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Among Us pode ser descarregado gratuitamente para qualquer smartphone e vendido a cerca de quatro euros para utilização em computador

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Amigos, impostores, bluff e vício: o que faz de "Among Us" o videojogo fenómeno de 2020? /premium

Há alianças secretas, mentira e naves espaciais neste videojogo de ar simples que já chegou a 100 milhões de smartphones e computadores em todo o mundo. Como se explica este fenómeno de popularidade?

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— “Meu, tu andavas sempre a fugir de mim!”
— “Fugir?! Eu achava é que tu estavas a querer matar-me!”

É meia-noite de uma terça-feira normal e um grupo de dez amigos está preso a um ecrã. Ouve-se frequentemente que os videojogos são potenciadores do isolamento e da solidão, mas neste caso não é nada disso que acontece. “Acho que devíamos kickar o ‘Papi’, eu vi-o a sair da vent e a matar o Thugs!”, comenta um dos jogadores. A confusão instala-se: o tal “Papi”  grita a dizer que está inocente e não deve ser “kickado” (em português isto quer dizer “expulso” do jogo em questão); “Fury”, o acusador, jura a pés juntos que o que viu é verdade; “Thugs” não diz nada porque “morreu” e as regras ditam que a partir daí tem de ficar em silêncio. Resultado final? “Papi” acaba expulso e o jogo continua.

O motivo de toda esta discórdia chama-se “Among Us”, o videojogo fetiche do momento, disponível para PC e para smartphones com os sistemas operativos Android e iOS. No total, somou 100 milhões de utilizadores em todo o mundo só em Setembro. “Papi”, “Fury” e “Thugs” são apenas três dos dez rapazes que nessa noite se reuniram para fazer umas quantas rondas deste jogo-fenómeno. Através de uma plataforma digital chamada Discord — que permite que os jogadores em questão possam falar uns com os outros em tempo real — o Observador assistiu a uma hora de jogo que passou (assustadoramente) a correr. O bluff, as intrigas, as mentiras, as jogadas psicológicas e a argumentação deixam qualquer um no mínimo curioso.

Do esquecimento à ribalta

Dez membros de uma tripulação estão presos numa nave espacial e vão fazendo as suas tarefas normais (arranjar problemas elétricos, deitar o lixo fora, destruir asteroides intrusivos,…) de forma a manter funcional a dita nave. Acontece que pelo menos um destes tripulantes é um impostor que quer sabotar o trabalho dos colegas e, se possível, matá-los. Isto parece o enredo base de um filme de ficção científica particularmente sombrio, mas na verdade é o pano de fundo deste “Among Us”.

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[o trailer de “Among Us”:]

Conceptualizado pela empresa de videojogos InnerSloth e materializado por uma equipa de três pessoas, este jogo não é novo, na verdade saiu há mais de dois anos, em 2018, mas nos últimos tempos atingiu níveis de popularidade surpreendentes: além dos mais de 100 milhões de pessoas fizeram download só em Setembro, sabe-se que em média 60 milhões jogam todos os dias (dados da própria InnerSloth) este projeto de ar simples e rudimentar (a forma como as personagens parecem borrões de cor que caminham por corredores estreitos traz à memória o saudoso Pac-Man). Como é que se chegou aqui? É difícil ter a certeza, mas a verdade é que a plataforma online Twitch teve muita culpa nisso.

Como rede social dedicada ao gaming, é comum haver utilizadores que transmitem a partida que estão a jogar em tempo real, via stream. Entre os sites especializados e a comunidade de gamers é praticamente certo que foi precisamente esse Twitch o responsável pelo sucesso de “Among Us”. Apesar do jogo ter passado despercebido durante muito tempo depois de ter sido lançado em 2018 (mesmo assim teve algumas focos de popularidade em países como a Coreia do Sul, o Brasil e o México), este verão, um dos utilizadores mais populares do Twitch catapultou o “Among Us” para a glória. Em julho, o streamer Sodapoppin  mostrou aos seus 2.8 milhões de seguidores o potencial do jogo. Pouco depois, começava a febre.

Os impostores e os membros da tripulação

Há muitas semelhanças entre este “Among Us” e jogos sociais simples como “O Lobo” ou “A Aldeia”, ambos jogados em grupo e com recurso a cartas. No máximo, 10 jogadores podem participar ao mesmo tempo num de três cenários disponíveis, é aqui que tudo começa. Com todos os intervenientes prontos, cada um no seu ecrã — mas unidos via internet num desses mapas virtuais (podem ser reservados só para amigos ou abertos a qualquer pessoa) — a partida arranca e cada um recebe, aleatoriamente, a função de tripulante ou impostor. Os primeiros são os que realizam as tais tarefas — se as fizerem todas, ganham — e os segundos percorrem os corredores a tentar estragar o trabalho dos primeiros.

