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Nunca vai haver unanimidade nesta coisa das listas de melhores do ano. Mas esse não era o nosso objetivo, portanto está tudo bem. Juntámos os viciados em séries que mais nos ajudaram a conhecer e avaliar o que foi acontecendo ao longo do ano e fizemos uma pergunta simples: afinal o que mais gostaram de ver? E o que menos gostaram? E já que estamos numa de fazer contas, agora que chegamos ao final da década, o que marcou a produção televisiva? Este é o resultado, com drama, ação, comédia e uns quantos dragões pelo meio.

Alexandre Borges

Melhor série: “Mindhunter”, temporada 2 (Netflix)

No meio de tanto serviço de streaming, tanta box, tanto VOD, tanta rede social e tanto amigo histérico a dizer que “temos de ver” isto e aquilo, há um conforto em refugiarmo-nos na sobriedade de “Mindhunter”. Assinada pelo dramaturgo Joe Penhall e com aquela qualidade davidfincheriana de imagem e abordagem (Fincher produz e, volta e meia, realiza), “Mindhunter” trata os primórdios da psicologia criminal e o nascimento do conceito de “assassino em série”. A segunda temporada é ainda melhor do que a primeira, adensando a trama para dentro da história familiar das personagens. As pièces de résistance, porém, permanecem as entrevistas dos agentes Holden Ford e Bill Tench, na prisão, aos serial killers – pequenos “Silêncio dos Inocentes” em binge-watching.

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Pior série: “Guerra dos Tronos”, temporada 8 (HBO)

Claro que não foi a pior série do ano, até porque ninguém tem tempo sequer de ver as séries realmente más (tomara conseguirmos ver metade das boas). Mas “GoT”, até por ter sido a melhor da década (como diremos abaixo), representou, na derradeira temporada, a encarnação da maior deceção para os fãs, as hordas de fãs espalhadas por esse mundo com muito mais de sete reinos. O excesso de expectativa foi, certamente, um problema, mas foi alimentado e justificado por uma marca que, durante anos, foi literatura, tragédia, Shakespeare, clássico instantâneo, para, no final, acabar com travo a banalidade. Salvam-se os episódios 4 e 5 e todas as discussões que tivemos em volta do assunto.

Melhor personagem: Norman Newlander, “O Método Kominsky” (Netflix)

Entre os dragões de “GoT” e os mistérios do paranormal de “Dark”, “Stranger Things” e afins, quão corajoso é contar uma história em que o grande inimigo é a hipertrofia da próstata? “O Método Kominsky” vai em duas temporadas onde quase tudo vale a pena (quão bonita continua Jane Seymour, aos 68 anos?), mas aqui o elogio é para Norman Newlander, o co-star de Michael Douglas, agente bem-sucedido, viúvo saudoso e incorrigível rezingão. Você poderá ter outros planos para a reforma – uma quinta no interior, uma casa na praia, tempo para brincar com os netos – nós queremos ser Norman, aquele velho que já se está nas tintas para o que os outros querem ou não querem, gostam ou não gostam, pensam ou não pensam dele. Um show de Alan Arkin, 85 anos, sem rejuvenescimentos digitais.

Melhor episódio: “The Happiness of All Mankind”, número 4 da série “Chernobyl” (HBO)

Vivemos num mundo cheio de opiniões e certezas em que uma série aclamada durante nove anos é substituída na semana seguinte por uma de cinco episódios no lugar de “melhor de sempre”. Mas não se preocupem: seis meses depois, provavelmente já ninguém se lembra sequer que essa nova “melhor série de sempre” foi este ano. “Chernobyl” foi a Mona Lisa do mês nesse já longínquo maio e levou a fenómenos como bandos de idiotas esvoaçando para Pripyat, fazer fotos sexy em zonas de desastre nuclear (Instagram oblige e, afinal, se tiverem crianças com três olhos, dará para ainda mais fotos com bué da buzz). Esquecido o assunto, já se pode dizer que a série de Craig Mazin (realizada por Johan Renck) era amiúde esquemática: na fábrica, no hospital ou no seio da discussão política, todo o debate era montado com 99% dum lado a achar que não havia razão para alarme e um iluminado solitário do outro, a gritar que íamos todos mas era fazer companhia ao Lenine empalhado se não agíssemos rapidamente. “Chernobyl”, na nossa opinião, só se eleva à categoria de arte ao quarto tomo, quando sai das salas onde andou fechada, para fazer a “limpeza” da “Zona de Exclusão” nos quase 30 quilómetros quadrados em torno do epicentro do desastre. É daí que sai o cartaz da série e alguns dos seus momentos mais cruéis e humanos, como o abatimento dos animais domésticos.

