a Costa da Caparica é a preferida — além dos restaurantes, clássicos e modernos, principalmente entre o Chiado e o Príncipe Real. Maria assume-se “feliz” em Lisboa, onde tem planos de comprar casa (quer mudar-se para Marvila) e onde também administra um fundo de investimentos imobiliários. Com a irmã tem ainda uma gelateria na Praça das Flores (e outra recém aberta no Pestana CR7), e é uma das co-fundadoras da Lonbali, marca de carteiras espanhola conhecida pelo padrão que é sucesso entre as influencers.
▲ A decoração do apartamento de Maria Álvarez privilegia as memórias afetivas, que decoram a grande estante minimalista na sala de estar
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O desenho, afinal, também tem inspiração lisboeta, confessa Soledad, que é a diretora criativa da marca fundada com Maria e com o irmão mais novo, Marc Caballé Garcia. Maria é advogada fiscalista, estudou economia e sempre trabalhou no mercado financeiro, enquanto Soledad vem da área da comunicação, tendo feito a carreira em publicidade. “Nunca estudei moda, de facto aprendi sozinha, acho que vem um pouco de família“, confessa a também criadora da Sayan, especializada em vestidos de festa e noite, com produção na Índia, com bordados, sedas e tintas naturais. Já Marc, o irmão mais novo, estudou administração de empresas e, segundo as irmãs, tem um “perfil mais analítico”. O nome da marca veio das cidades onde viviam os três na altura: Londres, Barcelona e Bali. Nove anos depois, o objetivo é crescer para Portugal. Os irmãos estão de olho num espaço no El Corte Inglés de Lisboa — o mesmo centro comercial onde, em Madrid, a rainha Sofía esteve a comprar três carteiras Lonbali. “Disseram-me: ‘Acabou de vir a rainha Sofia, levou três carteiras, é encantadora'”, conta Soledad, que diz que envia peças às filhas de Felipe VI e Letizia, numa altura em que as shopping bag se têm tornado populares entre o público mais jovem. Agora preparam-se para, em outubro, lançar uma nova linha premium, a Lonbali Eterna, com pele 100% feita em Alicante, no sul de Espanha, e preços mais elevados. As novas carteiras devem ser apresentadas às influencers portuguesas (sempre com foco no mercado digital) e à imprensa em setembro, quando a marca pretende fazer pop-ups de uma a duas semanas em Lisboa.
Entre uma reunião e outra de Maria e durante uma visita de dois dias à Lisboa de Soledad, as filhas de Purificación Garcia receberam o Observador no apartamento no Príncipe Real e falaram das rotinas em Lisboa, das inspirações de moda e decoração, dos negócios atuais e dos planos para o futuro.
▲ Soledad, à esquerda, e Maria, à direita, no apartamento de Maria no Príncipe Real, em Lisboa
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Qual é a vossa relação com Lisboa?
Soledad Álvarez Garcia: Em 2004 vim para estudar. Estive na Universidade Católica de Lisboa, em Erasmus, por quatro meses e gostei muito, muito, muito. Encantei-me, fiquei apaixonada por Lisboa e Portugal. A cidade é um espetáculo de contrastes, tem história, o idioma português é uma maravilha. E depois os arredores, as praias, a costa de Portugal que são preciosas. E Maria, a minha irmã mais velha, estava a viver há 15 anos em Londres e, justamente com a saída do Brexit, decidiu mudar-se para Lisboa, há 5 anos. Costumo vir a Lisboa a cada dois ou três meses.
Maria Álvarez Garcia: A qualidade de vida é incrível. Posso caminhar para todos os lugares, tenho tudo por perto. O meu estúdio de pilates e o meu escritório são muito próximos. E o facto de em 15 minutos estar na praia ou nas montanhas é algo raro nas cidades. Sou de Barcelona, e para mim Lisboa é a cidade mais parecida com Barcelona em toda a Europa. Adoro como as pessoas são acolhedoras com o expatriados que vêm para cá. E também está a atrair profissionais qualificados de todas as áreas. Há muitos artistas, investidores, empresas startups. A comunidade internacional de profissionais altamente qualificados está a crescer e desenvolver novos negócios, e este é outro motivo para gostar de viver cá.
