Olá

835kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Ao balcão, o senhor Carlos vai servindo o pequeno-almoço. Na televisão, as desgraças sucedem-se
i

Ao balcão, o senhor Carlos vai servindo o pequeno-almoço. Na televisão, as desgraças sucedem-se

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Ao balcão, o senhor Carlos vai servindo o pequeno-almoço. Na televisão, as desgraças sucedem-se

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Neste snack-bar fala-se de crime, dos Scorpions e da vida de Betty, mas Europeias nem vê-las

Uma manhã num café do centro de Lisboa, para perceber até que ponto as eleições de 9 de junho são servidas com o café o galão. Não são. Mais rápido chega um copo de três antes de almoço.

São sete e meia da manhã quando entro no snack-bar Pirata, na Rua Morais Soares, à procura de conhecer melhor a Lisboa que amanhece e de sentir o pulso aos Arroios na antecâmara das sempre entusiasmantes eleições europeias.

Ao balcão, o senhor Carlos vai servindo o pequeno-almoço a dois clientes que pela interação silenciosa com o empregado de mesa percebo serem habituais. Uns minutos depois, dois trabalhadores da construção civil entram no café e pedem um dito e um copo de vinho branco, enquanto lamentam um destino que as raspadinhas que sacam do bolso teimam em manter inalterado. Têm ambos o olhar fixo na televisão ao fundo da sala, onde o noticiário anuncia um tiroteio vespertino na Amadora. “Olha, a Amadora”, diz um deles, como se a roleta incessante da informação fosse uma reencarnação dos Jogos sem Fronteiras. “Ah, isso é sempre”, diz o outro, ciente de que não há nada de novo debaixo do sol.

As desgraças sucedem-se perante o olhar anestesiado destes colegas, que despacham o copo de três ao ritmo lamurioso da televisão, voltando apenas a mostrar sinais de vida quando se anuncia a morte de uma idosa, atropelada acidentalmente pelo marido. A notícia desta tragédia, depois das histórias de criminalidade e do incêndio numa prisão em Matosinhos, tem o impacto de um alívio cómico. O mais entusiasta dos dois sorri com a forma sempre nova que a morte encontra para nos surpreender, ao passo que o outro lamenta o azar do pobre casal.

Antes de me ir embora, o senhor José diz que um dia viu no cinema uma frase que o marcou muito: “A liberdade não é difícil de conseguir, mas é muito difícil viver com ela”

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

A seguir, narra-se o episódio de um ovarense, subitamente reduzido à condição de homem por uma manchete que anuncia: “Sequestrado vive terror: Apontaram arma à cabeça do homem”, numa narrativa que elimina as contingências espaciotemporais da história para, enfim, despertar da apatia os impávidos espectadores, que assim talvez sintam o leve terror intercalado pelos anúncios a um suplemento vitamínico. Nada feito, não funcionou.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Pedem a conta e preparam-se para sair enquanto aquele canto de sereia teima em arrastá-los para uma história que, passada em Bragança, soa a hollywoodesca: Nélida e Sidney, a versão patusca de Bonnie e Clyde, tentaram atropelar GNR e PJ. Ao que parece, a história é de há uns anos, mas, como acontece com as epopeias que verdadeiramente importam, parece ter acontecido hoje e sempre. Sento-me, enfim, enquanto espero por notícias de Bruxelas.

Um homem passou a última hora a entrar e a sair do snack-bar. Quando sai, fuma um cigarro, quando entra, bebe um vinho gaseificado que partilha o nome com o estabelecimento comercial.

Espero mais um pouco.

Duas octogenárias sentam-se na mesa atrás de mim para tomarem um café e um rissol enquanto põem a conversa em dia. Peço para me juntar e elas acedem relutantemente. Anuncio que venho da parte do Observador e a mais afoita das duas diz-me que não lê jornais, só vê aquilo, apontando para a televisão onde se apresenta o novo episódio da novela do José Castelo Branco. A seguir, anuncia-me que isto anda tudo a roubar, declara o seu apoio ao Chega e apela aos leitores deste jornal que, em vez de perderem tempo com artigos desinspirados deste cronista, vejam antes o programa A Verdade da Mentira, no canal da Igreja Maná, onde aos sábados garante ser habitual ver deputados do Chega.

Antónia começa a citar com uma desenvoltura impressionante alguns versículos da Bíblia, enquanto discutem a inevitabilidade de se ficar doente quando se envelhece. Depois, falam de outros tempos, em que Sá-Carneiro, Soares e o CDS ainda estavam vivos.

Depois, e de forma algo surpreendente, defende com unhas e dentes artigos da Constituição que eu desconhecia por completo. Pergunto-lhe o nome e ela, destemida, diz que não tem problema nenhum em dizer que se chama Maria Antónia, anunciando ainda que não tem vergonha de Deus, para que depois, chegada a sua hora, Deus não se envergonhe dela.

Juliana, mais tímida, proíbe-me de partilhar o seu nome com os leitores, antes de dizer que a religião mudou muito nos últimos tempos e que por isso se afastou da Igreja Católica onde crescera, sem contudo a trocar por uma nova. A gota de água foi a ligeireza com que hoje se comunga sem antes se jejuar. Não acha bem. Acha mal. Ainda assim, confessa que também só lá ia porque as patroas da mãe a obrigavam.