Série da década: “Guerra dos Tronos” (HBO)

Não há mais a dizer acerca da “Guerra dos Tronos”. De como tirou e voltar a tirar uma e outra e outra vez o tapete ao espectador nas cenas mais emblemáticas, da garrafa de água ao copo de Starbucks esquecidos em cena, tudo foi cruelmente adorado e escrutinado. Aproximou as pessoas que a viam e até as que a não viam, que passaram a cultivar uma espécie de declaração pública de ignorância/imunidade ao fenómeno. Lançou uma galeria de personagens, nomes, lugares, símbolos e até palavras na cultura popular (“Valar morghulis”). Já não é bem uma série de televisão ou sequer a saga literária original que adaptou; ascendeu ao imaginário coletivo dum mundo global, ao lado das figuras da “Guerra das Estrelas” ou do Super-Homem, mas com um travo de “Hamlet” ou “Macbeth” que fez dela um deslumbre entre públicos que, em teoria, já teriam passado a idade do deslumbre. A única coisa que temos a temer é a enxurrada de sequelas, prequelas, remakes e spin-offs.

Personagem da década: Tyrion Lannister, “Guerra dos Tronos” (HBO)

Ele bebe e sabe coisas e conhece o poder das histórias. Nunca se esquece dos seus defeitos porque os inimigos dele também não esquecem. Construiu a sua condição de sábio nas nobres escolas dos bares e bordéis da capital. Pelo meio, foi o mal-amado, o aleijado que matou a mãe à nascença, numa família de príncipes perfeitos. Fugazmente, passou pela condição de herói, com os serviços a serem pagos com um corte de espada ao longo do rosto e uma cicatriz que nunca mais o deixasse esquecer. Serviu-se e serviu. Escolheu, ao contrário de todos os outros, o lugar onde deveria estar, em vez de deixar que apenas o sangue ou a ambição o ditassem. E (spoiler alert!) desfechou uma seta na tromba do pai, que estava de sanita e lhe tinha andado com a namorada. O extraordinário Peter Dinklage ajudou a fazer de Tyrion Lannister – ou, simplesmente, “o anão” – a maior personagem da década. Uma que, com sorte, ajudou alguns espectadores a fazerem as pazes com os seus próprios defeitos. Haverá lá coisa mais heróica.

André Almeida Santos

Melhor série: “The Boys”, temporada 1 (Amazon Prime Video)

Pouco depois de “Avengers: Endgame” ter estreado, chegava ao Prime Video este “The Boys”, num ano em que haveria outra reflexão sobre super-heróis com “The Watchmen” na HBO. Escolher entre uma e outra é difícil, mas “The Boys” tem a virtude de se fazer sentir mais presente, com uma crítica assertiva de como seria uma Disney se os super-heróis fossem mesmo verdadeiros. Além disso, é ácida e muito segura do seu humor, que pode ser negro ou não, conforme o palato de cada um.

Pior série: “The Handmaid’s Tale”, temporada 3 (Hulu)

É importante saber parar. E a torneira de criatividade devia ter sido fechada algures na segunda temporada de “The Handmaid’s Tale”, que estava a ser ótima até aos momentos finais do último episódio. A terceira só vem confirmar a certeza desses minutos finais: “The Handmaid’s Tale” tornou-se numa série repisada e que deixou de ser oportuna, que é exatamente o oposto daquilo que era quando surgiu.

Melhor personagem: Fleabag, da série “Fleabag”, temporada 2 (Amazon Prime Video)

Phoebe Waller-Bridge entrou nas bocas do mundo no ano passado graças a “Killing Eve” e neste ano a sua genial criação, “Fleabag”, teve a atenção que merece. A sua personagem, que dá nome à série, é um conjunto de erros que refletem os tropeções e os mimos de uma geração e de um tempo. Contudo, Phoebe não os trata como erros, defeitos ou feitio, mas como componentes de um perfil que servem uma história que trabalha bem o absurdo que pode ser viver no presente.