Como é um dia nas vossas vidas em Lisboa?
SAG: Vou muito para a Costa de Caparica, porque a minha irmã gosta muito. Depois, há muitos fins de semana em que vamos à Comporta. Ficamos num hotel muito pequenino, muito bonito. Vamos para lá descansar e adoro, é uma maravilha. As praias aqui são incríveis. E depois a cidade, o centro de Lisboa. Faço desporto, jogging ou yoga, depois vamos às compras pelo centro, e por fim ficamos muito aqui em casa tranquilos em família.
MAG: Aos sábados tomo sempre o pequeno-almoço na Fábrica. Adoro ir ao mercado do Príncipe Real, onde podemos comprar flores lindas e a qualidade dos produtos é incrível. Os vegetais e o pão são ótimos. Depois vou treinar no Core Collective ou no Amplify, adoro os ginásios cá. Provavelmente o Club 7 é dos ginásios mais bonitos que já vi. É um privilégio trabalhar no meio do parque. Sinto-me no meu lugar feliz, tenho muitos amigos portugueses, expatriados, Lisboa é o meu lar.
SAR: E não sei se os portugueses já se deram conta, mas Lisboa está muito na moda!
Têm restaurantes preferidos nas redondezas?
SAG: Quando fiz Erasmus gostava muito de ir a um restaurante perto do Lux, o Bica do Sapato. Íamos muito ao sushi. Soube que vai reabrir, quero voltar lá. Lisboa está muito na moda, há muitas pessoas cool a vir. É como Barcelona, é uma cidade que, no final, o estrangeiro traz coisas novas também, e acho importante.
MAG: Costumo ficar perto da Praça das Flores, e adoro o Magnolia e o Bar Alimentar. Às vezes vou ao bar do JNcQuoi, no andar de baixo, para comer sozinha, onde há sempre pessoas muito interessantes. Também gosto muito do Da Noi e do Sem. Há muitos restaurantes e cafés que são incríveis. Tenho a tendência de comer simples, adoro peixe e aos fins de semana vou à Caparica e só como peixe grelhado. Também adoro Bacalhau à Brás. Há muitas opções em Portugal, principalmente comida fresca, e a qualidade da comida é parecida com a de Barcelona.
▲ Os móveis do apartamento vieram do flat de Maria em Madrid
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O que fez a Maria escolher este apartamento aqui no Príncipe Real?
MAG: Desde que me mudei para Lisboa sempre vivi aqui. Não escolhi a área, mas o apartamento. Queria um pé direito alto, muita luz — porque Portugal tem esta luz tão bonita e queria-a na minha casa. E também trouxe toda a mobília do meu apartamento em Madrid, então foi difícil encontrar um espaço que pudesse receber os móveis que eu já tinha. Quando entrei neste apartamento, apaixonei-me. Todos os meus apartamentos foram sempre iguais e como há muita luz a entrar quis respeitar isto. Acho que a arquitetura é muito focada no branco e não é preciso colocar muito para deixá-lo bonito. Foi remodelado por um famoso arquiteto brasileiro, que fez outros dois apartamentos no mesmo prédio há muitos anos. Tem três quartos e um terraço. Adoraria ter mais espaço aberto e um jardim, mas é muito difícil encontrar isso num apartamento em Lisboa. E sinto que há aqui muita energia. Disseram-me que quando um grupo com o Dalai Lama veio visitar Lisboa, há cerca de 10 anos, ficaram neste prédio. Acho que a energia é super calma em todo o edifício. Porém, provavelmente vou mudar-me no próximo ano. Estou a procurar em Marvila ou nos Anjos, quero comprar e remodelar uma propriedade. Estou a considerar um armazém em Marvila ou Beato, porque gosto destes espaços industriais muito grandes. E acho que a decoração será um pouco diferente, já que estive em muitas casas brancas. A próxima deve ter mais cores inspiradas na terra.
