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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ajuste de contas com o chatismo e um "prove que vale mais" que pesa nas costas de Mariana Leitão. Rui Rocha sai sem deixar nada por dizer

Rui Rocha falou antes de Mariana Leitão apresentar a moção que fará dela a próxima líder da Iniciativa Liberal. Falou para dentro, pediu mudanças e sai para que o partido prove que vale mais de 5%.

Rui Rocha esteve calado desde o dia em que saiu, mal se justificou após a demissão e aproveitou o peso que agora lhe sai dos ombros para, no discurso final como líder da IL, não deixar nada por dizer. Jurou que nunca foi moderado (e que arriscou), que tomou a decisão de sair sozinho e não empurrado por “vozes relevantes”, deixou uma enxurrada de recados internos e uma pressão gigante para quem se segue: “prove” que o partido vale mais do que os resultados que tem tido.

É um dos maiores dilemas e enigmas da IL e já levou à saída de pelo menos dois presidentes: os liberais prometem muito, ambicionam mais, sonham influenciar e acabam sempre com resultados que ficam aquém das expectativas. Feita a avaliação, Rui Rocha assumiu que falhou os resultados estabelecidos pelo partido, pelo próprio e decidiu dar um “passo ao lado”, crente de que é preciso tirar a dúvida: o teto dos 5% é do partido ou do presidente?

Aos olhos do liberal que agora abandona o mais alto cargo do partido, só há “uma maneira” de saber: “O presidente dar um passo ao lado e permitir que o partido prove que vale muito mais do que esses 5%.” Na passagem de testemunho, que entrega à sua até agora vice-presidente, coloca o patamar mais elevado — e aumenta a pressão aos muitos que seguem da sua direção para a seguinte.

Rui Rocha aproveitou a oportunidade para deixar tudo em pratos limpos, desde logo no que à decisão de se demitir diz respeito. Não esquece as “vozes relevantes” que falaram sobre os resultados eleitorais, enquanto assegura que essas vozes foram “absolutamente irrelevantes” para a decisão final. Entre esses liberais está certamente João Cotrim Figueiredo, que no rescaldo das legislativas considerou o resultado “mau” e assumiu que a liderança poderia estar em causa, mas Bernardo Blanco também chegou a criticar a colagem da IL à AD durante a campanha eleitoral.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

No fim do percurso — “uma honra que não [vou] voltar a ter na vida”, com garantias de que não tem disponibilidade para “qualquer tipo de função em órgãos de partido, atividade ou qualquer outra coisa, a menos que aconteça uma desgraça” — deixou recados internos contra “chatismos” e “sebastianismos”.

Dizendo que não se quer meter na estratégia futura do partido, mas tendo em conta que parte da vida interna da IL se passa em chats em aplicações de conversação, Rui Rocha entende que é preciso um “combate ao chatismo” — não por muitos serem “chatos”, mas por todos usarem o “chat” abundantemente. “Dedicamos muito tempo a publicar em chats. (…) Não estou a dizer que as pessoas não façam 15 mensagens seguidas nos chats. Estou só a propor que continuem a partilhar essa visão, essa sabedoria, essa capacidade, mas por cada 15 mensagens que publicarem nos chats do partido, publiquem um artigo de opinião num órgão de comunicação social”, desafia, numa tentativa de promover a colaboração para o bem do partido ao invés do facilitismo que uma mensagem implica. Mais ainda quando é destrutiva.

Quanto ao sebastianismo, uma tentativa de colocar um ponto final nos possíveis e eternos regressos, nunca concretizados, de Carlos Guimarães Pinto ou João Cotrim Figueiredo. Fez notar que os três presidentes da IL “não acabaram os mandatos” e saíram por “motivos diferentes” com um “significado”. “Os três últimos presidentes não querem ser presidentes do partido. Compreendam isso. Se quiserem, dão sinais, mas não passem a vida à espera deles”, avisa Rui Rocha, que tantas vezes foi confrontado com a sombra de Cotrim Figueiredo, vivendo muito na expectativa de como teria sido se o ex-líder estivesse em cada uma das jornadas. Junta-se a eles, aos presidentes que não querem voltar. Pelo menos para esse cargo.

Rocha deixa um partido mais robusto em termos de resultados eleitorais, presente em todos os parlamentos, com mais votos nas legislativas e mais deputados — mesmo que longe da ambição que o fez atirar-se para fora da liderança. Mas não sem antes esclarecer que “nunca foi moderado” em variadíssimos temas. Deu exemplos das negas a coligações pré-eleitorais, o risco quando decidiu ir por Braga nas legislativas e assegurou que nunca foi moderado na “defesa dos interesses do partido”.

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“Podíamos ter 15 deputados na Assembleia da República, podíamos estar no Governo, fomos fortemente pressionados para fazer uma coligação pré-eleitoral em que nos davam aquilo que quiséssemos. E dissemos que não, eu disse que não, porque nunca fui moderado na defesa dos interesses superiores do partido”, esclareceu, aliviado por não fazer parte de um Governo que está a “privatizar a TAP a 49%”.

Sobre o tema, não só disse que é o “negócio mais ruinoso, mais inaceitável e mais perturbador”, como entende que, além de António Costa e Pedro Nuno Santos, também José Luís Carneiro, Luís Montenegro e André Ventura são “caras” do mesmo.

Rui Rocha, como tinha anunciado no dia da saída, mantém o lugar de deputado na Assembleia da República, é candidato à Câmara Municipal de Braga e não vira as costas ao partido. Mas não abandonou a liderança da IL sem deixar avisos para quem achava que os merecia e que complicou a sua turbulenta liderança — sempre com concorrência. Nisso, Mariana Leitão começa com um percurso menos atribulado.

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