Maria Antónia volta à ribalta, para contar a história da sua conversão. Era católica (“cá somos todos”), mas o pai do seu filho cegara ao voltar da Guiné e, depois de uma digressão por todos os bruxos e médicos de Lisboa, foi curado por um pastor. Apesar da falta de visão, diz, tornou-se um evangelizador que nem imagina. Juliana aproveita um momento de distração de Antónia com as notícias de Betty para me dizer que na igreja da amiga são todos uns exploradores. Pergunto-lhe se falam sobre isso e Antónia, que só parecia desatenta, responde, sem desviar os olhos da televisão: “Nem vale a pena”. “Mas respeitamo-nos muito uma à outra”, garante Juliana. “Está bem, mas não andamos aí aos abraços”, diz Antónia, num suspiro, acrescentando: “Quando esteve no hospital, não esteve praticamente morta? Quem é que intercedeu por si? Fui eu! Não vale a pena, está a ver?”.

Anuncio que venho da parte do Observador e a mais afoita diz-me que não lê jornais, só vê aquilo, apontando para a televisão onde se apresenta o novo episódio da novela do José Castelo Branco

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Antónia começa a citar com uma desenvoltura impressionante alguns versículos da Bíblia, enquanto discutem a inevitabilidade de se ficar doente quando se envelhece. Depois, falam de outros tempos, em que Sá-Carneiro, Soares e o CDS ainda estavam vivos. Antónia lamenta que só o Chega ensine as pessoas a agir segundo a Constituição e eu sinto a necessidade de garantir que estamos a falar da mesma coisa. A seguir, discutem a idade de Juliana. Juliana diz ter 87 anos, mas Antónia garante serem só 83. À hora de fecho desta edição, ainda não fora possível chegar-se a um consenso.

Antónia tem um sorriso malandro, quase infantil, difícil de descrever, tenho pena de que não estivessem lá comigo para o verem. Fala-me de alguns milagres do apóstolo da sua igreja, anuncia que as imagens da guerra da Ucrânia são coisas muito antigas, que Marcelo andou a negociar com os russos em São Tomé e que Sá-Carneiro foi assassinado por malta do PSD, enquanto, de dez em dez segundos, faz o gesto de quem arruma os pratos e chávenas da mesa, pega na carteira e se prepara para sair.

Finalmente, levantam-se. Juliana sussurra-me: “Isto também já é fanatismo a mais” e volta a dizer que não permite que use o seu nome, mas que podemos usar as fotografias. Pergunto-lhe como se quer chamar e Juliana diz-me o seu nome completo. Volto a explicar, Juliana diz que, pronto, sabe lá ela, tanto faz e Maria Antónia, já junto à porta, grita: “Diga um nome qualquer. Fica Juliana, pronto.” E lá vão elas, rua abaixo.

O senhor José conta-me que veio de Viseu para Lisboa sozinho aos 13 anos e que gosta de governos que façam coisas, enquanto, lá ao fundo, sem som, Sebastião Bugalho é levado em ombros por dois indivíduos com ar de guarda-costas.

Na televisão, vejo o Jorge Gabriel apresentar a segunda meia-final dos Cantares ao Desafio, onde os artistas versam alegremente sobre herança e traição. Lá fora, Joana bebe um café para acalmar, depois de quase ter batido com o carro a levar os filhos à escola. Pergunto pelas Europeias, mas nada me diz. O marido vem ali ter e seguem para o restaurante de sushi que abriram há uns meses nas Avenidas Novas.

A seguir, falo com outra Joana, desta feita uma optometrista que trabalha ali na porta ao lado e que me fala do sonho juvenil de entrar na Academia Militar, traído pela sua baixa estatura, da vontade de ver os Scorpions este ano no Rock in Rio e do arraial a que irá mais logo com as amigas. Depois, vai trabalhar e eu aproveito para trocar dois dedos de conversa com o senhor José, um autoproclamado conservador do Norte que trabalha no Pirata desde que o café se transferiu para ali vindo dos Restauradores. Conta-me que veio de Viseu para Lisboa sozinho aos 13 anos e que gosta de governos que façam coisas, enquanto, lá ao fundo, sem som, Sebastião Bugalho é levado em ombros por dois indivíduos com ar de guarda-costas.

O senhor José confessa que está esperançoso num Portugal melhor, mas, olhando sobre o ombro para a televisão, parece nem reconhecer o rapaz entronizado, tão distante daquele outro que há décadas chegara a Lisboa sem ninguém à sua espera. Antes de me ir embora, diz que um dia viu no cinema uma frase que o marcou muito: “A liberdade não é difícil de conseguir, mas é muito difícil viver com ela”. Aponto-a no meu caderno, enquanto ele pega no comando para mudar de novo para a RTP onde três raparigas de biquíni se preparam para descer no escorrega gigante do Parque Aquático de Amarante, e pergunto que filme era esse. Encolhe os ombros. Já não se lembra.

 
Assine o Observador a partir de 0,18€/ dia

Não é só para chegar ao fim deste artigo:

  • Leitura sem limites, em qualquer dispositivo
  • Menos publicidade
  • Desconto na Academia Observador
  • Desconto na revista best-of
  • Newsletter exclusiva
  • Conversas com jornalistas exclusivas
  • Oferta de artigos
  • Participação nos comentários

Apoie agora o jornalismo independente

Ver planos

Oferta limitada

Já é assinante?
Apoio a cliente

Para continuar a ler assine o Observador
Assine o Observador a partir de 0,18€/ dia
Ver planos

Oferta limitada

Já é assinante?
Apoio a cliente

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

Ofereça artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.

Apoie o jornalismo. Leia sem limites. Apoie o jornalismo. Leia sem limites.
Desde 0,18€/dia
Apoie o jornalismo. Leia sem limites.
Apoie o jornalismo. Leia sem limites. Desde 0,18€/dia
Em tempos de incerteza e mudanças rápidas, é essencial estar bem informado. Não deixe que as notícias passem ao seu lado – assine agora e tenha acesso ilimitado às histórias que moldam o nosso País.
Ver ofertas