Atentados, guerra, amizade, terror, famílias: os dez melhores filmes de 2018 /premium

24 Dezembro 2018236

Vieram dos EUA, de França, do Japão ou do México, e contam histórias muito diferentes, reais ou imaginadas, em vários géneros. Eurico de Barros escolheu os seus dez filmes favoritos de 2018.

Nomes sobejamente conhecidos como Clint Eastwood, Paul Thomas Anderson, François Ozon, Hirokazu Kore-era ou Alfonso Cuarón, mas também outros menos familiares, caso de Na Hong-Jin, Martin McDonagh ou Ryusuke Hamaguchi, assinam os dez melhores filmes estreados em Portugal em 2018. Esta é a seleção feita por Eurico de Barros, crítico de cinema do Observador, agora que o ano se aproxima do final.

“Três Cartazes à Beira da Estrada”, de Martin McDonagh

Uma habitante de uma cidadezinha do Missouri (Frances McDormand) indignada com a demora do xerife local (Woody Harrelson) em descobrir o violador e assassino da sua filha, um agente (Sam Rockwell) burro, incompetente e violento, três cartazes de protesto postos na estrada que vai dar à cidadezinha. O argumentista, dramaturgo e realizador irlandês Martin McDonagh assina este filme cheio de personagens intensas e agressivas, peripécias imprevisíveis e reviravoltas quebra-costas, que casa a tragédia pesada e o humor negro. Interpretações de mão cheia de McDormand, Harrelson e Rockwell.

“15.17 Destino Paris”, de Clint Eastwood

A recriação do atentado falhado do comboio Thalis em França, em 2015, filmada por Clint Eastwood sem ganga de espectacularidade, empáfia patriótica, discursos heroicos inflamados e retórica ideológica ou cinematográfica, e trabalhando nos limites da economia, da elipse, da síntese narrativa, psicológica e visual. Eastwood põe os três americanos que evitaram o atentado a interpretarem-se a eles próprios e, ao recordar a vida do trio desde a infância até ao momento em que impediram a tragédia, destaca a capacidade para o heroísmo das pessoas mais anónimas e quotidianas. Mete qualquer filme de super-heróis num chinelo.

“Linha Fantasma”, de Paul Thomas Anderson

Daniel Day-Lewis despediu-se da representação na crista da onda, com este fabuloso papel em que incarna o costureiro da alta sociedade inglesa dos anos 50 Reynolds Woodcock, esteta e perfeccionista, misantropo e aristocrático, e incapaz de se submeter à vontade de outrém, no trabalho ou na intimidade, e que se vê livre das amantes como se fossem figurinos que passaram de moda. Paul Thomas Anderson assina, com requinte clássico, este filme sobre um homem habituado a nunca ceder, e uma mulher, Alma (Vicky Krieps), determinada a conquistá-lo, que é ainda sobre uma luta pelo poder: pessoal, doméstico, profissional, do coração.

“O Lamento”, de Na Hong-jin

É da Coreia do Sul que vem algum do melhor cinema de terror de hoje, como se pode ver por “O Lamento”, a resposta local a “O Exorcista”. Na Hong-jin pega no tema da possessão demoníaca, integrando-o no contexto cultural e religioso sul-coreano, instalando a pouco e pouco uma atmosfera malsã e cerrada de terror sobrenatural com implicações teológico-metafísicas. E fá-lo não à força do recurso a uma bateria de efeitos digitais, mas apoiando-se nos atores, nos efeitos de maquilhagem, no ambiente invernoso em que a história decorre, em sugestões visuais de ressonâncias arrepiantes e num par de guinadas narrativas. Até o demónio de “O Lamento” é original.