A Soledad opinou em algo na decoração do apartamento?
SAG: Não, ela não me deixa! Só hoje e que me deixou colocar estes vasos na mesa (risos). Temos muita personalidade e muito estilos diferentes.
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Como é o vosso estilo pessoal?
SAG: Sou bastante minimalista, prefiro cores mais neutras, como branco, verde, negro e azul marinho. Ando sempre com ténis, gosto muito de alpargatas, estou sempre muito confortável e prática. A Maria está sempre com saltos altos.
MAG: Em Lisboa costumo andar com sapatos baixos, sempre! Não uso saltos em Portugal, acho que a minha irmã está atrasada neste tema (risos). Mas não uso ténis! Apesar de trabalhar num mundo corporativo, não me visto tanto dessa forma. Toda a vida trabalhei em investimento, evito usar fatos, mas preciso vestir-me formalmente durante o dia, afinal tenho muitas reuniões com bancos, advogados e auditores. E sinto que a forma como me visto dá-me o poder necessário, o girl power. Portanto, durante a semana estou sempre com calças e tops — e neste caso compro muito em segunda-mão, do RealReal ao Vestiaire Collective. Todas as minhas grandes marcas, como Saint Laurent ou McQueen, são de segunda-mão, encontro muitos jumpsuits e vestidos longos de noite. E claro também compro na Zara. Quando viajo gosto de comprar roupas — quando vou à Colômbia compro Johanna Ortiz e gosto muito das marcas brasileiras. E aos fins de semana uso ganga e T-shirt e vestidos longos, já que passo a maioria dos meus fins de semana na praia.
Identificam-se com o estilo das mulheres portuguesas?
SAG: O estilo das portuguesas é muito marcado. Não sei o que se passa, mas com todo o tema das portuguese girls nós fomos uma semana de viagem para Marrakech com algumas influencers portuguesas e quando voltei para Espanha, o escritório inteiro estava a dizer: “Soled, estás transformada! Vens com o estilo português”. Porque andei com cores, padrões com flores, pareo e chapéu… Parece-me muito divertido. Acho que é muito único e diferente. Vemos as influencers portuguesas e sabemos que são portuguesas. Em Espanha também temos perfis de influencers com um estilo português, como a Blanca Miró, que é muito atrevida, mas são poucas.
MAG: Acho que as mulheres vestem-se de forma similar em Portugal e em Espanha. E é por isso que acreditamos que a Lonbali pode fazer sucesso cá. Há muitas influencers grandes cá, muito gosto pela moda. Muitas marcas espanholas fizeram sucesso, desde o grupo Inditex à Scalpers, Purificacion e Carolina, todas têm Portugal como um dos principais mercados depois de Espanha. Estamos a tentar entrar no El Corte Inglés de Lisboa, que é dos mais difíceis de conseguir, todos querem estar lá e há espaço limitado. A nossa primeira opção é um espaço próprio no El Corte Inglés. Mas também estamos a procurar em outros centros comerciais, como o Colombo, Amoreiras e Cascais Shopping, ou nas zonas do Chiado e Príncipe Real.
SAG: Estávamos na loja da Fernanda Velez, aqui no Príncipe Real, há cerca de um ano. Agora a ideia é, pouco a pouco, introduzir a marca no país e poder abrir uma loja própria. Estamos a procurar um espaço. Portanto agora não temos ponto de venda físico, mas as compras online levam entre 24 a 48 horas para chegar. A ideia é, em setembro ou outubro, fazer algum evento com a imprensa e com as influencers, para apresentar também uma nova linha premium, e começar a fazer pop-ups de uma a duas semanas.