Melhor episódio: “Line of Duty — Episode 6″ (BBC/Netflix)

O último episódio da mais recente temporada de “Line of Duty” é um épico policial, “policial” no sentido que “Line of Duty” construiu, a acontecer nos corredores da brigada anti-corrupção e sessões de interrogatório. Desde que “Line of Duty” surgiu, em 2012, que as salas de interrogatório deixaram de ser apenas um artifício de tensão na narrativa para se tornarem uma narrativa por si só. É onde a melhor ação de “Line of Duty” acontece e, prova disso, é a forma como dúvidas e soluções se encontram neste episódio.

Série da década: “South Park”

É fácil justificar porque é que uma série de 1997 foi a melhor – e a mais relevante – dos 2010s. Porque, ao contrário do resto do mundo, os seus criadores, Trey Parker e Matt Stone, não querem saber o que se pensa deles. Por isso gozam com tudo: com o que está certo, com o que está errado, apontando o dedo àquilo que acham ridículo. Sem paninhos quentes. Estão no seu direito. E são oportunos, continuam a ser as vozes mais oportunas da América do século XXI. Em 2014 decidiram romper com o modelo da série e criar temporadas contínuas. O resultado? “South Park” tornou-se ainda melhor. E numa década em que o consumidor tem de pagar por conteúdos em fontes diferentes, é bom existir um programa que disponibiliza todos os seus episódios gratuitamente. Ah, e ainda tiveram tempo para fazer dois filmes/videojogos maravilhosos: “The Stick Of Truth” e “The Fractured But Whole”.

Personagem da década: Jon Snow (“Guerra dos Tronos”)

A morte e a ressurreição de Jon Snow mostraram o que estava certo e o que se tornou errado com “Guerra dos Tronos”. Séries como esta conquistaram uma audiência porque quiseram romper com modelos e moldar a relação dos afetos dos espectadores com as personagens. Mas assim que tiveram maior atenção, cederam. A morte e a ressurreição de Jon Snow, cuidadosamente enfiadas entre uma temporada e outra, são o pragmatismo do mercado em ação. Fomos bem enganados.

Susana Romana

Melhor Série: “Fleabag” (Amazon Prime Video)

2019 assistiu ao regresso de “Fleabag”, numa segunda temporada que se jura a pés juntos ser mesmo a última, independentemente dos prémios que arrecadou e arrecadará. Desde a estreia dos seis episódios originais, em 2016, que muita gente me recomendava a série, com essa frase feita tão pouco eficaz que é “é a tua cara!”. Num claro sintoma de birra adolescente tardia, protelei durante três anos ver “Fleabag” só mesmo por não querer vergar à insistência, como se me estivessem a mandar arrumar o meu quarto. Grande erro: a criação de Phoebe Waller-Bridge é nada menos do que brilhante. Escrita com detalhe, acutilância e frescura e representada por atores tão certos para aqueles papeis que tornam impossível um remake com quaisquer outras pessoas na face do planeta. É extremamente divertida sem deixar de ser também extremamente triste. É altamente relacionável sem deixar de ser altamente surpreendente. Não vale a pena fazer-vos perder tempo com uma sinopse, porque aqueles diálogos é que nos arrebatam. Não esperem três anos. Arrumem o quarto e vejam esta série.

Pior Série: “Handmaid’s Tale”

Sim, estou pronta para o ódio que vou gerar com esta escolha. Peço só às pessoas que me vão xingar que tirem uma senha e façam uma fila ordeira. À terceira temporada, oficializei que não quero mais ver “Handmaid’s Tale”, série cuja primeira temporada muito apreciei. Acabada a timeline do romance original de Margaret Atwood, publicado em 1985, a série começou a perder o seu rumo. Numa altura em que esta ficção distópica e o estado do mundo parecem brincar a um triste jogo de Descubra As Diferenças, é uma pena. Mas as personagens perderam tridimensionalidade, a história perdeu ritmo e os diálogos ficaram menos acutilantes. Resumindo: ficou aquilo a que se dá o nome técnico de “uma valente seca”.

Melhor Personagem: Selina Meyer, “Veep” (HBO)

2019 viu-nos despedir daquela que é, talvez, a sitcom mais bem escrita de sempre. Em sete temporadas, não há um único episódio fraco nem uma única conversa sem diálogos tão bem escritos que eu dava por mim a gritar para a televisão, qual adepto a ver a sua equipa a fazer sempre a jogada perfeita para golo. E muito desse mérito cabe à protagonista, tão bem desempenhada por uma cada vez melhor Julia Louis-Dreyfus. Começa como uma Vice Presidente de um POTUS que nem sequer sabemos se é democrata ou republicano, e passa por uma montanha ruma que a leva de Presidente a desempregada, a talvez Presidente outra vez. Selina Meyer quis deixar a sua marca no mundo a todo o custo, sempre egocêntrica e com a capacidade de empatia de uma amiba anémica. Numa altura em que a realidade suplanta a ficção (apareceu um tal de Trump no mundo real), deixar marca na televisão já é uma notável proeza.