“Frantz”, de François Ozon

Um dos melhores filmes de François Ozon, passado após a I Guerra Mundial, entre a França e a Alemanha, que adapta e prolonga uma peça pacifista de Maurice Rostand  que Ernst Lubitsch filmou nos anos 30. Servida por uma assombrosa interpretação da alemã Paula Beer, “Frantz” é uma fita austera, romanesca e comovente, embora nunca melodramática, rodada a preto e branco, que diz que os vivos também são vítimas de guerra e podem ser assombrados para sempre pelos mortos bem-amados, mas também ser unidos no infortúnio por eles; e que o perdão, mesmo dado com relutância, ajuda a ultrapassar o ódio.

“Guerra Fria”, de Pawel Pawlikowski

Inspirando-se, com muitas liberdades, na vida dos seus pais, o polaco Pawel Pawlikowski, conta a história de uma paixão complicada, turbulenta e indestrutível ao longo da Guerra Fria, vivida por Zula (Joanna Kulig) e Wiktor (Tomasz Kot), ela bailarina e cantora, ele parte da equipa do grupo folclórico onde ela atua. Sob a aparente austeridade e frigidez do preto e branco em que foi filmado , “Guerra Fria” é um filme emocionalmente arrasador e magistralmente elíptico, com uma banda sonora omnipresente e musicalmente correlativa dos acontecimentos da história e dos humores e estados de alma dos dois protagonistas.

“Happy Hour: Hora Feliz”, de Ryusuke Hamaguchi

Com mais de cinco horas de duração e estreado em partes, este filme do japonês Ryusuke Hamaguchi centra-se em quatro amigas na casa dos 40 anos que vivem na cidade costeira de Kobe e se encontram em situações sentimentais, matrimoniais e domésticas muito diversas. “Happy Hour: Hora Feliz” invoca cineastas tão diversos como Naruse, Rohmer ou Edward Yang, e é um monumento de naturalismo, um trabalho de ourives sobre a verdade humana, emocional e psicológica das personagens e ainda uma radiografia detalhada e sensibilíssima dos hábitos e das relações culturais, familiares e sociais no Japão contemporâneo.

“O Interminável”, de Justin Benson e Aaron Moorhead

Esta fita independente de terror cósmico cruzado com ficção científica, que incorpora as atmosferas e entidades dos livros de Lovecraft e o espírito da arte de Escher, foi uma das melhores surpresas de 2018. Jason Benson e Aaron Moorhead fazem tudo em “O Interminável”: realizam, escrevem e interpretam. E mesmo sem terem dinheiro para efeitos especiais vistosos, criam um clima de horror surdamente omnipresente e um sentido de ameaça sobrenatural iminente, pela sugestão, pela acumulação de acontecimentos estranhos e pela perturbação da nossa perceção do real e da normalidade espácio-temporal.

“Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões”, de Hirokazu Kore-eda

O realizador de “Ninguém Sabe” e “Tal Pai, Tal Filho”, ganhou o Festival de Cannes com este filme em que continua a explorar o tema da família e das muitas formas que pode assumir. Aqui, trata-se de uma família pobre, numerosa e feliz dos subúrbios de Tóquio, unida pela prática do furto, do pequeno delito, do biscate e do emprego precário, mas na qual o que parece afinal de contas não é. Embora, paradoxalmente, funcione melhor do que muitas famílias convencionais. Kore-eda dirige magistralmente um conjunto de intérpretes de várias idades e atinge uma calorosa, tocante e amarga verdade humana.

“Roma”, de Alfonso Cuarón

O título não se refere à capital de Itália, mas sim ao bairro de classe média levemente decadente da Cidade do México onde Alfonso Cuarón viveu na infância com a sua numerosa e agitada família, duas criadas e um cão. O realizador recria à lupa e a preto e branco, um ano melindroso da sua vida, e da dos seus, entre 1970 e 1971, homenageando a sua afetuosa e dedicadíssima criada Cleo, que é o pivô narrativo e a antena emocional da fita. Ajudado por um elenco quase todo não-profissional, Cuarón vai da pequena bolha da família ao bulício da grande cidade e às convulsões nacionais, do mais íntimo ao coletivo, criando um filme belíssimo no gesto cinematográfico e no discursos dos sentimentos.

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