Os bonecos coloridos de "Among Us" e a forma como se movem nos mapas faz lembrar o "velhinho" Pac-Man

Quando um membro da tripulação descobre um corpo, convoca-se uma reunião e é ai que todos os jogadores podem conversar entre si através de um chat próprio e por um tempo limitado. É durante essa discussão (que pode ser em voz alta se os jogadores utilizarem programas acessórios como o tal Discord que o Observador experimentou) que a equipa tenta descobrir a identidade do(s) impostor(es), comparando álibis e reportando sobre quem estava ou não a agir de forma suspeita. É aqui que as acusações voam, formam-se alianças temporárias e contam-se mentiras descaradas. Alcançado, ou não, algum consenso, segue-se uma votação e alguém acaba por ser atirado para fora da nave e os jogadores descobrem se acabaram de condenar um inocente ou salvaram os seus companheiros de um assassino misterioso.

À medida que o jogo continua, a paranoia aumenta. Os membros da tripulação podem usar câmaras de segurança para espiar os seus companheiros, os impostores podem usar condutas de ventilação para se esgueirarem, insuspeitos, de um lado para o outro, e o clima das reuniões vai ficando cada vez mais tenso. Embora existam objetivos típicos de videojogo a cumprir — os tripulantes podem ganhar se completarem todas as tarefas que lhes foram atribuídas, por exemplo –, o gancho está, curiosamente, nas pessoas que o jogam e não nas personagens ou ambientes. “Among Us” é essencialmente um jogo sobre encenação, matreirice e lábia. O mais fascinante está na forma como os jogadores podem explorar os traços de personalidade dos adversários em seu próprio proveito.

"O carácter social que o jogo tem (joga-se sempre em grupos, quanto mais participantes melhor, etc…) e a tensão que ele envolve (os bluffs, estar atento ao que os outros estão a fazer,...) [...] Ficamos sempre com os nervos à flor da pele e isso é viciante"
Miguel Brito, jogador de Among Us

“Quando dás por isso já são três ou quatro da manhã”

O “Papi” que aparece no início deste texto é na verdade Miguel Brito, de 28 anos. Gamer experiente, foi ele que se disponibilizou para mostrar ao Observador como é que os “pros” vivem este fenómeno, que deixou Miguel algo confuso no início. “A minha reação quando joguei pela primeira vez foi de confusão: ‘O que tenho de fazer?’, ‘O que são as tarefas?’, ‘Como é que isto se joga em equipa?'”, explica. A confusão rapidamente se transformou em interesse e não tardou até começar “a achar muita piada à parte da discussão” com os outros jogadores. “Estamo-nos sempre a rir quando jogamos isto”, remata.

Mesmo estando sempre a par das novidades do mundo dos videojogos, só há um mês é que Miguel deu com este título. “Toda a gente no Twitch estava a jogar isto ou a falar sobre isto e nós [ele e o seu grupo de amigos], que costumamos seguir as coisas que se vão fazendo por lá, começámos a ficar interessados”, conta. A dada altura um dos seus companheiros de partidas comprou o jogo (custa cerca de 4€ na versão para computador e é de download gratuito para smartphones) e começou a evangelizar: “Alguém do nosso grupo disse que tinha comprado o jogo e que estava a gostar muito de jogar. Explicou que isto era como aquele jogo da Aldeia ou do Lobo, que se costuma jogar com cartas e de que eu sempre gostei bastante, e comecei a ficar curioso. Em pouco tempo já todos tínhamos comprado também.”

O jogo tem vários objetivos possíveis: completar as tarefas atribuídas, apanhar o impostor ou matar toda a gente (caso sejamos o impostor)

Para explicar o que distingue este jogo e o porquê do sucesso, Miguel faz o paralelismo com uma telenovela. “Aqui há uns tempos acho que ouvi alguém na rádio dizer qualquer coisa como ‘as pessoas gostam tanto de novelas porque elas permitem viver outras realidades e dramas’. Os jogos, por assim dizer, não têm sempre essa capacidade, mas, neste caso, a parecença é maior, basta ver o carácter social que o jogo tem (joga-se sempre em grupo, quanto mais participantes melhor, etc…) e a tensão que ele envolve (os bluffs, estar atento ao que os outros estão a fazer,…). Ficamos sempre com os nervos à flor da pele e isso é viciante”, admite. Claro que isso já levou a algumas situações mais tensas — “Já vi malta a discutir à séria!” — mas, mesmo assim, nada que no dia a seguir já não se tivesse dissipado. “Isso também dá piada ao jogo”, revela, entre risos.