Melhor Episódio: “Exit Event”, Silicon Valley, temporada 6

Nas suas seis temporadas, “Silicon Valey” conseguiu ser mais assustador do que “Black Mirror”. Sim, eu sei, é uma sitcom e não uma distopia agreste. Mas se “Black Mirror” nos faz temer um futuro no qual mentes inteligentíssimas vão colocar a tecnologia num tal patamar que esta deixa de ser nossa aliada para se tornar em nossa Némesis, já “Silicon Valley” mostra que a nossa privacidade e a nossa pegada digital estão nas mãos de, vá, imbecis com grande propensão ao erro humano. É capaz de ser pior. Durante seis anos, a série sobre o grupo de programadores que quer mudar a internet foi tão divertida como credível. Apesar de ser fácil de acompanhar pelo comum mortal, nunca evitou o jargão técnico e nunca teve a tentação de nos apresentar cenários tecnologicamente impossíveis. A empresa tecnológica Pied Pipper deu tantas voltas ao longo dos anos que era muito difícil conseguir um último episódio tão coeso e lógico como divertido e surpreendente. Mas no seu último flic flac, a série aterra perfeita, uma nota dez digna de ginasta soviética. Tudo aquilo faz sentido. Tenham medo, tenham muito medo.

Série da década: “Breaking Bad” (Netflix) e “Guerra dos Tronos” (HBO)

Este empate técnico é simples de explicar: “Breaking Bad” é a melhor série da década (na verdade, estreou-se em 2008 e foi até 2013); mas “Guerra dos Tronos” é a mais importante. Se a saga de Walter White no mundo das drogas ajudou a fortificar a televisão como um meio de excelência para não só atores como também para guionistas, a história da disputa ao Trono de Ferro implodiu os limites do que é um blockbuster, levando-o muito mais além das salas de cinema IMAX. Em 2019, “Guerra dos Tronos” chegou ao fim com uma polémica que os anos hão de esbater e “Breaking Bad” voltou para um último suspiro com “El Camino”. Mas mais do que os seus finais, foi mesmo a viagem destas séries que as elevou ao patamar de icónicas. Ambas se entranharam na cultura pop, criando bordões repetidos pelos fãs à exaustão (de “I am the one who knocks” até “Winter is coming”) e servindo de modelo que os canais e plataformas de streaming esperam repetir com semelhante sucesso. Há uma televisão antes e depois de ambos estes portentos.

Personagem da década: Saul Goodman

Se em “Breaking Bad”, o advogado trapaceiro Saul Goodman era uma espécie de alívio cómico de todo aquele negrume, em “Better Call Saul” (a prequela, ainda em andamento) é um dos grandes personagens dramáticos da televisão da década. Em ambas as faces desta mesma moeda, que em nada se contradizem, é igualmente eficaz e assombroso. Bob Odenkirk um reputado ator e guionista de comédia, sendo um dos autores dos Simpsons ou dos primórdios do Late Night de Conan O’Brien, é, também pasme-se, um magistral ator de drama. E o adorável rapaz da sala do correio de um escritório de advocacia Jimmy McGill vai dar lugar ao advogado pintas e corrupto Saul Goodman é assim o mais completo e complexo personagem da década.

Tiago R. Santos

Melhor série: “Succession”, 2ª Temporada (HBO)

Como um Shakespeare profano ou uma tragédia Grega se Édipo fosse viciado em cocaína e um dos possíveis herdeiros de uma empresa multinacional de Comunicação liderada pelo pior pai de sempre, a série de Jesse Armstrong foi sendo brilhante até – com um simples e subtil sorriso no seu plano final – se tornar extraordinária.

Menção Honrosa: “Mr. Robot”, 4ª (e última) temporada.

No momento da escrita deste artigo, ainda não foram exibidos os últimos 4 episódios de “Mr. Robot”, mas já ficou claro que Sam Esmail e Rami Malek guardaram o melhor para o fim. Há um episódio sem diálogos, outro que poderia ser uma intensa peça de teatro; há revoluções globais que mudam o mundo e revelações pessoais que o destroem. É televisão — escrita, filmada e interpretada — ao milímetro.