▲ Além da Lonbali, Soledad é sócia da irmã nas gelaterias Giola, em Lisboa, e tem uma marca de roupas chamada Sayan
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A Soledad usa Lisboa como inspiração para as criações da Lonbali?
SAG: Procuro sempre inspiração nas minhas viagens. Viajamos muito, sempre, algo que a minha mãe sempre nos educou. Mais do que ter uma casa residencial de verão ou de inverno, a prioridade sempre foi viagens em família, conhecer outras culturas, outros países. E aqui em Lisboa inspiro-me muito nas fachadas dos edifícios. Tenho muitas fotos e fizemos um padrão que vem dos azulejos. Há certos edifícios, perto de onde temos a gelateria, na Praça das Flores, com azulejos maravilhosos.
O que as motivou a abrir a gelateria?
MAG: Há ano abri esta gelateria, chamada Giola, na Praça das Flores. Gosto de gelado desde criança, é a minha sobremesa preferida. E senti falta de uma boa gelateria no centro de Lisboa, que tivesse esta experiência para o cliente, com um espaço bonito e as embalagens bem feitas. Há muitos bons gelados nos arredores, mas faltava este cuidado com a experiência do consumidor. Equipa sorridente e de bom humor a toda hora. E esta é a nossa marca. E temos sabores novos todas as semanas. Acabámos de abrir uma nova loja no hotel Pestana na Rua do Comércio. Estão a mudar os conceitos dos hotéis e queremos fazer parte deste momento de revigoração da rede Pestana. A loja é muito maior e tem sabores exclusivos, estamos a trabalhar num sabor de chocolate do Dubai e outros que são tendência, por ser uma área mais turística.
▲ Maria Álvarez administra um fundo de investimentos imobiliários em Portugal e confessa que é em Lisboa "que se sente em casa"
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Considerando que vivem em cidades diferentes, como tem sido o vosso envolvimento na Lonbali?
SAG: Sou responsável pela parte criativa e toda a parte de direção artística, marketing e comunicação, incluindo produto e desenho. Mas a verdade é que nos primeiros anos, toda a gente opinava em tudo. Agora temos conseguido que cada um fique nos seus departamentos, não nos metemos no campo do outro. Temos conseguido opinar sem magoar, com muito respeito pelo trabalho um do outro. Mas eu adoro que opinem, às vezes até entro com uma ideia e saio com outra. O que acontece é que, no final, todos querem ser designer. Vê-se uma coisa e diz-se: ‘deverias ter feito assim’. E então digo: ‘olha, opinar quando já está feito é outra coisa. Tem que opinar quando não está feito.’ Mas a verdade é que agora estamos muito bem, temos uma boa relação.
MAG: Sou uma das co-fundadoras, junto com os meus dois irmãos. Comecei com eles há nove anos e estava totalmente envolvida nos primeiros anos. Mas deixei de estar presente diariamente em 2020, quando me mudei para Portugal. Agora faço parte do Conselho Diretivo e fico atenta às nossas estratégias. Estamos a abrir novos mercados no México e Chile, e quero trazer a marca também para Portugal. Este é o meu papel atualmente na Lonbali. Aqui em Portugal também administro um fundo de investimentos imobiliários, temos 35 milhões de euros em administração atualmente, e o que fazemos é comprar condomínios com problemas financeiros ou que não tinham gerações para continuar o negócio. Basicamente remodelamos e reposicionamos o negócio hoteleiro. No ano passado abrimos o nosso primeiro grande negócio, chama-se Masana, no Algarve. E também tenho viajado muito para o México, onde tenho um projeto social. Comprei uma fábrica de biscoitos que estava a empregar cerca de 70 pessoas e tinha mais de 40 anos de existência mas estava a falir. Comprámos para a relançar com novos produtos, novo marketing, e agora vamos começar a produzir pequenos-almoços especiais, saudáveis, para crianças das escolas públicas. Passo cerca de quatro meses por ano no México, mas sempre que estou lá penso que quero voltar para Lisboa. Sou muito feliz cá.