A comparação com uma telenovela até é pertinente: bastou assistir às primeiras discussões do jogo que Miguel mostrou para perceber que não faltam mentiras, tensão, esquemas e alianças. Ironicamente, a componente humana é o que torna mais apetecível este jogo digital. “A parte social, de juntar um grupo grande de pessoas, discutir e trabalhar em equipa é o que me cativa mais”, afirma Miguel. O interesse é tanto que admite já terem jogado “umas quatro ou cinco horas seguidas”, muito porque “as rondas são relativamente rápidas e nem se nota o tempo a passar, quando dás por isso já são três ou quatro da manhã.”

"Posso dizer que estou viciada. Não jogo assim há tanto tempo e sinto que jogo há imenso. Já fiz uns dez jogos seguidos, quase sempre à noite. Às vezes tenho de me obrigar a parar, se não não saio dali!"
Carolina Pinto, jogadora de Among Us

“Tenho de me obrigar a parar, se não não saio dali”

Num lado totalmente oposto ao de Miguel Brito está Carolina Pinto, de 20 anos. Ao Observador, a jovem confessa que nunca foi “gamer”, o único videojogo a que se dedicou mais foi o antigo “Sims”, que jogava com a irmã oito anos mais velha. Mesmo assim, o “Among Us” “despertou interesse”. Como é que uma rapariga sem nenhuma ligação aos canais e publicações especializadas do mundo do gaming se deixa levar por este fenómeno? A resposta é simples: redes sociais.

“Ouvi falar disto pela primeira no Twitter”, explica. “Toda a gente que conhecia estava a falar disto, a perguntar quem é que queria jogar”, acrescenta. Curiosa para perceber a que se devia tanto alarido, Carolina acabou por instalar o jogo no telemóvel e entrou neste mundo de tripulantes e impostores. “A primeira vez que joguei foi com o meu namorado, jogámos juntos. Ele enviou-me o código de acesso a uma sala privada e finalmente comecei a perceber o que era isto”, conta. Uma partida transformou-se em várias e em pouco tempo Carolina já estava a tentar converter as amigas. “Desafiava-as para instalarem e jogarmos todas”, revela. No “Among Us” é possível criar jogos privados, sempre com 10 pessoas, no máximo, e a jovem começou por preferir esse formato apesar de, com o tempo, descobrir o potencial de jogar em partidas abertas: “A maior parte das vezes jogava com pessoas que conhecia, mas depois comecei a fazê-lo também com desconhecidos. É giro para se conhecer outras pessoas!”

Sempre que um "cadáver" é descoberto ou quando alguém decide lançar uma "reunião de emergência", o jogo pára e todos têm de discutir e decidir se expulsam ou não alguém

Carolina diz que ao jogar mais e mais foi percebendo aquilo que a atraía neste formato — curiosamente, o mesmo que o gamer Miguel. “Gosto muito da interação com as pessoas, sejam elas tuas amigas ou desconhecidos de outros países”, ressalva. “O jogo é super viciante! Começas a jogar uma vez e depois outra, e outra e outra…” As alianças, os bluffs e as combinações vão dando sal a este jogo de aspeto bastante simples (rudimentar, quase), de tal forma que Carolina até admite já ter jogado enquanto estava ao telefone com amigos, para melhor combinarem os esquemas que vão fazendo. Mas o “Among Us” não se esgota aqui. O fenómeno desta criação da InnerSloth é de tal maneira grande que já se criaram páginas de memes inteiramente dedicadas ao jogo — “Também acho engraçado tudo o que se gerou à volta do jogo, sigo várias páginas de memes só sobre o “Among us”, por exemplo!” — e até já há expressões que nasceram aqui e já há quem as use noutros contextos: “Os ingleses usam muito o “sus”, de “suspicious”, para dizer que desconfiam de algum jogador.”

“Among Us” é um jogo que confia no passa-palavra. “Experimentas e dizes a um amigo para experimentar também e jogar contigo; depois ele vai fazer o mesmo com outro amigo, e outro, e outro e assim sucessivamente.” Tudo isto leva Carolina Pinto a assumir, entre risos: “Posso dizer que estou viciada. Não jogo assim há tanto tempo e sinto que jogo há imenso. Já fiz uns dez jogos seguidos, quase sempre à noite. Às vezes tenho de me obrigar a parar, se não não saio dali!”.

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