Pior série: “After Life” (Netflix)

A vida sempre foi curta para más séries — ainda mais agora, nesta Época de Ouro, onde cada semana se estreia mais um título que merece a nossa atenção. Por isso, admito só ter visto o primeiro episódio de “After Life”, a série escrita por Ricky Gervais. Assumindo o risco de ser injusto e precipitado, não sei o que achei pior: a realização incapaz de tornar credível um simples diálogo (a cena entre Gervais e dois jovens assaltantes tem o ritmo e a verosimilhança de um primeiro ensaio para uma peça de teatro amador de domingo à tarde) ou a condescendência narrativa que quer obrigar o espectador a simpatizar com o cretino do protagonista pela pior razão de todas – por pena.

Melhor personagem: o Ano da Mulher

A grande maioria dos projetos demoram anos a chegar ao ecrã. Mas julgo que não será coincidência que, num momento em que tanto se discute questões de género – a  justa exigência de igualdade, seja salarial ou de oportunidade –, 2019 fique marcado pela multiplicação de incríveis personagens femininas que quebram os habituais clichés da mulher que fica em casa enquanto o homem se coloca em aventuras. Temos a destemida Sister Night em “The Watchmen”, as empáticas detectives Grace Rasmussem e Karen Duvall que resolvem o caso de Marie Adler em “Unbelivable”, a prostituta tornada realizadora de culto Eileen “Candy” Merell no magnífico e literário “The Deuce”, a ladra Daisy “Jett” Kowalski, tão cool e sexy que poderia ter saído de um thriller erótico escrito por Elmore Leonard, e a genial Phoebe Waller-Bridge em “Fleabag”. Espaço ainda para o elenco de “Big Little Lies” (mesmo se a 2ª Temporada é uma perda de tempo), a irreconhecível Patricia Arquette no pop-trash-irresistível do “The Act”, a resistente June Osborne de “The Handmaid’s Tale”, a pobre Alma que vai deslizando pelo tempo em “Undone” – ao contrário de Natasha Lyonne, que está presa no tempo em “Russian Doll” – e acabamos com a bela relação entre Zendaya e a trans Hunter Schafer no híper-sexualizado “Euphoria” e a recente “Mrs. Fletcher”, dona de casa que se vicia em pornografia depois do filho ir para a faculdade.

Melhor episódio: “ronny/lily” da 2ª temporada de Barry (HBO)

Um tipo que nunca antes vimos chega a casa. Acende um charro. Repara que uma janela está aberta. Fecha-a. Vai até à sala. Ouve uma voz nas suas costas. “Não te passes. Não te passes. Fui enviado aqui pelo detetive John Loach para te matar”. Quem fala é Barry, o assassino aspirante a ator que está à procura de redenção mas encontra antes — neste brilhante e lunático episódio realizado pelo próprio Bill Hader — um medalhado praticante de taekwondo e a sua animalesca filha de seis anos. São 30 minutos de humor negro e tremenda violência, como se o Coiote andasse a tentar dar cabo do Pernalonga pelas ruas e supermercados de Los Angeles.

Série da década: “A Guerra dos Tronos” (2011-2019, HBO)

Não há volta a dar. A série que David Benioff e D. B. Weiss criaram a partir dos livros de George R. R. Martin não só percorre toda esta década como fez “geeks” de nós todos. Terá sido, provavelmente, a última vez que se seguiram episódios de uma série como se fosse um evento desportivo – ao vivo e em tempo real no ecrã da televisão, não fosse alguém estragar o resultado e dizer quem é que morreu onde e como. Não é a melhor série da década (de forma nenhuma), mas é “a” série da década.

Personagem da década: dois por cento da população mundial

São as pessoas que desaparecem em “The Leftovers“ (2014-2017, 3 temporadas), num evento sem explicação que deixa marcas profundas em todos aqueles que continuam neste bizarro planeta Terra. A série criada por Tom Perrota e Damon Lindelof não teve o reconhecimento merecido. Mas é sublime, um estudo sobre a dor e a perda e a confirmação da resiliência como principal característica para a sobrevivência da espécie humana. É surreal e sobrenatural mas as suas emoções são tão identificáveis e viscerais que o espectador nunca fica abandonado em território desconhecido – é antes transportado para uma realidade que expande o que é estar vivo.